Sword Art Online Alicization Underworld – Uniting Capítulo 13 – Parte 5.3, 6 e 7

Arco: Sword Art Online Alicization Underword – Uniting

Capítulo 13

Sword Art Online Alicization Underworld - Kirito x AdministratorParte 5

Com uma expressão furiosa, a Administrator retrocedeu um passo instintivamente.

Talvez notando sua última ação, seus encantadores lábios se torceram em sinal de indignação, mostrando toda a repulsa de uma divindade enlouquecida.

“Imperdoável!!”

Sua boca se agitou envolta em aparente chamas fantasmagóricas.

“Esse é o meu mundo, quem você acha que é para cometer tal afronta? Só aceitarei suas desculpas caso se ajoelhe e ofereça sua cabeça em sinal de lealdade.”

O rugido da Alto Ministro reverberou pelo ar, criando uma aura negra azulada que veio subindo pelos seus pés, rodopiando envolta de seu corpo.

Havendo retornado a ser uma espada reta de uma mão e não mais a katana, a arma apontou diretamente para mim, completamente mergulhada naquela energia obscura.

“Não!”

Detendo meus movimentos antes de entrar em seu raio de ação, disse minhas últimas palavras.

“Ele não é seu, você simplesmente o roubou para si. E já que não o ama com todas as pessoas que nele vive… não tem direito algum de governar!!”

Conforme fui terminando de falar, assumi uma postura de ataque. Coloquei a Red Rose Sword em minha mão esquerda à frente e a espada negra na direita recuada para trás.

Afastei meu pé direito e baixei o centro de gravidade.

A Administrator também se preparou, balançando lentamente sua espada prateada na mão esquerda para cima, a mantendo em riste.

As palavras que saíram de seus lábios perolados estavam carregadas com uma pressão intimidante assustadora.

“Amar é dominar. Eu amo tudo, portanto, dominarei tudo!!”

A espada prateada cresceu visivelmente parecendo absorver a energia escura a sua volta. Um brilho vermelho se mesclou à escuridão da lâmina, transformando a arma de uma empunhadura simples para uma de empunhadura de duas mãos.

A massiva lâmina desceu como uma onda em uma mar revolto. O movimento secreto do Estilo Norlangarth de Alto Nível, o Heavenly Mountain Rending Wave, também conhecido por mim como a skill de um só golpe de duas mãos, Avalanche.

Recebi firmemente o impacto da skill suprema de Underworld, do golpe símbolo da aristocracia desse mundo, da habilidade que sempre foi uma pedra no sapato tanto para Eugeo quanto para mim com as duas espadas cruzadas, usando a skill defensiva Cross Block.

“Oooohhh!!”

Reuni toda a força que tinha acumulado em meu grito e repeli a espada do inimigo.

Percebi um leve gemido escapar dos lábios da Alto Ministro.

“Ghh…! Seu maldito!!!”

A resposta dela veio no momento em que levantava sua espada longa prateada, que tinha voltado ao seu formato original, na altura de seu ombro esquerdo.

Movi minha arma negra para posição contrária…

As mesmas reverberações em sincronia que senti quando as segurei juntas pela primeira vez, como as de um motor de combustão externa, voltaram a ocorrer.

Em seguida, as espadas negras e prateadas soltaram um grande clarão avermelhado.

A Administrator e eu pisamos no chão simultaneamente e ativamos a mesma habilidade, a Vorpal Strike.

Formando uma imagem perfeita refletida, as duas espadas foram levadas aos seus limites como flechas e seus efeitos luminosos explodiram instantes depois, disparando uma contra a outra.

Avançando em linha reta de maneira implacável, suas pontas se roçaram levemente, criando faíscas ao toque e seguiram suas trajetórias.

Um pesado impacto atingiu diretamente meu braço direito logo abaixo do ombro, decepando-o imediatamente.

Entretanto, minha espada também atingiu o braço esquerdo da Administrator bem em sua base, amputando seu membro sem dificuldades.

Os dois braços ainda segurando suas espadas giraram pela sala traçando um risco de líquido escarlate no ar.

“Maldiiiiitoooooo!!!!”

Havendo perdido ambos os braços, os olhos da Administrator explodiram em chamas verdadeiras.

Seu longo cabelo prateado se inflou e pareceu criar vida, com suas pontas formando incontáveis pequenas lanças ou chifres retorcidos. Essas incontáveis pontas pontiagudas agiam como agulhas prontas para me perfurarem.

“Ainda nãããooooo!!!!”

A Red Rose que estava segurando em minha mão esquerda emitiu um novo clarão avermelhado, obedecendo a potência de meu grito.

O segundo golpe Vorpal Strike de duas espadas, algo impossível em Aincrad, abriu caminho por entre o mar de agulhas prateadas furiosas…

E apunhalou profundamente o peito da Administrator.

Sword Art Online Alicization Underworld - Kirito x AdministratorPude sentir a absurdamente densa e rígida resistência daquele corpo na palma de minha mão. Uma sensação tão vívida, limpou minha mente de todas as dores. Não mais senti as perfurações do florete, nem da katana e muito menos do enorme ferimento resultante da amputação meu braço.

No entanto, estava dolorosamente consciente da ponta da espada estar rasgando a maravilhosa e lisa pele da Administrator, rompendo seu esterno e transpassando seu coração.

Senti a vida desse ser humano ser arrebatada por minhas mãos…

Em outras palavras, o ato que sempre temi que acontecesse desde o momento em que soube que os humanos desse mundo possuíam Fluctlight tão reais quanto o meu. Esse medo não desapareceu inclusive quando disparei a sword skill em Chudelkin.

Muito embora eu soubesse disso, não havia nenhum pingo de vacilação em meu golpe. Duvidar aqui definitivamente seria imperdoável em virtude a todos os sacrifícios feitos, algo que Cardinal me orientou muito bem para não fazer.

Acredito que o mesmo ocorreu com a orgulhosa governante, Administrator.

Consegui captar seus pensamentos rapidamente no momento em que as espadas se tocaram.

A Red Rose Sword, cravada no meio do peito da Alto Ministro, deixou sair um intenso brilho que superava em muito as habilidade de espadas normais.

A lâmina regenerada através dos recursos contidos no sangue de Eugeo produziu um clarão, ‘respingando’ coisas de sua estrutura que pareciam fragmentos de estrela.

E no momento seguinte, um enorme flash aconteceu.

