Sword Art Online Alicization – Invading – Capítulo 14 – Parte 1 e 2

Arco: Sword Art Online Alicization Underword – Invading

Capítulo 14 – Subtilizer

Sword Art Online Alicization Underworld - Volume 15Prólogo (junho – julho de 2026)

A sniper possuía a silhueta de menina frágil que, junto com seus belo cabelos azuis claros, criava uma estranha sincronia com o enorme rifle calibre .50.

Ela estava ajustando seu posicionamento de costas para mim e infelizmente, não pude ver seu rosto.

Entretanto, mesmo com essa aparência, sua presença era imponente e extremamente ameaçadora, como se fosse um lince, pois sua roupa, cheia de detalhes, assim me pareceu.

A concentração era inacreditável, não mostrava nenhum sinal de vacilo. Seu olho direito estava perfeitamente acoplado à mira do rifle com seu dedo indicador suavemente sobre o gatilho.

Gostaria de continuar apreciando esse espetáculo por muito mais tempo, porém, minha permanência aqui já estava no limite.

Deixando meu esconderijo, comecei a caminhar cautelosamente por entre as ruínas do edifício, tomando cuidado para não esbarrar em nenhum objeto disperso no chão.

Mantendo esse avanço, finalmente consegui ficar sobre as costas da menina que continuava concentrada em sua mira.

Então, como um relâmpago, ela se virou.

Como ela havia me notado? Tinha certeza que não havia feito nenhuma vibração. Intuição talvez? De fato, não tinha como saber.

Porém, mesmo com tamanha demonstração de combate e agilidade, sua reação foi deveras tardia.

Envolvi meu braço direito ao redor de seu delicado pescoço ao mesmo tempo em que com a mão esquerda, forçava sua cabeça para baixo, em direção ao peito.

Essa era a minha habilidade Army Combative a qual se mostrou extremamente eficaz, já que assim que foi aplicada, o marcador de HP da menina começou a cair rapidamente.

A sniper contorcia-se desesperadamente, porém, nesse VRMMO, Gun Gale Online, era quase impossível escapar com êxito de um agarrão como esse, pois sem uma arma em suas mãos e nessa posição desfavorável para sua habilidade, tudo estaria focado na diferença do marcador de STR, ou seja, na força bruta e isso eu tinha de sobra.

Para falar a verdade, não é muito diferente da vida real, precisaria apenas de um pequeno estalo e tudo estaria acabado.

Já havia previsto isso desde o momento em que vi essa garotinha de cabelos azuis enfrentando o… ou melhor dizendo, vencendo os vinte e nove participantes desse torneio chamado Bullet of Bullets. Naquele instante, sabia que a mataria nesse edifício.

O único problema a enfrentar foi decidir qual caminho tomar para chegar até aqui antes. Não sabia se ela iria para o quarto ou o quinto andar.  Tive que decidir rapidamente qual desses pisos eu conseguiria emboscá-la.

Se fosse pela lógica, ela elegeria o quarto andar já que seria um ponto que demandaria menos tempo para se aprontar e dessa forma começar a matar de maneira mais rápido e fácil. Porém, minha intuição sussurrou algo no momento em que vi a biblioteca nesse andar.

Essa voz providencial me disse que a pequena sniper era provavelmente uma jovem estudante no mundo real e que talvez se lutasse em uma biblioteca, a faria instintivamente pensar em sua verdadeira vida e dessa forma, não conseguiria agir 100% como uma atiradora fria.

Felizmente para mim, a previsão foi correta, pois ela veio direto para o último piso.

Seu marcador de vida descia rapidamente.

Se isso não fosse apenas uma redução de dados binários com ausência de privação de vida, se fosse um corpo vivo, com uma alma dentro, um invólucro de carne e não um avatar cheio de polígonos… esse momento seria muito doce.

O HP da garota chegou aos 5% e ainda assim ela não se rendia e lutava cada vez mais desesperada, como se realmente sua vida estivesse em risco em face ao estrangulamento.

Apesar de ser seu inimigo, senti sua interessante postura diante da situação, tentando fazer todo o possível mesmo sabendo que sua derrota era inevitável.

Ela seguia a luta, não demonstrando nenhum sinal de desistência, pelo contrário, sua oposição estava muitas vezes maior.

Enquanto a abraçava com força, como se fosse um familiar querido, sussurrei em seu ouvido:

Your soul will be so sweet…!

Parte 1

Ele abriu os olhos lentamente.

Parecia que tinha tirado apenas um cochilo. O sofá de marca italiana que comprou na semana anterior era realmente muito macio e confortável.

Com seu corpo ainda em contato com o couro flexível, olhou para o smartwatch no pulso esquerdo.

Era tarde, duas e vinte.

