Sword Art Online Alicization Underworld em Português – Uniting Capítulo 13 – Parte 3.1

Arco: Sword Art Online Alicization Underword – Uniting

Capítulo 13

Sword Art Online Alicization Underworld - Cardinal - Uniting
Kirito, Eugeo, Alice, fiquem atrás de mim!

Parte 3

Pensei que havia adquirido uma boa taxa de tolerância a dor.

Faz pouco mais de dois anos que cruzei espadas com os goblins que vieram do Dark Territory que surgiram na caverna ao norte de Rulid. Durante a batalha, meu ombro esquerdo foi seriamente ferido pela arma do líder deles, que apesar de ter sido longe de ser algo fatal, a dor foi avassaladora, na verdade, o medo de ter me ferido gravemente me fez sofrer mais ainda, acabei ficando encolhido e nervoso naquela ocasião.

Essa experiência em Underworld deixou bem claro a minha maior fraqueza. Provavelmente originada de meus longos anos lutando em mundos onde a dor era inexistente graças ao sistema que tinha função de absorção de dor instalada nos dispositivos NerveGear e AmuSphere. Acabei me acostumando com isso e minha resistência a dor foi completamente perdida.

Desde então, comecei a treinar esse meu lado, controlando meus movimentos, jamais retrocedendo aos golpes que certamente me acertariam durante as práticas com espada de madeira na academia que fazia com Eugeo. Por consequência, sofri muitas feridas e machucados visando única e exclusivamente condicionar meu corpo para ficar mais resistente a dor.

Credito à essa maneira de treinar que acabou me fazendo permanecer em pé e lutando diante todas as feridas sofridas em minhas batalhas contra os Integrity Knight, do contrário, estaria paralisado de medo. Além do mais, em Underworld, era possível recuperar-se por completo mesmo se mãos e pés fossem arrancados, contanto que sua Vida não cheguasse a zero.

Todavia…

No final dessa longa viagem, aprendi uma amarga lição de que nem tudo obedece os padrões programados.

O Sword Golem, a arma militar criada pela Administrator, possuía poder e velocidade extraordinários. Obtendo um desempenho muito além do parametrizado. De fato, já era um milagre ter conseguido bloquear o seu primeiro ataque, entretanto, o segundo golpe vindo de sua pata traseira foi mais rápido do que meus olhos puderam captar.

A espada, que fazia às vezes de perna do golem, estraçalhou meus órgãos internos. Pude sentir nitidamente aquela lâmina gelada rompendo meu estômago no momento do golpe, porém, estranhamente a dor maior foi a de ser arremessado no ar, bater com as costas contra a janela e desabar no chão. O choque criou uma onda de dor progressiva que tomou conta de todo meu corpo, me fazendo acreditar que tinha sido partido ao meio.

Não conseguia mover meus dedos, assim como não conseguia sentir os membros inferiores. Com minha visão turva, não tinha como confirmar se realmente fora cortado em dois.

Outro fator que era um verdadeiro mistério é de como pude manter a habilidade de pensar. Ouvi dizer que quando o ferimento é muito extremo, o cérebro desliga partes sensíveis para manter-nos lúcidos e evitar danos maiores. Seja como for, o desespero gritava mais alto do que a própria dor em si.

Meu marcador de Vida deveria estar em queda vertiginosa. Provavelmente não teria mais do que dois minutos antes de zerar.

A Integrity Knight Alice, com toda a certeza, tinha menos tempo ainda. A mulher cavaleiro, caída no chão ao longe, tinha sido apunhalada diretamente em seu peito também pela espada dessa monstruosidade. Pelo que pude perceber, ela tinha evitado no último instante que o golpe acertasse seu coração, todavia, seu sangue continuava se derramando a um ritmo alarmante. Era gigante a possibilidade de que nem sequer as artes sagradas curativas do mais alto escalão poderiam deter aquilo.