Os olhos da Administrator se abriram ao limite e um silencioso grito escapou de seus lábios.

Finas linhas de luz saíram em profusão daquele corpo desnudo mais lindo desse mundo, se espalhando em um padrão radial.

E outra explosão, agora de energia pura, engoliu tudo na volta.

Sendo mais uma vez arremessado como uma bola de papel contra a maldita janela ao sul, senti pela primeira vez o sangue jorrar da ferida do meu braço direito enquanto me estatelava no chão.

Me pareceu bastante estranho que eu ainda tivesse tudo aquilo de sangue. Me perguntei se minha Vida finalmente chegaria a zero, mas meus deveres ainda não haviam terminado, tinha que viver um pouco mais.

Dei uma olhada para a espada em minha mão esquerda e percebi que ela havia regressado ao seu estado partido inicial, com sua coloração azul prateado.

Então, gentilmente coloquei a arma de meu amigo no solo e apertei fortemente o ombro direito com minha mão.

Curiosamente, uma luz branca começou a verter da palma de minha mão sem que eu recitasse arte alguma e encobriu toda a ferida com uma cálida sensação.

Instantes depois, retirei a mão do corte e vi que o sangramento havia parado. Achei estranho ter conseguido usar aquilo, já que tecnicamente falando, os recursos naturais e espaciais desse lugar já deveriam ter sido quase que completamente exauridos.

Coloquei a mão esquerda no chão e me impulsionei para levantar.

O mundo ficou em mono, tudo girou e quase desmaiei enquanto soltava um gemido.

As diversas pequenas explosões luminosas que ainda se seguiam, aos poucos foram cessando deixando para trás um amontoado de partículas brilhantes que foram se aglomerando ao redor da mulher de cabelos prateados que deveria ter desaparecido sem deixar rastros. Entretanto, contrariando esse pensamento, ela ainda se sustentava sobre seus pé, mesmo que estes estivessem trêmulos.

Diante dessa situação, ela não mais parecia uma deusa. Quando muito, poderia ser considerada parcialmente uma presença humana, sem seus dois braços, com um enorme buraco aberto em seu peito e com diversas rachaduras, igual às peças de cerâmicas trincadas, espalhadas pelo corpo.

E completando essa visão bizarra, o que jorrava de suas feridas não era sangue.

Pareciam fagulhas prateadas e violetas que escorriam de seus ferimentos e desapareciam ao entrar em contato com o ar.

Depois de testemunhar essa cena, não pude evitar de pensar que a Administrator também já não possuía mais um corpo de carne e sangue, que sua composição era igual ao monstro de espadas que ela havia criado.

O longo cabelo que parecia ser feito totalmente de prata, também tinha perdido muito de seu brilho e leveza. Sua boca se moveu na escuridão que seu rosto produzia ao olhar para o chão e em meio a gemidos falou:

“E pensar que… haviam duas… duas espadas… que não eram feitas de metal… fufu… fu…!”

Os ombros da governante tremeram nervosamente como um boneco de cordas quebrado enquanto deixava escapar uma risada estranha, apesar da situação.

“Inesperado… que resultado… inesperado…”

Ao ouvir isso, um calafrio percorreu minha espinha. Em minha imaginação eu comecei a ver a Administrator se curar de todas suas feridas em um instante.

Então, a governante que ainda parecia estar com o pé na cova, girou seu quase todo destruído corpo. Mais faíscas jorraram de suas feridas enquanto ela começava a dar passos erráticos como um brinquedo que estava com sua bateria no fim.

Seu destino era o lado norte da sala onde estávamos… Mas… não havia nada lá, nenhum objeto. Entretanto, se ela estava se dirigindo para esse lugar…

Tinha que impedi-la antes de chegar ao seu destino.

Forçando-me ao máximo, tratei de me colocar em movimento. Mas qual foi minha surpresa ao perceber que estava dando passos tão vacilantes ou ainda mais cambaleantes do que a Administrator.

Ela estava há mais ou menos vinte metros em minha frente. Entretanto, sabia que não tinha como escapar desse espaço isolado que estava com todos seus recursos espaciais exauridos.

Cardinal já havia dito antes, que não seria uma tarefa fácil reconectar essa sala que a Administrator tinha negado todo e qualquer acesso.

Olhei mais uma vez para o local onde ela se dirigia e não conseguia visualizar nada.

Com mais alguns passo, finalmente a Alto Ministro se deteve.

Porém, antes de virar mais uma vez seu corpo nu coberto de feridas, ela me deu uma olhada de canto de olho enquanto eu a perseguia e seus lábios mostravam um enorme sorriso.

“Fu, fu, fu… com as coisas como estão, não tenho… outra alternativa. É um pouco mais cedo do que eu havia planejado mas… suponho que não dê mais para esperar….”

“O-o que e-está…”

Não consegui terminar a frase.

A Administrator levantou a perna direita e pisou fortemente no chão, fazendo um grande barulho.

Um misterioso padrão circular que estava nos restos carbonizados do tapete surgiu diante de meus olhos. Era extremamente similar ao da plataforma que acoplava o disco de elevação atrás de mim, entretanto… tinha algo diferente.

Do círculo com um diâmetro aproximado de 50 centímetros veio a luz violeta características dos sistemas desse mundo.

Depois disso, um pilar de mármore branco surgiu bem no meio do círculo luminoso.

E sobre ele… estava um simples computador, ou melhor dizendo… um notebook.

“Mas c-…!?”

Meus pés tropeçaram neles mesmos devido a incrível surpresa e acabei caindo de joelhos.

Não era exatamente um PC igual aos do mundo real. Sua carcaça era translúcida como se fosse feita de cristal, o mesmo valendo para sua tela na cor púrpura claro. O que acaba por criar um ar imponente, parecido com os consoles que tanto via nos mundos virtuais, em especial, em Aincrad.

Em outras palavras… esse era de fato um dispositivo de comunicação com o mundo exterior, exatamente o que vinha buscando desde que cheguei em Underworld.

Empurrado por puro impulso, dei um soco no chão com a mão esquerda e comecei a me arrastar para frente. Infelizmente, meu progresso desesperado era pateticamente lento, o que fazia parecer que o lugar onde estava a Administrator se afastava mais do que se aproximava.

Com ambos os braços ausentes, a governante usava uma pequena parte de seu cabelo que agora se movia como um ser vivo para velozmente operar o teclado do computador.

Uma pequena janela se abriu de maneira holográfica e um indicador iniciou uma contagem.