Levantando-se, calmamente espreguiçou-se enquanto caminhava em direção à parede de vidro no lado sul do lugar. Aquela superfície vítrea, que também possuía tecnologia inteligente, estava agora inativa, apresentando-se apenas como uma grande janela que possibilitava uma vista estarrecedora quase infinita da zona costeira em sua habitação no quadragésimo terceiro andar.

O tranquilo cais brilhava lindamente diante à iluminação dos arranha-céus vizinhos, com um grande número de navios ancorados.

Entretanto, essas intimidantes silhuetas com suas pontas agudas e fortes estruturas não eram luxuosos cruzeiros. Eram navios de guerra da terceira frota do Pacífico pertencentes aos Estados Unidos.

San Diego, a segunda cidade da Califórnia, vinha sendo sua casa desde muito tempo. A economia girava em torno da gigantesca base naval, onde mais de vinte e cinto mil afiliados residiam.

Com isso, novos setores industriais experimentaram um ‘boom’ de crescimento exponencial nos últimos anos. Com empresas de alta tecnologia focadas em informação, comunicação, biotecnologia e derivados.

Como não podia deixar de ser, todas essas companhias ‘hight tech’estavam relacionadas com assuntos militares. Principalmente no tocante ao serviços de segurança e treinamento militares. Acarretando fusões dessas corporações tudo em prol da guerra. Virando uma enorme mão de obra especializada, inclusive, para lutar nas linhas de frente de qualquer possível conflito.

Gabriel Miller, o oficial líder de tecnologia da Glowgen Defense System era um deles, com seu quartel general situado em Downtown San Diego, contemplava a vista noturna do porto enquanto revelava um sorriso inconsciente.

O sonho que ele teve em sua breve soneca foi deveras estimulante, porém, curto demais.

As sensações daquela imersão FullDive no evento de dias atrás ainda perduravam.

Gabriel quase não sonhava, porém, onde quer que estivesse, levava consigo uma recordação detalhada de uma cena de seu passado.

A excitante experiência sensorial que a desesperada luta daquela garota de cabelos azuis proporcionou, ainda permanecia em seus braços. Era quase como um sonho, mas que na realidade…

… Essa batalha não ocorreu de verdade e sim no mundo virtual.

A tecnologia FullDive era uma invenção maravilhosa. Parabéns para Kayaba Akihiko que a inventou. Se ainda estivesse vivo, o contrataria com toda a certeza, mesmo que custasse milhões de dólares.

O teria trabalhando para si de qualquer jeito, mesmo se fosse o pior criminoso na face da Terra… não, o contrataria justamente porque ele era como era.

Entretanto, enquanto que as experiências produzidas pelo Amusphere se tornavam cada vez mais realistas, a deficiência em determinadas partes chaves do processo se tornavam mais evidentes, trazendo uma sensação de falsidade indescritível. Era como se a sede de alguém jamais pudesse ser saciada por mais água que bebesse.

Como o mais jovem acionista majoritário entre todos da Glowgen Defense System, Gabriel levava sua vida sem preocupações sobre suas necessidades materiais. Contudo, o dinheiro não podia satisfazer essas ânsias que inundavam o ponto mais profundo de seu coração.

Your soul will be so sweet…!

Pronunciou aquelas palavras ditas em seu sonho mais uma vez.

Ele queria sussurrar isso em japonês, ao qual estava estudando nos últimos três anos. Porém, de qualquer forma eles devem ter entendido que ele era um americano devido à indicação USA em sua barra de HP. Aquilo por si só já deixava uma impressão forte o suficiente.

Haveria um momento em que poderia falar à vontade e nessa hora, iria conseguir todas as respostas.

Desfazendo o pequeno sorriso em seus lábios, Gabriel tocou vários sensores táteis incorporados à janelas, que aumentou sua opacidade, escurecendo e projetando algo em sua superfície.

Seus cabelos eram loiros, soltos e um pouco puxado para trás, com profundos olhos azuis. Media 1,85cm de altura e estava vestindo uma camisa branca com calças cinza escuro. Seus sapatos eram Cordoban feitos sob medida.

Não usava adornos ou possuía qualquer tipo de vaidade, para ele, usava só o suficiente. Sua aparência era um mero meio para que os outros o identificassem. Pois sabia que no final de tudo, a carne era somente uma casca para a alma.

A alma.

Quase todas as religiões adotavam algum tipo de noção sobre a alma. O Cristianismo, por exemplo, propôs que a alma seria enviada para o céu ou para o inferno de acordo com as ações da pessoa em vida. Entretanto, não era devido nem ao Protestantismo ou o Catolicismo que Gabriel acreditava na existência da alma e nem a causa pela qual ele sempre a buscou.

Tudo era devido a um fato.

Ele tinha testemunhado visualmente.