Essa incrível existência, esse Fluctlight que rompeu o selo do olho direito, o qual está presente em todos os habitantes de Underworld, com somente sua força de vontade, estava sendo extinta diante de mim.

A vida de meu insubstituível melhor amigo, Eugeo, que estava fora de meu raio limitado de visão, metaforicamente tremulava como uma vela a mercê do vento. Sua força já havia superado a minha há um bom tempo, entretanto, esse não era um inimigo comum que pudesse ser derrotado com simples habilidades de espada.

Minha visão nebulosa conseguiu registrar o avanço do Sword Golem, que em cada passada causava tremores no chão, como uma banda marcial martelando em minha cabeça.

Instintivamente tentei gritar para meu amigo ter cuidado, porém, somente um leve gemido saiu de minha boca. Infelizmente percebi, que mesmo que conseguisse gritar para Eugeo fugir, de nada adiantaria, pois ele certamente não nos abandonaria. Muito provável que estivesse agora agarrando a empunhadura da Blue Rose esperando o momento para lançar-se ao ataque na tentativa de salvar Alice e eu.

Minha única e pífia crença era de que essa terrível cena não ocorresse somente se a Administrator resolvesse poupar sua vida… devido a sua restrição de preservar tudo.

Na sala da Grande Biblioteca, a pequena Cardinal havia explicado que as essências de certos tabus estavam enraizadas no interior de cada um dos habitantes desse mundo. Que mesmo ela, não poderia ir contra, como demonstrado quando tentou colocar sua taça de chá sem sucesso em contato com a mesa, pois não tinha um pires embaixo.

Entretanto, também explicou que havia certas manobras que poderiam ser feitas para burlar esses impedimentos. A Administrator certamente tinha esbarrado com essas restrições e criado diversos meios para suplantá-las, como é o caso de criar um arma alheia as suas vontades, podendo mover-se de forma automática para chacinar seus inimigos, eliminando o fator de sujar suas próprias mãos diretamente.

A dor tão feroz quanto chamas estava agora se transformando gradualmente em um torpor gélido.

Senti minha Vida chegando ao zero. E quando isso acontecer, provavelmente serei expulso desse mundo, despertando dentro do STL com o pessoal do RATH prestes a eliminar Underworld… juntamente com todos os seus fantásticos Fluctlight, incluindo Alice e Eugeo…

A angústia tomou conta de meu ser. Desejei que minha morte aqui fosse realmente uma morte verdadeira, quis desaparecer ao lado dessas duas magníficas almas. Pois do contrário, como me desculparia com eles ao acordar fora de perigo do outro lado enquanto eles pereceriam aqui?

As quatro patas do golem foram aproximando-se e o resplendor dourado dos cabelos de Alice começou a sumir lentamente de minha visão. Até mesmo a luz da janela tinha sumido de meu campo visual.

Foi quando essa suave, porém, incrível voz surgiu em meus ouvidos.

Use a adaga, Eugeo!

Tinha um timbre gentil que parecia me acariciar. Continuei concentrado ao diálogo que se seguiu entre Eugeo e aquela linda voz de soprano enquanto minha mente mergulhava em um nada.

A dona da voz deu algumas instruções antes que anunciar que conseguiria algum tempo. Nesse instante percebi que o som vinha próximo ao meu ouvido. Senti por breves instantes algo morno tocar minha bochecha direita.

O calor desse leve toque trouxe uma ponta de sensibilidade de volta para meu corpo. Desesperadamente, juntei forças para abrir os olhos e consegui ver uma pequena sombra saltando em meio ao meu sangue que identifiquei como sendo…

…Uma pequeníssima aranha negra.

Soube que não poderia ser outra a não ser minha companheira de viagem, Charlote. O familiar de Cardinal que ficou incógnita comigo durante dois anos recolhendo informações. Mas, porque ela estava ali nesse momento? Já tinha sido destituída de sua função desde o instante em que se revelou na Grande Biblioteca e desapareceu por entre as estantes de livros.