Um pilar de luz também violeta surgiu embaixo dos pés da Administrator e ergueu silenciosamente seu destruído corpo.

E nesse instante, a mulher finalmente olhou para mim.

Seus traços faciais que pareciam terem sidos desenhados a perfeição, estavam completamente irreconhecíveis. Grandes rachaduras haviam tomado conta de seu rosto, destruindo inclusive o lugar onde deveria estar um dos olhos.

Seus lábios agora pareciam ser feitos de papel, entretanto, o sorriso neles estampado ainda carregava uma grande presença, uma pressão fria e sufocante.

Seu único olho ileso, o direito, se estreitou bruscamente e a Adminsitrator riu mais uma vez.

“Fu, fu… nos veremos novamente, garoto! Só que dessa vez… será no seu mundo.”

Finalmente me dei conta das reais intenções da Administrator.

Ela estava tentando escapar para o mundo real.

Planejou fugir de Underworld para permanecer com sua Vida intacta e dessa forma, manter seu Fluctlight. Exatamente o que quis fazer com as almas de Eugeo e Alice.

“Es…! Espere!!!”

Gritei em desespero.

Se eu fosse pensar como ela, com certeza iria destruir aquele terminal instantes antes de escapar. Caso isso acontecesse, minhas esperanças seriam despedaçadas de vez.

O corpo nu da Administrator lentamente, porém, ininterruptamente se elevava pelo caminho de luz.

Seus lábios, amplamente sorridente articulavam uma silenciosa despedida.

“Tchau-zi-nho…”

E justamente quando ela formava a última sílaba, aconteceu.

Uma gritaria tomou conta da sala enquanto alguém escalava o pilar onde se encontrava o terminal sem que eu o a própria Administrator tivéssemos notado sua aproximação.

“Sua Eminênciaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa…… Leve-me com vocêêêêêêêêêêêêêêê….!!!!”

Chefe Elder Chudelkin.

O palhaço, cujo corpo deveria ter sido perfurado por minha técnica e destroçado pela Administrator, mostrou sua bizarra expressão em sua descolorida cara redonda mais uma vez, entendendo seus dois braços para os céus, com seus dedos longos e encurvados como garras.

Sua pequena constituição explodiu em chamas abrasadoras.

Uma arte? Incarnation talvez?

Seja lá o que fosse, mas seu corpo se transformou novamente em um palhaço flamejante e Chudelkin voou em espiral.

Nem sequer a Administrator conseguiu manter sua expressão calma ao ver isso. E além de surpresa, o que estava estampado em seu rosto era medo.

Ela tratou de tentar alcançar a saída do tubo de luz o mais rápido que pode, porém, seus pés foram capturados pelas fervorosas mãos de Chudelkin.

Agora grande e alongada, a forma flamejante do palhaço foi escalando o corpo nu da Administrator, a envolvendo como uma serpente.

Instantes depois, o casal virou uma bola de chamas.

O cabelo da Administrator se incendiou e derreteu.

Seus lábios se deformaram e emitiram um grito esganiçado.

“Me solte… seu idiotaaaa!!!!”

Porém, o sorriso em êxtase supremo estava entalhado no rosto redondo de Chudelkin, o embriagando totalmente a ponto de considerar o xingamento de sua mestra em uma confissão de amor incondicional.

“Aaaaaahhh… finalmente…. finalmeeenteeeeee!! Poderemos ser um só, sua Eminência…!!”

Com seus dois braços flamejantes entrelaçados fortemente no corpo da Administrator, as rachaduras na pele da mulher se tornaram vermelho vivo e começaram a se desfazer em pedaços.

“Seu palhaço maldito… sua coisa pavorosa… como.. você…!!!”

As palavras saiam em meio a gritos incompreensíveis. As faíscas prateadas explodindo para fora da estrutura corporal da Alto Ministro se mesclaram com as chamas de Chudelkin, iluminando o salão como se o próprio sol estivesse ali dentro.

O corpo de Chudelkin já tinha abandonado sua forma e agora era apenas um amontoado de chamas. Somente sua eufórica expressão permanecia no centro de tudo enquanto dizia suas últimas palavras.

“Aah… Sua Eminência… minha… amada… Adminis… tra…tor…!!”

E o corpo da mulher também começou a sucumbir às chamas.

O medo e a ira desapareceram do rosto da governante envolto em labaredas enquanto que seu único olho ainda operante fitava os céus.

A Alto Ministro conservou em seus últimos instantes uma sublime e efêmera beleza.

“Um mundo… só… meu…!”

Não consegui captar nada além disso.

O impiedoso mar de chamas infernais começou a descer.

E quanto atingiu certa altura… uma enorme energia prateada foi liberada de uma só vez.

Mais do que uma explosão, parecia que tudo havia sido reduzido a apenas luz, enchendo totalmente o espaço.

Não houve som e nem tremores, apenas como se um pensamento, um sentimento estivesse me atravessando, cruzando para todos os lados, inclusive, escapando daquele espaço isolado.

A alma mais antiga de Underworld havia sido extinguida.

A luminosidade prateada permaneceu escoando tranquilamente por mais alguns instantes, me causando a impressão de que o impacto desse acontecimento iria mudar o mundo completamente.

Eventualmente, a luz se dissipou e o ambiente voltou a ter formas e cores.

Pisquei rapidamente os olhos, com lágrimas fluido deles devido as queimaduras causadas pelo clarão, algo perfeitamente normal, já que estava no coração daquela explosão.

Ao retornar a visão, não percebi sequer algum sinal da mulher ou do palhaço que estavam aqui segundos atrás. O pilar de luz havia desparecido também, deixando somente a vista a estrutura de mármore e o console com o dispositivo feito de cristal.

Compreendi, instintiva e racionalmente que a Alto Ministro, a Administrator, a mulher um dia nomeada Quinella, finalmente tinha sido aniquilada. Sua Vida tinha chegado a zero e o Light Cube que armazenava seu Fluctlight, provavelmente fora reiniciado.

Certamente, seu Light Cube jazia agora vazio e alinhado com o de sua outra existência, Cardinal.

“Realmente… terminou…?”

Sussurrei sem pensar enquanto permanecia ajoelhado.

“Foi como você queria… Cardinal…?”

Não houve resposta.

Entretanto, senti uma suave brisa roçar em minhas bochechas.

Uma brisa carregada com a essência criada quando nossos corpos se tocaram na sala da Grande Biblioteca, com a fragrância da pequena sábia, mesclada com livros antigos, velas e doces guloseimas.