Esse fragmento de luz, um maravilhoso fenômeno mais além do que qualquer tentativa de comparação que saiu da cabeça daquela menina no momento em que encontrou o fim em seus braços.

Gabriel Miller nasceu em um distrito de Pacific Palisades nos subúrbios de Los Angeles, Califórnia, em março de 1998.

Ele não tinha irmãos e cresceu recebendo o amor incondicional de seus abastados pais, o suprindo emocional e financeiramente.

A mansão em que vivia era enorme, não havendo quase fim para seus lugares de brincadeiras e jogos. Porém, o que o jovem Gabriel mais gostava, o que ele de fato mais amava era o armazém das coleções de seu pai.

Seu progenitor era dono e gerente da Glowgen Securities, a empresa predecessora da Glowgen Defense System e tinha como passatempo colecionar espécimes de insetos, todos devidamente catalogados e guardados em potes de vidros, estufas, quadros, gavetas milimetricamente alinhados no vasto armazém.

Gabriel se isolava de tudo e todos quando entrava ali. Ficava horas e mais horas observando os insetos multicoloridos com uma lupa na mão, submergindo em fantasias distraídas enquanto sentava-se no confortável sofá situado no meio do local.

Curioso nato, emoções difusas e profundas assaltavam o jovem Gabriel sempre que ficava sozinho na sombria habitação com aquele teto altíssimo, rodeado de centenas de milhares de insetos silenciosos.

Cada um daqueles seres tinha vivido em determinado momento. Nas planícies da África, nos desertos do Oriente Médio, nas selvas da América do Sul… cada um deles tinham nascido em seus ninhos, viviam suas breves vidas, caçando comida por sua sobrevivência.

Entretanto, foram capturados por um colecionador em certo ponto desse caminho e tratados com produtos químicos, sendo repassados de mão em mão diversas vezes por meio do comércio, antes que fossem cuidadosamente armazenados na casa dos Miller.

Em outras palavras, enquanto esse local era um depósito para a coleção de insetos, também era um cemitério cheio de cadáveres massacrados…

Gabriel fechou seus olhos e imaginou o que aconteceria se os insetos à volta repentinamente voltassem à vida.

Suas patas desesperadamente rasgariam o ar, buscando uma saída enquanto agitariam as asas. A onda ensurdecedora de zumbidos o atacando implacavelmente como um mar revolto.

Zumbindo, zumbindo…

Seus olhos voltaram a abrir e viu as patas do besouro rinoceronte verde, fixadas no canto da grande caixa de vidro e madeira pareciam mover-se.

Saltou do sofá e caminhou até ela absorvido pela vista, porém, o inseto era de fato um espécime já sem vida antes mesmo de chegar ali.

Sua carapaça, com patas e chifres pontiagudos crescendo sobre ela, olhos compostos que pareciam minúsculos cristais verdes esmeralda, tão brilhantes como metal polido.

Gabriel ficou pensando no que exatamente impulsionava aquele corpo, possibilitando mobilidade.

Seu pai tinha lhe contado que os insetos não possuíam cérebros evoluídos como os dos seres humanos. Então, ele perguntou se eles pensavam, ao que o pai lhe mostrou um certo vídeo.

Nele, havia um casal de louva-a-deus no ato do acasalamento. O pequeno macho havia sujeitado a rechonchuda fêmea sob suas patas, com seus órgãos reprodutores unidos.

A fêmea permaneceu imóvel por um momento, porém, logo girou e agarrou a parte superior do corpo do macho com suas grandes garras e começou a mastigar sua cabeça, se alimentando dela sem nenhum aviso prévio.

Para espanto e choque do pequeno Gabriel, o macho continuou seu ato de reprodução, retirando seu órgão da fêmea só no final, como se a falta da cabeça, completamente devorada, não fosse um impedimento. Quando tudo terminou, a fêmea tratou de fugir o mais rápido possível.

Sem sua cabeça, o louva-a-deus macho seguiu calmamente caminhando pelo meio da vegetação, até subir em um galho onde mecanicamente sumiu do foco da câmera.

Ao término do vídeo, seu pai continuou explicando.

Disse que os nervos nos corpos dos insetos, incluindo o louva-a-deus, cumpriam um propósito muito similar ao cérebro. Portanto, eles podiam viver um bom tempo mesmo que tivessem uma parte arrancada, não importando qual. No caso específico da cabeça, ela não passava de um órgão sensorial e nada mais.

Gabriel passou vários dias após ter visto o vídeo se perguntando onde exatamente estava a alma do louva-a-deus. Se eles podiam viver mesmo sem suas cabeças ou suas patas, tinha que haver um local específico para ela ficar.

Será que poderia estar localizada na região do abdômen? No peito?

Entretanto, viu diversas vezes que mesmo com o abdômen perfurados por alfinetes, os insetos seguiam lutando por um longo tempo, retorcendo suas patas desesperadamente para fugir.