A dor e o medo deixaram minha mente por alguns tempo por causa da surpresa. A criatura, que era demasiadamente minúscula, começou seu ataque ao gigantesco golem enquanto eu apenas podia observar.

A grotesca criação da Administrator não diminuiu seu avanço em nenhum momento, dando largas passadas com suas quatro patas, cobrindo uma distância absurdamente maior do que a que percorria a pequena aracnídea. Como ela pretendia conseguir algum tempo para Eugeo contra aquela monstruosidade?

Ao menos foi isso que pensei antes de deixar escapar um fraco gemido ao ver o que se sucedeu logo após.

A aranhazinha começou aumentar incrivelmente rápido o seu tamanho. A cada passo, seu tamanho dobrava em uma progressão geométrica, duas, quatro, oito, dezesseis vezes e assim por diante.

E antes que me desse conta, minha bochecha encostada no chão pode sentir os fortes tremores que as patas de Charlote estavam produzindo a cada pisada no tapete.

Fazendo um grande ruído metálico, o golem finalmente notou a nova inimiga. As duas gemas que compunham seu pseudorrosto cintilaram como se estivessem avaliando o oponente.

Emitindo um guincho estridente e ameaçador, a aranha negra, cujo tamanho facilmente superava os dois metros, tinha também um estranho brilho em seus quatro olhos.

Mesmo que seu corpo alcançasse a metade do golem, a super aumentada Charlote tinha um exoesqueleto que parecia muito resistente, em contraste com seu inimigo que era somente um aglomerado de espadas longas. Com sua casca brilhante refletindo a luz noturna e garras pontiagudas que cresceram em suas oito patas, parecia uma ameaçadora criatura feita totalmente de cristal negro. Duas de suas patas eram visivelmente largas, funcionando como longos braços e suas garras eram suficientemente grandes que se assemelhavam às espadas.

Elevando sua pata direita, Charlote atacou a perna esquerda do golem. Um imenso impacto metálico, como de duas espadas gigantes se chocando, ecoou por toda a sala. Faíscas alaranjadas iluminaram o local com uma luz cegante.

Esse flash fez o contorno da silhueta de Eugeo, que já havia começado a correr sem que eu notasse.

Entretanto, não corria para o golem e tampouco para Alice ou para mim.

Foi em direção ao adorno circular na parede ao sul, conforme instrução dada por Charlote, para cravar a adaga no disco de elevação.

Enquanto isso, o único golpe desferido por Charlote, apesar de desequilibrar o Sword Golem, pareceu não tê-lo de fato causado dano, pois ele logo se endireitou e já partia para o ataque, levantando seu braço direito.

Provavelmente, ele havia identificado a aranha gigante como sua inimiga, pois seus orbes começaram a brilhar fortemente enquanto girava o braço com um rugido metálico.

Charlote confrontou o ataque com sua pata dianteira esquerda. A espada dourada e a garra de cristal negro mais uma vez colidiram, causando outra violenta onda de choque. O tremor sacudiu o solo e vibrou dolorosamente meu corpo.

O simples golpe do golem, que facilmente acertou Alice e eu, foi detido pela aranha que amorteceu o impacto flexionando suas patas traseiras.

A dupla titânica continuou a luta feroz tentando destruir um ao outro por mais algum tempo. Até que a carapaça resistente de Charlote começou a apresentar algumas rachaduras frente ao massivo peso dos golpes sucessivos daquelas três espadas que formavam os braços do golem, fazendo com que suas articulações rangessem de tanta pressão.

Ficaram cruzando e medindo forças, até que em três segundos para ser mais exato, o impasse foi rompido com um ruído surdo vindo da pata dianteira de Charlote. Um fluído leitoso jorrou do corte, tingindo seu corpo negro.

Ainda assim, a aranha não retrocedeu e saltou para frente com os restos de sua pata direita em frangalhos. Seu objetivo era se colocar entre o espaço das três grandes espadas que formavam as costas do golem. A luz violeta que brilhava lá… o Piety Module.