Sequei meu rosto com o braço esquerdo. E só nesse instante havia notado que a manga havia regressado ao seu estado normal, uma camiseta negra do uniforme que vesti ao começar a subir a torre e não mais a do sobretudo de couro.

Então, me virei e fui até Eugeo que estava deitado no centro da sala.

O sangue ainda continuava gotejando de seu corpo brutalmente cortado ao meio, com grandes pausas entre uma gota e outra. Mesmo que ainda houvesse um resquício de Vida nele, provavelmente não tinha mais do que breves instantes de existência.

Avancei freneticamente para chegar ao seu lado.

Primeiro, agarrei sua metade superior e a levei até uni-la com a parte inferior para ver se conseguia deter o sangramento de alguma maneira.

Mantive minha mão esquerda sobre a ferida e visualizei a imagem mental de uma arte curativa.

A luz branca em minha palma era tão fraca ao ponto de poder ser vista somente apertando muito os olhos. Ainda assim, a pressionei sobre o enorme corte.

Mas…

O fluído vermelho, a Vida de Eugeo, continuava escorrendo pela ruptura e não mostrou nenhum sinal de parar. O nível de prioridade da arte curativa era frustrantemente insuficiente para a extensão do dano. Minha mente entendia isso, porém, minha mão se movia incansavelmente enquanto gritava.

“Pare!!! Pare!!!… Porque não para de sangrar… !?”

A imaginação era o que determinava tudo em Underworld. Um milagre realmente poderia acontecer se alguém desejasse fervorosamente, não era assim que funcionava?

Concentrei todo meu pensamento, dei tudo que tinha em minha alma e rezei, esperei e desejei.

Mas o sangue de Eugeo ainda caía, gota após gota.

Sobrescrever pelo poder da imaginação estava limitado aos objetos e suas formas, não podia alterar os status numéricos como o nível de prioridade ou a sua durabilidade.

Essa lógica apareceu no canto de minha consciência, porém, me recusei a admiti-la.

“Eugeo… volte para cá, venha para o meu lado!! Eugeooo!!!”

Gritei mais uma vez e levei minha mão até a boca me preparando para mordê-la e derramar meu sangue. Sabia que esse tipo de procedimento talvez não fosse o suficiente, mas ainda assim tinha que usar todos os recursos espaciais e naturais que pudesse criar agora. Mesmo que isso também levasse minha Vida ao zero.

E foi no exato momento quando cravei meus caninos na pele da mão para arrancá-la junto com minha carne que…

Um sussurro quase inaudível disse meu nome.

“Kirito.”

Congelei.

Eugeo entreabriu os olhos, apenas uma pequena fresta e sorriu.

Seu rosto estava branco azulado, assim como seus lábios totalmente descoloridos. Era evidente que sua Vida o estava abandonando.

Porém, seus olhos verdes ainda eram os mesmo de quando o conheci, observando-me enquanto se enchiam de um brilho gentil.

“E-Eugeo…!”

A voz saiu rouca.

“Espere um pouco, vou te curar o mais rápido possível! Não deixarei que morra…! Definitivamente não deixarei!!”

Direcionei o punho para a boca novamente…

Porém, uma mão fria como gelo e ao mesmo tempo cálida como se fosse um raio de sol, cobriu meus dedos e os segurou gentilmente.

“Eug-…”

Olhei para meu amigo enquanto ele continuava sorrindo para mim. E de seus lábios, saiu a frase que trocamos incontáveis vezes na academia, geralmente em tom de brincadeira, uma frase que significava uma despedida definitiva…

“Mantenha a mente limpa e alerta… Kirito!”

“…!”

O ar saiu de meu estremecido peito.

Tinha ensinado isso para ele e dito que era usada apenas para despedidas. Eugeo nunca a tinha utilizado de forma correta… até agora…

Os sussurros dele entraram em meus ouvidos enquanto sacudia incessantemente a cabeça.

“Está… tudo bem… Estou bem, Kirito…”

“O que está dizendo? É claro que não está nada bem!”

O sorriso de Eugeo de alguma maneira parecia estar cheio de satisfação, mesmo depois de escutar meus gritos de protesto.

“Finalmente… consegui o que queria, o que eu tinha… que fazer…! Então… é aqui onde… nossos caminhos… irão se… separar…”

“Não!! Não irão!! Não posso aceitar isso como destino! Não vou aceitar porcaria nenhuma!!”

Como se me repreendesse por estar agindo como um garotinho, reclamando e chorando, Eugeo sacudiu lentamente a cabeça. Inclusive esses pequenos movimentos deveriam lhe proporcionar dor e demandar muito esforço, porém, meu amigo não mostrou nenhum sinal de que estivesse sofrendo.

“Escute…! Se não terminasse assim… você e eu acabaríamos lutando… cada um por suas próprias razões. Eu… para restaurar as memórias de Alice… e você… para proteger a alma da Integrity Knight Alice…”

Outra vez minha respiração parou.

Esse era o cenário que eu mais temia do fundo de meu coração. Depois que as batalhas terminassem, acabar relutando em devolver os fragmentos de memórias contidas no cristal de Alice Schuberg, substituindo a nova personalidade do Fluctlight da mulher cavaleiro Alice.

Realmente, não tinha resposta para isso agora.

Então, apenas rebati entre lágrimas.

“Que seja…! Lutaremos!! Vamos curar todas suas feridas e então batalharemos!! Você está mais forte do que eu!! Venha!! Lute contra mim… por sua Alice…! Lute comigo, droga…!!!”

… O sorriso gentil de Eugeo permaneceu.

“Minha espada… se quebrou… por causa de minha fraqueza…! Deixei que a Alto Ministro dominasse meu coração… e me voltasse contra você, Kirito. Ainda tenho que… me redimir desse pecado…”

“Não existe pecado algum!! Você não fez nada que mereça ser redimido!”

Agarrei a mão direita de Eugeo e disse com a voz trêmula.

“Você sempre lutou maravilhosamente bem! Se você não estivesse aqui, jamais conseguiria vencer Chudelkin, o Sword Golem ou a Administrator! Então, não te menospreze mais, não pense ou diga mais isso, Eugeo!!”

Meu amigo gaguejou.

“Bem… eu…! Creio que… seria bom…”

Grandes lágrimas brotaram dos olhos de Eugeo enquanto sussurrava.