Será que o grande motivo de não morrerem rápido é porque não importava a parte do corpo que perdessem, suas almas estavam levemente ‘vazando’ para fora de sua estrutura corporal? Como se fosse um ‘membro invisível’ que não estivesse totalmente dependente de suas partes tangíveis?

Quando Gabriel tinha entre oito e nove anos, já tinha realizado uma imensidade de experimentos nos mais diversos insetos que encontrou.

A alma, esse misterioso poder que movia aqueles seres parcialmente mecânicos conhecidos como insetos, permanecia dentro deles independentemente do quanto seus corpos fossem destruídos.  Porém, esse efeito tinha certa duração, pois era como se notasse que a causa estava perdida, acabando por esvair-se dos corpos destroçados como sangue fluindo de um corte.

Gabriel desejava fervorosamente ver essa alma e capturá-la se assim fosse possível. Entretanto, por mais que tentasse, nunca pode ver essa manifestação saindo, fluindo dos corpos dos insetos e muito menos segurá-la.

Por mais que ficasse observando com sua lupa e nem o quão metodicamente conduzia os experimentos em seu laboratório secreto que construiu no denso bosque nos fundos de sua mansão, seu desejo mais primordial nunca se realizava.

O jovem Gabriel instintivamente sabia que sua obsessão não era algo agradável para seus pais. E esse também era o motivo pelo qual evitou fazer mais perguntas sobre esse assunto após ter visto aquele vídeo e a razão por nunca divulgar nenhum dos resultados.

Porém, quanto mais escondia, mais vontade tinha de continuar suas pesquisas.

Gabriel tinha uma amiga de sua idade a qual tinha extrema proximidade.

A garota se chamava Alicia Klingerman e era a filha única de empresários que viviam em uma mansão erigida ao lado da sua. Eles frequentavam a mesma escola primária e mantinham boas relações, assim como os membros de sua família.

Ela era tímida e obediente, preferindo livros e assistir vídeos em sua casa ao sair para jogar e se sujar fora de sua residência.

Naturalmente, Gabriel escondia seus experimentos de Alicia e jamais tocava no assunto de insetos e almas.

Ainda assim, não podia deixar de pensar nisso. A imaginação de Gabriel voava longe e vez ou outra cogitava onde estaria a lama de Alicia enquanto observava tranquilamente seu rosto quando ela sorria como um anjo, absorvida em sua leitura.

Os insetos eram diferentes dos seres humanos. As pessoas não podiam viver sem suas cabeças, então, a alma deveria estar ali… em seu cérebro.

Porém, Gabriel já havia aprendido que o dano cerebral não necessariamente conduzia alguém à morte. Havia aprendido isso ao ver uma reportagem na internet, no computador de seu pai, onde houve um caso que um operário teve um traumatismo imenso ao ser atravessado na cabeça por um cano de ferro, acertando o topo e saindo logo abaixo do queixo e que mesmo assim, os médicos conseguiram curá-lo ao extirpar parte do cérebro do homem que tinha começado a causar-lhe uma determinada doença mental.

O garoto pensou que talvez o cano não tivesse acertado o lugar certo. Nesse caso, onde seria o esconderijo da alma dentro do cérebro? Ele se perguntava isso enquanto olhava Alicia de frente, com seus longos cabelos loiros.

A alma de Alicia estava além de sua linda pele lisa, além de seu duro crânio e quem sabe, até mesmo além de seus tecidos cerebrais.

A parte infantil de Gabriel podia visualizar vividamente que acabaria se casando com Alicia. E então, teria a oportunidade de ver sua alma com seus próprios olhos um dia. Palavras não poderiam descrever o quão maravilhoso seria.

A metade do desejo de Gabriel foi concedida mais cedo do que ele esperava.

Em setembro de 2008, com a quebra de vários bancos importantes, disparou o gatilho para a que ficou chamada como Crisis Global Financial, ou traduzindo, a crise financeira global.

A onda de recessão chegou inclusive em Pacific Palisades nos subúrbios mais nobres de Los Angeles. Um grande número de mansões foram postas à venda, fazendo com que a quantidade de carros luxuosos, que estavam sempre circulando por ali, caísse drasticamente.

Entretanto, devido a uma administração sólida, a Glowgen Securities conseguiu reduzir ao mínimo os efeitos dessa queda financeira. O que não se podia dizer de seus vizinhos, os Klingerman, que arcaram com pesadas cobranças de dívidas relacionadas com o ramo imobiliário de sua companhia. Com sua fortuna, incluindo a própria mansão sendo confiscada ou usada como pagamento de débitos astronômicos, por volta de abril, já não tinham praticamente nada, acabando por dependerem de parentes que trabalhavam na agricultura para sobreviverem. Tudo isso forçou-os a se mudarem para o distante Kansas, longe dos grandes centros.