Usando sua garra, avançando como um relâmpago negro apunhalou o prisma, a maior fraqueza do monstro metálico… e nesse momento tudo aconteceu.

Várias espadas se alinharam na esquerda e na direita da coluna vertebral do golem e sua caixa torácica se moveu…

Após um som metálico contundente como de uma guilhotina, as quatro lâminas de cada lado do corpo do gigante se cruzaram, capturando entre elas a valente aracnídea. Inevitavelmente, Charlote teve sua perna direita amputada, com novo jorro de fluído viscoso brotando dos horríveis cortes.

A caixa torácica do golem se abriu lentamente e a metade da perna decepada caiu de seu interior. Quem sabe convencido de sua vitória, mas os olhos do monstro piscaram rapidamente, como se não tivesse entendido o que a aranha havia tentado fazer.

Charlote, contudo, permaneceu com sua intenção de seguir atacando, mesmo tendo perdido suas patas dianteiras.

Com um guincho mais agudo do que o primeiro, ela saltou com seus cotos destroçados e líquido saindo de sua boca.

Entretanto, seu ataque não chegou ao objetivo. A perna do golem levantou mais rápido do que se esperava, cortando as duas patas esquerdas de Charlote, fazendo a imensa aranha desabar no chão com um golpe seco.

Isso é o suficiente, corra, por favor!

Tentei gritar.

Nunca havia conversado diretamente com aquela aranha chamada Charlote. Porém, ela sempre esteve me observando. Inclusive, foi ela que me orientou em como salvar as flores de Zephyria que cultivava no jardim do dormitório, quando foram cortadas por Raios e Wanbell. Ela havia interferido diretamente em meu auxílio mesmo desobedecendo à ordem primária de sua missão de apenas observar.

Ela tinha sua própria individualidade, uma existência preciosa. Não poderia morrer em uma batalha tão desesperada apenas para ganhar tempo.

Corra!

Tentei gritar novamente, porém, não produzi nenhum som.

De algum jeito, levantou-se com suas patas restantes, para novamente se lançar a outro ataque temerário. Mas dessa vez, o golem teve mais facilidade ainda para repelir, impelindo seu braço esquerdo diretamente em seu torso vindo de cima, tão rápido quanto o ataque de um escorpião traçando um elegante arco.

“A-Ah…!”

Um ruído estranho e baixo demais para ser considerado um grito, saiu de minha garganta.

E então aconteceu.

Um repentino brilho violeta encheu minha visão. Era um resplendor que já havia visto antes. Propagações luminosas surgindo de todos os cantos da sala, formando letras minúsculas. A mesma luz que saiu da adaga de Cardinal quando utilizei para salvar a subcomandante Fanatio.

Eugeo deve ter alcançado o disco de elevação e cravado a adaga que tinha lá. Não estou certo o que pode acontecer, entretanto, ele não desperdiçou o tempo que Charlote sofreu para conseguir a custo de sua vida.

Banhada na luz que surgiu, a aranha negra pisou forte no chão com as pernas que ainda possuía, procurando manter-se em pé mesmo com seu corpo todo perfurado e mutilado. Ainda assim, sua gigantesca estrutura não se sustentou e caiu pesadamente no chão, sobre uma grande poça de sangue branco enquanto o golem retirava seu braço afiado com um som aquoso de seu torso.

Os quatro olhos alinhados haviam perdido a maioria daquele vívido brilho inicial. Tendo confirmado o estado do disco de elevação, Charlote sussurrou com a voz fraca.

“Graça aos deuses… você conseguiu.”

Suas pernas tremeram e se recolheram enquanto mudava sua visão. Seus dois pares de olhos me fitaram docemente.

“Estou feliz… de ter podido lutar junto de vocês… nessa…”

Suas palavras cessaram como se dissolvidas no ar. A luz escarlate de seus brilhantes olhos redondos piscou e desapareceu.