“Kirito… eu sempre te invejei. Você é mais forte do que todos… querido por todos… tanto que pensei por um tempo… que até a Alice poderia….

E isso me assustava… porém, agora eu entendo. Amor… não é algo para buscar ou dominar… é algo… para dar. Alice… me ensinou… isso…”

Eugeo interrompeu suas palavras e levantou a mão esquerda.

Sua palma, ferida e desgastada pelas cruéis batalhas, tinha um pequeno cristal. Um prisma hexagonal transparente com marcas em seus extremos. O fragmento de memórias de Alice.

O prisma piscou fraquinho ao entrar em contato com minha mão esquerda quando ele o encostou em mim.

O mundo novamente foi engolido por uma luz branca.

Tudo sumiu fora o chão duro e a dor de meu braço mutilado, até uma suave corrente de ar levar minha alma para longe.

Mesmo a imensa dor que consumia meu peito, desapareceu nessa luz e brisa gentil.

E então, lá estava eu, em uma frondosa vegetação se agitava em minha visão.

A luz do sol da primavera se filtrava por entre as árvores, enchendo algumas delas de flores nas mais diversas formas, cores e cheiros que eram levadas pelo vento morno.

Pequenas e desconhecidas aves voavam de um brilhante galho negro para o outro em aparente brincadeiras.

“Vamos, mova rápido essas mãos, Kirito!”

De repente, sendo chamado por meu nome, virei para o lado, em direção à copa da árvore.

O cabelo dourado da garota sentada ao meu lado reluzia brilhantemente a luz solar que teimavam e escapar por entre os galhos e folhas das árvores.

Depois de piscar várias vezes, dei de ombros e respondi:

“Como assim rápido? Não vai ajudar ou vai ficar só olhando aquela família de coelhos algodão passeando ali com essa bocona aberta, Alice?”

“Minha boca não estava aberta!”

Virando a cara com um ‘-Humpf!’, a menina com o vestido azul e avental azul, Alice Schuberg, ergueu algo que estava em suas mãos para cima, em direção aos raios de sol.

Era uma bainha de couro para uma pequena espada, cuidadosamente costurada. Sua superfície brilhava provavelmente polida com óleo e tinha um dragão bordado com linha branca. O dragão parecia bem simpático, mesmo com sua cola parecendo estar cortada na metade, faltando ser terminada com uma agulha cravada na ponta.

“Viu só? Está quase terminado e você?”

Baixei os olhos para meu colo quando perguntou.

Em minhas mãos estava uma pequena espada esculpida em uma rama de carvalho prateado, a segunda madeira mais dura das florestas.

Com os métodos utilizados para trabalhar madeira que era tão dura quanto aço que ganhei do velho Garita, quem conhecia a floresta como a palma de sua mão, tinha conseguido fazer uma espada depois de dois meses de dedicação e que agora só estava faltando montar a empunhadura.

“Eu sou muito mais rápida do que você. Veja só, já estou no final!”

Alice falou com um sorriso brilhante nos lábios.

“Já estou acabando também.”

“Certo, mãos à obra!”

Ao olhar para cima, através dos galhos das árvores mais uma vez, notei que Solus já havia passado da metade do céu. Estávamos trabalhando desde o amanhecer nesse nosso lugar secreto, entretanto, era melhor voltarmos para a aldeia.

“Acho… que é melhor voltar antes que alguém sinta nossa falta.”

Quando falei isso, Alice fez um biquinho com os lábios e disse:

“Você está certo, mas quero ficar só um pouco mais… pode ser?”

“Bom, suponho que ficar só mais um pouquinho não vai doer, né?”

Concordamos com a cabeça, baixamos a vista para o trabalho que tínhamos pela frente e aceleramos os preparativos até que…

“Acabei!”

“Terminei!!”

Falamos ao mesmo tempo em que ouvimos passos atrás de nós.

Dei a volta enquanto ocultava o que estava em minha mão, colocando em minhas costas.

De pé, com o rosto pálido nos olhando, um garoto com o cabelo loiro e bochechas rosadas, Eugeo.

Os inconfundíveis olhos verdes dele piscaram enquanto falava com uma voz cheia de suspeita.

“Eu me perguntei onde vocês poderiam estar a manhã inteira e quem diria que era aqui, hein? E então, o que estão fazendo?”

Alice e eu demos de ombros, nossas cabeças baixaram enquanto trocávamos olhares.

“Você… descobriu o segredo… não é?”

“Por isso eu te disse para voltarmos, agora estragou tudo…”

Alice rapidamente deu uma risadinha brincalhona e pegou a pequena espada de madeira que tinha acabado de terminar e habilmente colocou na bainha de couro escondida em suas mãos.

E com um salto até Eugeo, gritou com um sorriso brilhante como o sol.

“Está certo! Mesmo que ainda faltem três dias… Eugeo…

Feliz aniversário!!!”

Os grandes olhos de Eugeo arregalaram-se ao ver a pequena espada de carvalho prata dentro da bainha com um dragão branco bordado.

“E-Então… isso é… para mim?… Algo assim tão incrível…!!??”

Com a melhor parte da felicitação roubada por Alice, expliquei com um sorriso amarelo.

“Pois então Eugeo, você disse que a sua espada de madeira que seu pai tinha feito para você tinha quebrado, não é? Então… bem, pode até perder para uma de verdade como a que seu irmão tem, mas essa aí é muito melhor do que aquelas outras espadas de madeira que vendem por aí.”

Ao receber a pequena espada em suas trêmulas mãos, Eugeo se dobrou como se estivesse sido surpreendido por seu peso e depois mostrou um enorme e maravilhoso sorriso que não perdia em nada para o da Alice.

“Tem razão… e essa parece ainda mais pesada do que a de meu irmão! Uau!! Eu adorei!!! Muito obrigado a ambos!! Estou realmente muito feliz… essa é a primeira vez que ganho um presente… obrigado, muito obrigado!!”

“E-Ei!! Não chore…!!”

Gritei confuso quando detectei um pequeno brilho surgir no canto dos olhos de Eugeo. Ao que o mesmo me olhou rapidamente com a cara emburrada como se estivesse dizendo ‘-Não estou chorando!’.

Porém, depois de esfregar o rosto, me olhou mais uma vez com um sorriso brilhante, tão esplendoroso que acabou se fundindo com a luz que vi inicialmente.