Gabriel ficou profundamente triste com os acontecimentos, e com uma inteligência muito acima da média, entendeu que não podia ajudar Alicia sendo apenas um garoto de dez anos e mal conseguia conceber as dificuldades que ela enfrentaria dali para frente.

Com uma mansão fortemente vigiada à perfeição, um cozinheiro de elite para preparar seus deliciosos pratos e uma escola cheia de crianças abastadas. Tudo isso desapareceria da vida de Alicia para sempre, sobrando somente a pobreza e o trabalho braçal do campo.

Mas o que Gabriel realmente não podia suportar, era como a alma daquela menina, a qual deveria ser sua um dia, seria maculada por alguma pessoa desconhecida até perder todo seu resplendor.

Nesse instante, ele decidiu que deveria matá-la.

No dia em que ela se despediu no colégio, Gabriel a convidou discretamente para acompanhá-lo ao bosque que ficava nos fundos da sua casa depois que descessem do ônibus escolar.

Habilmente se esquivando de todas as câmeras de segurança instaladas ao longo do caminho, assegurou-se de que nada estava lhes vigiando quando entrou no bosque e caminhou sobreas folhas caídas, evitando deixar rastros enquanto guiava Alicia até seu laboratório secreto, escondido sob gigantescos arbustos.

Completamente ignorante da imensidade de insetos que foram trucidados ali, Alicia devolveu o gesto de Gabriel, quando este a envolveu seus braços pela sua cintura.

Com suaves sussurros, Alicia dizia que não queria ir embora dali, que gostaria de viver para sempre com Gabriel naquele lugar.

E então…

Falando em seu ouvido que concederia esse desejo para ela, do fundo de seu coração, Gabriel colocou a mão direita no bolso de sua camisa sem que ela percebesse e tirou uma ferramenta que havia preparado de antemão.

Era algo que seu pai sempre usava para manusear os insetos, uma enorme agulha de quatro polegadas feita de aço com uma empunhadura de madeira.

Gentilmente inseriu a ponta afiada na orelha esquerda de Alicia enquanto segurava o lado direito de sua cabeça com a outra mão, para penetrar aquela ponta afiada sem nenhuma resistência e nem vacilação.

Alicia piscou, não compreendendo o que havia acontecido, antes de seu corpo ser tomado por violentas convulsões.

Seus grandes olhos azuis repentinamente perderam seu foco e segundos depois…

Gabriel enxergou.

Algo como uma pequena nuvem, resplandecendo fortemente, emergiu da testa de Alicia. Veio para frente sem rumo certo, alegremente, em direção ao rosto de Gabriel, atravessando-o sem se deter.

E como um pequeno raio solar de primavera, subiu.

Ele enxergou a luz de um lindo dia que se filtrava por entre os galhos das árvores produzindo inclusive, leves tilintares.

Lágrimas verteram de seus olhos pela indescritível visão e exaltação.

Sim, ele tinha visto a alma de Alicia… e aquilo não foi tudo, pode ver também o que a própria alma da garota podia ver. Ao menos era isso que os instintos de Gabriel estavam lhe dizendo.

A pequena nuvem brilhante passou através dele e em menos de um segundo, sentiu como se a eternidade tivesse passado diante de seus olhos indo em direção à uma luz maior que estava no céu, antes de desvanecer.

Após estes breves instantes, o bosque voltou ao normal, com seus sons e cheiros característicos.

Abraçando o corpo de Alicia, com sua vida e alma ausentes, Gabriel ficou pensando se essa experiência havia sido real ou uma alucinação causada por sua assustadora capacidade de imaginação.

Mas independente do que havia ou não ocorrido, a partir desse dia, passaria o resto de sua vida procurando o que tinha acabado de ver.

Ele jogou o cadáver de Alicia em um buraco profundo que tinha aberto entre as raízes, sobre um saco que previamente tinha preparado e cuidou de tudo para que não houvesse vestígios.

Cuidadosamente inspecionou seu corpo a procura de ervas ou qualquer outra coisa que denunciasse que esteve em algum momento no bosque, assim como se livrou dos fios de cabelos da garota em suas roupas, limpou e esterilizou a agulha e a devolveu na caixa de ferramentas de seu pai.

Na sequência, a polícia não encontrou nenhuma pista do paradeiro de Alicia Klingerman e eventualmente, o caso de seu desaparecimento foi arquivado.

Havendo despertado de sua pequena recordação, o atual Gabriel Miller, com vinte e oito anos, desviou a vista de si mesmo do espelho, se encaminhando para o escritório na parte oeste da sala.

No momento em que sentou na cadeira reclinável feita na Noruega, um ícone de telefone iluminou-se no painel de controle de trinta polegadas grudado na superfície de vidro do escritório.