Percebi novamente minha vista ficar turva, porém, dessa vez era devido às lágrimas que rolavam em meu rosto ao sentir a sombra da morte se aproximar de nós. A gigantesca aranha negra se encolheu silenciosamente. A poça de sangue rapidamente evaporou, deixando para trás nada mais do que um cadáver menor do que a ponta de meu dedo, virado para cima com suas patinhas contraídas.

O golem se virou instantaneamente perdendo todo o interesse pela vida que acabara de ceifar e olhou diretamente para Eugeo.

A silhueta gigante girou noventa graus e cravou fortemente a ponta de seu pé estendido no solo. As ondas de luz violeta continuavam ondulando por todos os lados.

Lutei com forças que não tinha para mover meu pescoço alguns centímetros para avistar a fonte da luz.

Um anel de luminoso vibrava no chão no lado sul da habitação circular, pertinho da janela de cristal inquebrável. Era o próprio disco de elevação que Alice e eu usamos para chegar nesse andar.

A última adaga feita por Cardinal estava cravada bem no centro do objeto como se fosse uma cruz em uma lápide, coberta por uma intensa luz violeta.

As adagas foram criadas de recursos aos quais tinham sido cultivados durante duzentos anos, as mechas dos cabelos da pequena sábia, e podiam abrir um portal que ligava Cardinal diretamente ao alvo que tivesse sido apunhalado por umas dessas pequenas armas.

Eugeo cravou o último recurso que tínhamos contra a Administrator no disco de elevação seguindo as instruções de Charlote, a aranha negra.

O objeto circular parecia um grande holofote resplandecente, propagando ondas de alta frequência como um conjunto de diapasões ressoando uns contra os outros. Continuou vibrando até a última adaga se desfazer, completando o processo de conexão.

Eugeo, tinha se colocado ao lado cobrindo os olhos com seu braço direito, incapaz de suportar a magnitude daquela luz.

O Sword Golem parecia um tanto confuso em seu avanço, pois titubeou levemente, fazendo suas articulações rangerem. Possivelmente não compreendendo o fenômeno em sua frente.

E assim que a intensidade da luz foi abrandando, uma superfície lisa de cor marrom escura, como um quadro retangular em pé, surgiu dentro do espaço antes iluminado. Não, para ser mais exato, não era apenas um tablado de madeira comum e tampouco era circular ou totalmente liso. Pois deslocado um pouco para o lado direito da estrutura, havia uma saliência metálica, como uma maçaneta prateada… sim, de fato, era uma porta.

Enquanto me esforçava para raciocinar sobre a situação em minha frente, houve mais um flash luminoso e as ondas vibrantes de antes se desvaneceram completamente, jogando a sala outra vez a pouca luz.

Tanto Eugeo quanto eu ficamos olhando em silêncio aquela porta com cor e formato familiar. Talvez por não saber lidar com as anomalias, o monstro metálico tenha reiniciado seu sistema para fazer update, só algo assim explicaria a parada repentina de seu avanço com a pata dianteira direita esticada para frente, suspensa em pleno ar.

E nesse momento…

Um leve ruído quebrou o silêncio recém-estabelecido no ambiente vindo da maçaneta e a porta enfim abriu sem fazer barulho.

A presença daquele objeto ali em si já era uma quebra inacreditável da realidade, pois se mantinha em pé como se fizesse parte de uma parede invisível, conectada em outra dimensão. Ao abrir, a luz que vinha da janela próxima não se filtrava pela abertura, atravessando como normalmente deveria acontecer. Havia um espaço que estava definitivamente dentro daquela porta, um espaço delimitado pelo seu marco feito de madeira rústica que não pertencia ao centésimo andar da Catedral Central. E essa dimensão abrigava uma densa escuridão.

Mesmo com a folha da porta abrindo, a visão de seu interior ainda era impossível. Nesse instante, o golem, recuperado de sua indecisão inicial, começou a se aproximar novamente, parecendo perder o interesse ao repentino surgimento da misteriosa porta.