Abruptamente despertei com uma dor sufocante em meu peito. Intensa sensação de nostalgia e perda muito além do que podia imaginar e aguentar. Minhas lágrimas fluíram incontrolavelmente e escorriam pelas bochechas.

Alice e Eugeo, que estavam lado a lado, também choravam e riam.

Instantes depois, falamos ao mesmo tempo:

“Nós… nós três definitivamente estivemos vivendo juntos no mesmo lugar e no mesmo tempo.”

“Pode ser que nos separemos aqui… mas ainda assim, essas memórias permanecerão para sempre.”

“Sim, elas… viverão dentro de você para sempre…! Então, me escute…”

A cena banhada com a luz do sol filtrada por entre as árvores desapareceu por completo e eu estava mais uma vez no piso frio de mármore no último andar da Catedral Central.

“… Escute, não chore, Kirito!!”

As forças abandonaram Eugeo e sua mão direita caiu no chão enquanto a esquerda caiu no seu peito. O prisma em sua palma, também parou de piscar.

A cena que acabei de ver, era realmente uma de minhas memórias.

Não podia recordar mais do que esse único momento, entretanto, ainda assim, o fato de que Alice e eu havíamos nos conhecido quando jovens e éramos amigos próximos juntamente com Eugeo e que tínhamos profundos e inquebráveis laços de amizade era inegável. Trazendo uma sensação aconchegante que aliviava um pouco a dor da perda.

“Sim… essas memórias estão todas aqui.”

Pressionei os dedos de minha mão esquerda no meu peito e sussurrei.

“E a partir de hoje, nunca mais sairão daqui.”

“Isso é óbvio, pois… nós somos amigos, melhores amigos, para todo o sempre e… Kirito? Onde você está…?”

A luz dos olhos de Eugeo desapareceu enquanto dizia meu nome ainda com um sorriso no rosto.

Me inclinei para frente e abracei a cabeça de meu amigo com o meu braço restante enquanto as lágrimas caíam sobre ele.

“Estou aqui, bem aqui…!”

“Certo…”

Olhando para algum lugar longe dali, Eugeo sorriu largamente de satisfação.

“Sim… consigo te ver… brilhando intensamente, nessa escuridão toda… como uma estrela… uma estrela em um… céu noturno… como se estivesse novamente sob… o Giga Cedro… um brilho negro… igual a sua espada… Kirito…”

Acompanhando seus olhos, a voz de Eugeo pouco a pouco foi sumindo, mas ainda ressoando diretamente em minha alma.

“E falando nisso… Kirito, sua espada negra… Night Sky Sword… seria um bom nome, não acha…?”

“Sim… é um ótimo nome. Muito obrigado, Eugeo.”

Abracei firmemente meu amigo um pouco mais. Suas últimas palavras ondulavam através de nossas mentes conectadas como uma gota que cai na superfície da água.

“Envolva esse… pequeno mundo… suavemente… como… o céu noturno… e o proteja…”

As lágrimas cristalinas acumuladas em suas pálpebras desapareceram como gotas feitas de luz.

Sentindo o peso de seu corpo suavizar em meu braço, os olhos de Eugeo fecharam-se lentamente.

Parte 6

Eugeo estava em um corredor escuro e desconhecido para ele. Entretanto, não estava só. Agarrada firmemente sua mão esquerda estava a pequena Alice, sorrindo em seu vestido azul.

Mantendo o agarre firme, porém gentil, Eugeo falou com sua amiga de infância.

“Isso é… o melhor para todos, não é?”

A grande fita que segurava os cabelos dourados de Alice sacudiu e ela assentiu com a cabeça com firmeza.

“Sim, vamos deixar tudo nas mãos desses dois. Estou certa de que vão arrumar esse mundo do jeito que deve ser.”

“Acho que você tem razão. Bem… vamos então?”

“Sim, vamos.”

Apesar de não saber quando aconteceu, Eugeo também tinha voltado a ser criança. E com sua mão segurando firmemente a da garota com sua mesma idade e altura, Eugeo começou a caminhar até uma luz branca no distante fim daquele corredor.

E nesse momento, a durabilidade da human unit com o ID: NND7-6361, chegou a zero.

Recebendo esse sinal, os programas controlando o Light Cube Cluster emitiram uma ordem ao Light Cube que guardava o Fluctlight de identificação correspondente.

Aceitando a ordem, a interface mecanicamente resetou a estrutura de cristal feito de praseodímio vinculado.

Centenas de dezenas de milhares de qubits de fótons guardados dentro dessa estrutura brilharam uma última vez e desapareceram.

E a alma chamada Eugeo que não havia vivido nem vinte anos, foi eternamente desvinculada do pequeno cubo.

Quase ao mesmo tempo, outro cubo, guardado a pouca distância do Light Cube de Eugeo, fez a mesma operação.

O Fluctlight em questão possuía as memórias separadas da alma chamada Alice Schuberg, produzida por métodos irregulares. De maneira sistemática foi extirpado de seu recipiente de cristal.

Impossível saber para onde estavam indo a coleção de fótons que formavam aquelas duas almas.

Sword Art Online Alicization Underworld - Eugeo x AliceParte 7

Eu fiquei lá, de joelhos, até que o corpo de Eugeo e o fragmento da memória de Alice descansando em seu peito se transformarem em cinzas e desaparecessem como o cadáver de Cardinal.

Quanto tempo havia se passado?

O espaço ondulante isolado além das janelas de vidro tinha, de alguma forma, ido embora na hora que eu notei e o céu cheio de estrelas havia retornado. E logo, um amanhecer violeta começou a surgir no horizonte, na distante cordilheira.

Privado de quase toda a capacidade de pensar, levantei cambaleando e me aproximei de Alice que estava um pouco afastada.

As lesões da garota eram terríveis também. Mas felizmente, a maioria dos danos eram queimaduras com quase nenhum sangramento, portanto, qualquer sinal de perda severa de vida estava ausente.

A levantei com o braço esquerdo na esperança de que recuperasse a consciência. Depois de pouco tempo suas sobrancelhas moveram-se ligeiramente enquanto uma leve respiração filtrava-se de seus lábios.

Estava viva.

Levando Alice, lentamente caminhei em direção ao extremo norte da sala.

O terminal de cristal foi tudo o que restou intacto daquele espaço isolado.

Ouvi um clique mecânico quando me aproximei, como se estivesse me dando boas-vindas.

Delicadamente deitei Alice no chão e pressionei uma única tecla translúcida com o dedo da mão esquerda no console.