Com um leve toque, mostrou o rosto de sua secretária enquanto sua voz fluía.

“[Senhor Miller, desculpe-me por interrompê-lo no momento de descanso. Mas o Diretor de Operações Ferguson solicita acompanhá-lo no jantar de amanhã. Como deveria responder? ]”

“Diga-lhe que já tenho planos.”

Gabriel imediatamente respondeu e sua normalmente calma secretária demonstrou estar um pouco perdida após sua resposta.

O Diretor de Operações, ou COO, era o vice-presidente, o segundo em comando na Glowgen Defense System. Como seu cargo sugeria, igualmente alto como os outros dez executivos da empresa, Gabriel dificilmente deveria negar um convite para uma refeição.

Entretanto, a expressão de perplexidade de sua secretária logo desapareceu e falou em seu usual tom:

“[Entendido, farei como desejar.]”

A chamada terminou e Gabriel afundou em sua confortável cadeira com as pernas cruzadas.

Ele podia até supor o que Ferguson queria. Certamente pediria que desistisse de participar dessa operação a qual havia se programado a participar.

Entretanto, lá no fundo ele sabia que o COO estava pensando de maneira ligeiramente diferente. Já que o velho ‘cachorro’ podia estar de olho em sua possível ascensão. Pois acima de tudo, Gabriel era o filho único do presidente anterior e o acionista majoritário e um eventual desaparecimento, poderia beneficiá-lo.

É claro que ele era consciente do quão idiota era para o principal executivo participar diretamente de uma operação onde haveria balas de verdade voando para todos os lados. Mesmo que tivesse experiência prévia em combate, o trabalho atual dele consistia unicamente em planejar toda a ação na segurança de sua base sem nenhuma necessidade de expor-se aos perigos do campo de batalha.

Entretanto, não importava os custos, ele tinha que participar dessa operação a qual tinha mantido total sigilo até agora. Estava relacionado com o que ele havia se proposto a buscar desde o dia em que viu a alma de Alicia.

O cliente dessa operação não era o Departamento de Defesa, como geralmente acontecia. Era a Agência de Segurança Nacional, a NSA, com quem havia tido poucos serviços até hoje.

Os agentes da NSA, que visitaram esse escritório mês passado, tinham realmente o impressionado dado o teor da missão. Isso por si só já era um grande feito, já que jamais demonstrava suas reais emoções.

Em primeiro lugar, seria uma operação completamente ilegal. Sendo que a equipe de Glowgen deveria conduzir um submarino da marinha e assumir o controle de um navio de guerra do Japão, uma nação aliada.

E além disso, não havia necessidade de se preocupar com qualquer baixa da tripulação da embarcação.

O objetivo principal da missão era roubar certa tecnologia.

Depois de ouvir os detalhes, a voz de Gabriel perdeu levemente o tom, fosse por surpresa… ou por total deleite. Felizmente para ele, os agentes pareceram não notar.

Tecnologia Soul Translator.

Uma incrível máquina capaz de decifrar as almas dos humanos desenvolvida por uma pequena empresa chamada RATH em parceria com a Força de Auto Defesa do Japão.

Gabriel já havia alimentado fortes interesses na tecnologia FullDive japonesa em sua incessante busca por almas. Esse era o principal motivo pelo qual lutava com jogadores do Japão em GGO e estudava o idioma nativo do país.

Inclusive, obteve o ‘equipamento amaldiçoado’, o Nerve Gear, por puro colecionismo e que custou uma vultosa quantia em dinheiro, mas que obviamente, não tinha pretensão nenhuma de usá-lo.

Ela havia se mantido em espera pelo progresso da tecnologia FullDive desde o incidente do tal jogo da morte. Sabia lá no fundo que mesmo com tudo que ocorreu, eles iriam seguir com as pesquisas. O que de fato aconteceu… finalmente começaram a descobrir os segredos da alma humana.

Encarou a solicitação da NSA como se fosse o destino lhe chamando.

A Glowgen era uma das maiores companhias militares privadas, mas nem por isso estava em posição de recusar um pedido direto da NSA, que atualmente tinha até mais poderes do que a própria CIA.

A votação para a aceitação em reunião de emergência teve rápida definição em prol do acordo de colaboração.

E para prevenir qualquer tipo de vazamento de informação, decidiram por uma equipe de combate especializada em serviços sujos, pois seus integrantes certamente não iriam querer que suas histórias obscuras fossem expostas, portanto, guardariam bem qualquer tipo de segredo.

Gabriel se ofereceu para comandar a operação.

Naturalmente, o fato de Gabriel ser o executivo chefe da Glowgen seria omitido do conhecimento da equipe. Essas pessoas provavelmente trairiam imediatamente a companhia se soubessem disso, tomando ele como refém e exigindo resgate.

Entretanto, ele estava mais do que disposto a correr esses riscos.