Provavelmente, havia retomado sua instrução primordial e seu alvo agora estaria a menos de três passos de seu alcance. Com o brilho insano direcionado para Eugeo, a monstruosidade deu um passo, dois e…

Inesperadamente, uma surpreendente quantidade de luz inundou a escuridão contida no interior da porta. Uma explosão luminosa de um branco puro irrompeu horizontalmente do acesso criado.

O impacto desse fenômeno fez quase meus ouvidos sangrarem, superando em muito qualquer efeito de arte sagrada que já havia presenciado até o momento. O mais próximo de uma comparação que podia chegar era que aquilo parecia ser um relâmpago disparado a queima roupa diretamente sobre o Sword Golem, fazendo-o contorcer-se como se tivesse sentindo uma dor excruciante, incompatível de um ser que em tese não deveria estar vivo. Transformando-o em uma gigantesca massa carbonizada.

O rugido do ataque ficou reverberando por vários segundos no local antes de desaparecer totalmente. O golem, quem deveria possuir uma durabilidade próxima à invulnerabilidade total, foi detido…

Sua parte superior ficou tremendo e rangendo de forma errática, com fumaça saindo da superfície de seu corpo, com as lâminas de seus membros incandescentes enquanto os orbes que compunham aqueles terríveis olhos piscavam desordenadamente.

O monstro ainda assim continuava tentando cumprir sua missão, retomando seu avanço, entretanto, foi novamente atingido em cheio por outro relâmpago da mesma potência do anterior, saindo de dentro da porta. Se aquilo fosse realmente uma arte sagrada, era com toda certeza um encantamento que devia requerer uma extensa combinação de comandos para ser ativado. A potência daquele raio era incrível, deixando o golem com praticamente todas suas partes completamente carbonizadas.

O constructo de metal rangia estridentemente, soltando faíscas, com seu equilíbrio totalmente destruído, mas ainda assim fazia menção de avançar.

Porém, mal tinha levantado uma de suas destroçadas patas e um terceiro rugido tomou conta do lugar.

Golpeado mais uma vez pelo relâmpago branco, com duas vezes a potência dos dois primeiros, a arma militar que superava os cinco metros de altura foi completamente destruída.

Os poucos pedaços íntegros ainda restantes da criatura foram lançados ao ar, passando pelo lado direito da Administrator que continuava a flutuar calmamente e foram explodir na parede mais afastada da enorme sala, fazendo toda a Catedral Central sacudir ao receber o impacto.

A mortal arma, o golem de espadas, finalmente parou seus movimentos, entretanto, as pontas de suas patas ainda relutavam em parar de tremer, mostrando que sua Vida não tinha se esgotado plenamente daquela estrutura disforme. Mas o seu estado denunciava que logo sua vitalidade chegaria à zero.

Pensei rapidamente que ele morreria antes de mim ou de Alice enquanto voltava meus olhos para o interior escuro daquela porta outra vez. Sabia exatamente quem iria cruzar por ela. Não havia ninguém nesse mundo além da própria Administrator que pudesse lançar disparos tão rápidos e tão imensamente poderosos que não fosse ela.

A primeira coisa a surgir da escuridão foi o seu cajado sendo carregado por uma pequena mão. Seguido a isso, a manga comprida e larga sobre o pulso fino. Algumas camadas de tecido que pertenciam a sua capa, colocada sobre a túnica negra e um grande chapéu angular, decorado com um penacho. Os sapatinhos baixos mal apareciam na parte inferior de sua longa batina enquanto dava pequenos e silenciosos passos sobre o tapete da enorme sala.

A luz da lua finalmente a alcançou, iluminando seu cabelo castanho de aspecto suave, tocando levemente seus pequenos óculos arredondado e emoldurado em prata. Seus grandes olhos, contrastando jovialidade eterna com sua ilimitada sabedoria por trás de finas lentes.