Então, o monitor iluminado, exibiu uma tela de administração incrivelmente complexa.

A interface do usuário estava na língua sagrada ou melhor dizendo, em inglês, mas finalmente encontrei o que procurava depois de tocar a tela diversas vezes.

External observer call ou traduzindo, ‘chamada ao observador externo’.

Fiquei um tempo olhando para essa expressão…

Observadores…

Aqueles que construíram esse mundo… os mesmos que deveriam estar velando por ele.

Eles, os funcionários da empresa RATH, em outras palavras, aqueles que tinham me contado uma única mentira, porém, algo com um dano colateral de proporções imensas.

Junho de 2026, no mundo real, eu tinha participado como testador de um experimento contínuo e prolongado para a próxima geração de equipamentos FullDive, o Soul Translator, desenvolvido pelo RATH.

O teste transcorreu durante três dias ininterruptos.

E através da funcionalidade de Aceleração do Fluctlight do STL, que eles chamam de FLA, passei dez dias, cerca de 3,3 vezes mais tempo do que se passou no mundo real, mergulhado em um mundo VR. Sendo que para completar esse teste, tive minhas memórias bloqueadas para garantir a confidencialidade e integridade do experimento. Ao menos foi assim que o pessoal do RATH haviam explicado pra mim.

Mas foi justamente essa a grande mentira.

Pois o lugar onde fiz o FullDive durante o período de provas não foi um ambiente exclusivo de testes, mas esse mundo chamado Underworld onde eu estou no momento.

E os dez dias que disseram que passei dentro desse lugar foi, provavelmente, trezentas vezes mais…  algo próximo aos dez anos.

Sim. Nesses três dias de testes, eu tinha experimentado a infância pela segunda vez, até praticamente os onze anos de idade em uma pequena vila afastada no extremo norte do Mundo Humano.

Brincando com meus amigos, aquele menino e menina, ambos de cabelos loiros. Me cobrindo de lama, alguns machucados, peraltices, retornando à aldeia por aquele caminho que ladeava o rio e as plantações… até a noite cair, vivendo dessa forma, lado a lado todos os dias.

Essa foi justamente a cena que vi logo após despertar nesse mundo dois anos atrás. A sensação nostálgica que senti quanto lutei com Eugeo era porque vivíamos brincando com espadas feitas de madeiras quando pequenos.

Assim como quando presenteei meu amigo com uma espada feita de carvalho prateado, memória que veio à tona momentos antes de Eugeo perder a vida. Aquilo definitivamente não foi uma alucinação.

O fragmento de memória continha todas as recordações que havia experimentado, todas aquelas lembranças que tinham sido apagadas.

Cresci em Rulid juntamente com Eugeo e Alice…

Tinha esquecido de tudo isso até agora.

Desse mesmo modo, as memorias de Eugeo e Alice crescendo juntos foram modificadas. Talvez tenha sido essa a razão pela qual não sucumbiram totalmente ao efeitos do ritual da Administrator quando se tornaram Integrity Knight.

Não me importava de fato o porquê que o RATH havia inserido eu, um completo estrangeiro, nessa simulação de civilização por um período tão prolongado quanto esse. Porém, havia algo que definitivamente eu não poderia perdoar.

Quando a pequena Alice foi levada pelo Integrity Knight Deusobert. Desde essa época, Eugeo continuou culpando-se por anos a fio. Ficou lamentando-se de não ter podido salvara Alice. Sendo que, originalmente, eu deveria estar arcando com a metade dessa culpa.

Mas eu… acabei esquecendo o passado… ignorando a profundidade do sofrimento de Eugeo até o momento em que ele sacrificou sua própria vida….

– U.. ugh.. gh!

Um ruído estranho saiu da minha garganta.

Meus dentes rangeram violentamente, forçando uns contra os outros com toda a força que eu conseguia.

Levantando minha mão esquerda totalmente tensionada, esmurrei o botão para chamar o observador.

Uma caixa de diálogo em japonês surgiu com um aviso.

[Quando esta operação for executada, a taxa de Aceleração do Fluctlight será fixada em 1.0. Você tem certeza que deseja prosseguir?]

Eu apertei o botão OK, sem qualquer hesitação.

Repentinamente o ar pareceu se tonar viscoso.

Uma sensação estranha tomou conta de mim, como se meus próprios movimentos e até mesmo os pensamentos estivessem em câmara extremamente lenta. Mas assim como surgiu, rapidamente desapareceu.

Uma simples janela preta abriu no meio da tela. Um medidor de nível sonoro foi exibido com as palavras SOUND ONLY piscando no centro.

O medidor do equalizador multicolorido se movimentou para cima. Logo após, um forte ruído mecânico chegou aos meus ouvidos.

O som do mundo real.

O mundo do ‘outro lado’ com seus monótonos dias tranquilos com absolutamente nenhuma relação ou conhecimento da situação de Underworld. O mundo real com sangue, dor e morte.

Com uma tempestade de emoções intensas se agitando dentro de mim, controlei o nervosismo enquanto tremia.

Coloquei meu rosto mais perto do terminal e gritei o nome do homem que me trouxe para o Underworld tão alto quanto eu pude.

– Kikuoka!! Você pode me ouvir, Kikuoka!!?? Kikuoka!!?

Se minha mão pudesse chegar à Kikuoka Seijirou ou qualquer um dos outros administradores agora, eu realmente poderia estrangular a dita pessoa até a morte.

Batendo com meu punho cheio de raiva na estrutura de mármore, gritei mais uma vez.

– KIKUOOKAAAAAA!!!

Imediatamente, um tipo de som saiu da pequena janela mas… não era de um ser humano. Eram…explosões, nítidos sons de explosões.

O que me veio à mente de imediato se era o som de uma metralhadora que eu ouvia muito no jogo VRMMO Gun Gale Online, anos atrás. Mas porque estava acontecendo no outro lado…? Por que haveria tais sons lá?

Fiquei parado, aguçando os ouvidos até que… ouvi vozes humanas… gritando de maneira intensa.

[…-gativo, os invasores ocuparam a rota A6! estamos recuando!]

[A7, responda o fogo de alguma forma! segure-os até bloquearmos o sistema!!]

Mais uma vez, o som de tiros mesclados com mais explosões.

Mas que diabos é isso? Um filme…? Será que estou captando o áudio de um filme que alguém da equipe está assistindo na sala de pesquisa?

Porém, em seguida uma voz chamou um nome que eu conhecia.