Os agentes da NSA mencionaram que RATH havia tido sucesso em não somente decifrar a alma humana como também cloná-la com a revolucionária tecnologia STL. A qual foi dada o codinome A.L.I.C.E. e serviria para ser carregada em qualquer tipo de armas não tripuladas japonesa, destruindo o equilíbrio militar na Ásia Oriental.

Não se importava com disputas territoriais e nem o impacto que isso teria no mundo. Gabriel tinha se convencido no momento em que escutou aquele nome… Alice…

Ele decidiu que seria sua.

Procuraria à bordo esse pequeno dispositivo de armazenamento conhecido como Light Cube contendo aquela alma a todo custo.

“Alice… Alicia…”

Empurrando suas costas na cadeira, sussurrou os dois nomes enquanto um leve sorriso surgia em seus lábios.

O nome da companhia criada pelo pai de Gabriel, Glowgen, estava atrelada ao significado de ‘gerar luz’. Parecia que seu pai tinha como ‘luz da felicidade’ em mente quando a nomeou, porém, o que vinha à mente do sucessor, não era mais do que o resplendor dourado que surgiu da testa de Alicia enquanto essa morria.

Gerar luz… ou melhor dizendo, gerar a própria alma…

Era realmente o destino em sua totalidade.

Gabriel e os onze integrantes da equipe de combate iriam para Guam em uma semana e invadiriam águas japonesas à bordo de um submarino nuclear partindo de uma base naval dali e depois assumiriam o controle de um navio dessa nação e enfim, faria o assalto a embarcação principal, o monstro tecnológico de pesquisa oceânica, o Ocean Turtle.

A intenção era ocupar sem nenhum derramamento de sangue de ambos os lados, mas Gabriel sabia que esse tipo de desejo era impossível. Portanto, não interessava o preço desde que conseguisse colocar suas mãos em Alice e na tecnologia STL. Tudo que ele precisava era uma simples cópia do Light Cube e dos documentos da NSA.

Só mais um pouco… só mais um pouco.

E ele conseguiria captar a verdadeira essência da alma que veio procurando nos incontáveis humanos aos quais ceifou a vida desde Alice e não encontrou… só mais um pouco.

Enfim, seria capaz de ver aquela maravilhosa nuvem resplandecente uma vez mais.

“Sua alma… será tão doce…!”

Gabriel sussurrou novamente, em perfeito japonês dessa vez enquanto fechava os olhos.

Parte 2

O capitão, Dario Giuliani, quem comandava o submarino nuclear da classe Seawolf, Jimmy Carter, era um marinheiro submarinista até os ossos, subindo para a patente atual após galgar posição desde faxineiro dos tubos dos torpedos.

O primeiro submarino ao qual embarcou era uma velharia movida à diesel da classe Barbel, que fedia à petróleo e com ruído tão alto de seus maquinários que fazia os ouvidos quase sangrarem, sem falar no espaço sufocantemente apertado.

Em comparação, o Seawolf, que custa mais do que qualquer outro submarino no mundo, era praticamente um Rolls-Royce de tão luxuoso e moderno.

Giuliani havia assumido como seu capitão em 2020 depois de duros treinamentos e provações. Ele tinha o direito e privilégio de manipular um veículo impressionante, com o casco inteiramente resistente à impactos em sua superfície feita totalmente em aço, contando com a potência do reator de S6W e os demais cento e quarenta membros fixos de sua tripulação, atuando quase como um único indivíduo tal era a sincronia, entrosamento e treinamento que tinham, tornando-se capazes de navegar por qualquer oceano e profundidade como se fosse seu próprio quintal.

O imponente Jimmy Carter era praticamente o filho de Giuliani. E seria realmente uma pena que em breve tivesse que deixar o serviço tão abruptamente para ser mandado para trabalhar em terra firme. Porém, seu sucessor, ao qual recomendou o diretor executivo, Guthrie, definitivamente comandaria seu ‘bebê’ de forma excelente.

Contudo…

Como se fosse para total desgraça Giuliani, uma ordem curiosamente arriscada foi dada a ele uns dez dias atrás.

Jimmy Carter era uma embarcação desenvolvida para atuar em operações especiais pois possuía uma variedade de recursos para cooperar com os SEALs. O submarino em miniatura, o ASDS, em seu interior era um deles.

Houve incontáveis vezes em que conduzira o submarino nas profundezas de águas estrangeiras com os SEALs a bordo. Porém, o objetivo era sempre manter a paz entre nações, com seus homens partilhando da mesma ideologia, inclusive entregando suas vidas nas mãos do capitão Giuliani, sabendo que ele os traria de volta mesmo às portas da morte.

Sempre foi assim, pelo menos até dois dias atrás em Guam…

Giuliani foi ver o rosto de seus convidados na parte traseira uma única vez, porém, bastou para ter vontade de jogar todos eles na parte mais profunda do mar.

As dezenas de homens jogados no chão sem nenhuma ordem ou disciplina, soltando gases enquanto outros riam e jogavam cartas, sem mencionar nas várias latas vazias de cervejas amassadas e espalhadas por todos os lados.

Não tinha nenhum marinheiro de  verdade naquele grupo, apenas a mais suja e detestável milícia.

Com somente um dentre todos ali que parecia ter alguma noção de cortesia.Sendo exatamente esse oficial comandante a vir pedir desculpas para Giuliani.

Entretanto, esse homem com profundos olhos azuis…

Enquanto esticava sua mão direita para cumprimentar, cruzou seus estranhos olhos com os do capitão, que provou de uma sensação a qual havia esquecido há muito tempo.

Era uma recordação de muito antes de entrar para a marinha. Estava nadando no oceano em Miami, sua cidade natal, quando um grande bloco branco cruzou rapidamente ao seu lado. Felizmente tinha ficado ileso, mais na hora em que se virou para a criatura passando por si, deu de frente com os olhos do imenso tubarão. Olhos que devoravam à luz a sua volta, tamanha a presença e pressão exercida.

Esse mesmo vazio profundo ‘vazava’ do olhar daquele homem…

Sentiu que tinha que sair dali.

“Capitão, a leitura do sonar!”

A informação do técnico de sonar trouxe Giuliani de volta à realidade.

“É a turbina de um reator enorme. Estamos comparando agora e… sim, coincide, definitivamente é a turbina do nosso objetivo e encontra-se à… quinze milhas!”

Despertando sua mente, rapidamente deu instruções para o posto de comando de combate e foi sentar-se no lugar do capitão.

“Correto! Mantenham esta profundidade e diminua a velocidade para quinze nós!”

A ordem ecoou pela embarcação e logo a desaceleração foi sentida.

“Onde está escolta deles equipada com o Aegis?”

“Há um rastro no sonar que indica uma turbina à gás, Então… mostra que ela está à três milhas à sudoeste do nosso objetivo… Sim, confirmado, é o Nagato das Forças de Auto Defesa do Japão!”

Giuliani olhou fixamente para os dois pontos de luz no grande monitor a sua frente.

Desconsiderando o navio de guerra equipado com o Aegis que o acompanhava, havia escutado que a mega embarcação era um gigantesco laboratório de pesquisas oceânicas sem nenhuma arma.

Contudo, a ordem era deixar aquelas pessoas armadas e sem disciplina alguma invadir esse local. Isso sem mencionar que era uma embarcação pertencente ao Japão, uma nação aliada. Estranhamente, aquilo tudo parecia uma missão legítima com a aprovação do Presidente e do Secretário de Defesa.

As palavras daqueles homens em trajes negros que conseguiram essa missão diretamente do Pentágono voltava à mente de Giuliani.

“- O Japão está conduzindo uma operação nessa mega instalação para recomeçar a guerra entre as nações. Não há outra alternativa para interromper essa pesquisa e ainda manter a paz entre nossos países.

Giuliani não era um novato para engolir aquelas palavras floreadas como verdade absoluta.

Ainda assim, ele já era bastante velho para entender que não tinha opção a não ser obedecer àquela ordens.

“…Nossos convidados estão preparados?”

O oficial executivo parado ao seu lado confirmou.

“Estão preparando o ASDS.”

“Certo… mantenham essa velocidade e vamos subir cem pés!”

O ar comprimido expulsou a água do oceano do tanque de lastro e a gigantesca estrutura do Jimmy Carter começou a flutuar. A distância entre os dois pontos de luz no monitor diminuiu gradativamente.

Será que haveriam baixas nos pesquisadores japoneses? Isso parecia muito provável. Ele com certeza levaria as lembranças de ter cooperado com uma operação tão nefasta quanto essa para o seu leito de morte.

“Cinco milhas até o objetivo!”

Espantando o momento de indecisão, Giuliani comandou:

“Liberem o ASDS!”

Fracas vibrações puderam ser sentidas no corpo do Jimmy Carter enquanto liberava sua carga.

“Liberação completa…! Os auto propulsores do ASDS já se ativaram.”

O mini submarino com uma matilha de cães raivosos e um tubarão acelerou em um piscar de olhos e em breve estariam no ventre dessa enorme tartaruga marinha que flutua sobre o oceano.

 

 

 

GABRIEL MILLER, ANOTEM BEM O NOME DESSE CARA!!

SUA ALMA SERÁ TÃO DOCE!!! (sem trocadilhos, o sono bateu forte.. ZZzz…)

Sword Art Online Alicization Underworld Invading

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Musiquinha que passa uma agonia, exatamente o que esse post passa, sorry!!