[Tenente-coronel Kikuoka, estamos no limite!! Temos que abandonar o console principal e fechar a passagem!!]

Então… ouvi aquela voz… respondendo.

[Desculpe, mas segure-os por mais dois minutos! Não podemos deixá-los tomar esse lugar agora!!]

Kikuoka Seijirou, o homem que me trouxe a este mundo.

Nunca tinha ouvido sua voz tão tensa. O que exatamente estava acontecendo além dessa tela?

Será que o RATH estava sob ataque? Mas por quê?

Em seguida, a voz de Kikuoka se fez ouvir outra vez.

[Higa, ainda não bloqueou?]

Lembrei da quem era a voz que respondeu. Higa Takeru, o pesquisador do RATH que estava presente em meus testes de imersão.

[Preciso de oito…não, mais sete segundos…! Aa… aaaaaahhh!?]

A voz de Higa ficou toda distorcida, como se tivesse sendo surpreendido com algo.

[Ei Kikuoka! Tem alguém chamando de dentro! Não … de dentro de Underworld!! E é… aaahhh!! Sim, é ele! É o Kirigaya!!]

[O q-… o quêêê!?]

Ouvi passos correndo e logo após, som de microfonia.

[Kirito, está aí? Você está aí !?]

Definitivamente era ele, Kikuoka Seijirou. Deixando a hesitação e lado, gritei.

“Sim, sou eu! Escute aqui, Kikuoka… seu… seu… maldito..!”

[Escutarei o que você quiser depois! Agora, VOCÊ me escute!!]

Ao ouvir isso, essas palavras ditas com tanto desespero, não consegui falar nada.

[Ouça… Kirito, procure uma menina chamada Alice! E em seguida…]

“Procurar? Do que está falando? Ela está aqui comigo!”

Gritei de volta e Kikuoka instantaneamente ficou em silêncio. Depois, ouvi sons de agitação.

[N-Não… não posso acreditar… é realmente um milagre! C-Certo… não tenho muito tempo para explicar, então, assim que a transmissão for interrompida e a taxa de FLA voltar a mil vezes, pegue a Alice e vá até um lugar chamado World End Altar! Lá haverá um console interno como esse que você se encontra que está ligado ao console principal, mas você tem que ir rápido, pois esse lugar está vindo abaixo!]

“Vindo abaixo…? Espere! Mas agora que…”

[Desculpe, não há mais tempo! Escute, o altar está em uma linha reta até o sul, passando pela grande porta do leste…]

E nesse momento, uma voz estridente soou.

[Tenente-coronel, fechamos a passagem de A7, mas em poucos minutos as nossas… não, aaahhh!!! Maldição!!! Parece que começaram a cortar o cabeamento elétrico principal!!]

[Não pode ser!!! Isso é ruim, muito ruim!!]

A resposta não foi de Kikuoka e sim de Higa que gritava de maneira estridente.

[Kiku, cortando o cabeamento principal irá causar uma sobrecarga! O Light Cube Cluster estará a salvo… porém, haverá sobrecarga no console secundário onde está o STL de Kirigaya e isso vai… fritar seu Fluctlight!]

[Isso é ridículo! Ele está em tratamento agora, cheio de toneladas de limitadores e dispositivos de segurança do STL…]

[Tivemos que remover todas por seguranças, mas agora…]

Do que exatamente estavam falando?

O que aconteceria com meu Fluctlight se a eletricidade for cortada?

A pessoa que quebrou o silêncio foi Kikuoka mais uma vez.

[Vou bloquear este lugar! Higa, você vai com a professora Koujiro e a Asuna, retirem-se para o eixo superior, temos que manter o Kirito seguro!]

[M-Mas… e a Alice…!?]

[Aumentarei o FLA ao máximo! E pensaremos no resto mais tarde! Sua segurança é…]

Só entendi uma coisa no meio disso tudo.

Um único nome nas palavras de Kikuoka me atingiu como uma tempestade.

Asu… na? Asuna está… aí!? Ela está no RATH!? Mas… por que?!

Aproximei o rosto do terminal para perguntar para Kikuoka.

Porém, antes que minha voz pudesse sair. O dono da primeira voz que ouvi gritou em angústia.

[Nãoo! Cortaram a energia!! A hélice está parando, preparem-se para o impacto!]

Nesse momento, vi algo estranho. Pilares de luz branca silenciosamente descendo dos céus apunhalando o teto da catedral, atravessando-o e me acertando diretamente.

Não havia dor, nem impacto, nenhuma sensação. Entretanto, sabia que eu tinha recebido um dano tão grave que eu jamais me recuperaria… A luz perfurando minha própria alma ao invés de minha carne…

Algo que definia minha existência, algo precioso, foi completamente rasgado em pedaços e começou a desaparecer.

Tempo, espaço e até mesmo as minhas memórias se dissolveram em um vazio, um espaço totalmente branco.

‘Eu’… não reconhecia mais nada, nem sequer essa palavra fazia sentido… o que significava mesmo?

Ouvi uma voz, vindo de algum lugar distante, me chamando pouco antes que me fosse roubado a capacidade de pensar.

[Kirito… Kiritoooo!!]

Tinha um tom tão nostálgico, que me fazia querer chorar, um tom que poderia me fazer enlouquecer, mas… de quem era…?

[FIMDO VOLUME]

 

 

 

 

OLÁ PESSOAS!

FINALIZOU ENTÃO MAIS UM VOLUME, UM MARAVILHOSAMENTE TRISTE E TRISTEMENTE MARAVILHOSO, AINDA NÃO DECIDI.

O FATO É QUE NOS DESPEDIMOS DE PERSONAGENS CATIVANTES E SERÁ UMA PENA NÃO PODER MAIS CONTAR A HISTÓRIA DELES AQUI.

ESPERO SINCERAMENTE QUE TENHAM SE DIVERTIDO. SEMANA QUE VEM COMEÇA TUDO OUTRA VEZ.

OUTROS PERSONAGENS, KIRITO VEGETAL, ALICE TENDO QUE ENCARAR A INVASÃO DO DARK TERRITORY SOZINHA E DONA ASUNA LUTANDO COMO PODE PARA MANTER SEU AMADO A SALVO.

CONHECEREMOS TAMBÉM MAIS SOBRE OS HABITANTES DAS TERRAS ESCURAS. NÃO PERCAM, ATÉ LÁ!!

FORTE ABRAÇO!

 

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