A pequena sábia, Cardinal. A pessoa que possuía uma autoridade de acesso ao sistema equivalente à da Alto Ministro, a Administrator. Vivendo como sua contraparte na sala da Grande Biblioteca, um lugar isolado durante um tempo que poderia ser comparada com a eternidade.

A garotinha que calmamente saiu de sua passagem, se banhou na luz azul prateada da lua e parou seu avanço após dar alguns pequenos passos.

Ao fazer isso, a porta em suas costas fechou imediatamente.

Como ela havia conseguido entrar nesse quarto contendo uma barreira contra si, diretamente da Grande Biblioteca?

Com certeza foi devido à chave, melhor dizendo, a adaga que Eugeo carregava. Que sob orientação de Charlote, ao ser cravada no disco de elevação, que tinha como função o transporte de pessoas, certamente pode ser manipulado para criar uma abertura inesperada na barreira criada. Só uma pessoa como a Cardinal conseguiria fazer uma coisa dessas.

A pequena sábia observava toda a estrutura do último piso da Catedral com um olhar severo. Provavelmente era a primeira vez que a estava vendo em anos.

Em seguida, voltou seus olhos para Eugeo, que estava parado ao seu lado, deu-lhe um breve assentimento com a cabeça. Também fixou o olhar na mulher cavaleiro Alice, que estava jogada ao longe e após virou para mim, que estava em uma postura semelhante e me deu também um leve sorriso tranquilizante, assentindo novamente.

E por último…

Cardinal endireitou seu corpo e perfurou a Administrator com seus grandes e penetrantes olhos. A mesma continuava flutuando silenciosamente em sua calma característica um pouco mais afastado do grupo.

O perfil da sábia não demonstrava indícios de nenhuma emoção intensa de que pudesse ser chamado de um enfrentamento contra sua mais poderosa inimiga, mesmo depois de ter-se passado mais de duzentos anos.

Havendo confirmado a situação, Cardinal levantou levemente seu cajado em sua mão direita. Sua pequena figura flutuou instantaneamente e ela deslizou-se através do ar até onde Alice e eu estávamos.

Descendo novamente para o chão, primeiramente tocou Alice levemente com a ponta de seu cajado na altura das costas, ao que surgiram partículas brilhantes de luz que se juntaram e ficaram girando ao redor da garota caída, para depois fundir-se ao corpo da mulher cavaleiro.

Logo após, se aproximou de mim e cutucou de maneira nada gentil meu ombro. A mesma luz, calma e morna surgiu em minha volta e depois que se fundiu ao meu corpo, todas as sensações sumiram instantaneamente.

A fria sensação de vazio crescente que sentia, como se minha existência estivesse se esvaindo, sumiu. Depois, a dor abrasadora regressou ao meu abdômen, como se tivesse novamente recebido o golpe do golem. E quando estava prestes a urrar, a mesma dor sumiu, preenchendo o espaço com um calor aconchegante.

Todas as demais sensações corporais foram retornando junto com dores que eu já havia sentido em diversos momentos anteriores, mas que também foram sumindo e preenchida com outros sentimentos como se nunca tivessem existido. Não consegui evitar me surpreender. Se eu tentasse fazer uma arte curativa no mínimo parecida com essa, teria que ficar tranquilamente por horas a fio em um bosque super ensolarado, cheio de recursos naturais recitando comandos após comando e ainda assim, não conseguiria tal efeito.

Estava a salvo, assim dizia minha ingênua mente. Falar que aquilo tinha sido um milagre não era fazer justiça a uma arte tão grandiosa quanto aquela. Contudo, certamente um ato desses deveria ter um preço a ser pago à altura. E o que mais doía, era saber que a pessoa que pagou esse tributo, foi a pequena Cardinal.

Enquanto cogitava qual tinha sido a troca equivalente e que tipo de problemas isso tinha causado à pequena sábia, um pensamento frio passou na mente. Todo recurso utilizado para nos ajudar, era um recurso a menos na batalha contra a Administrator e isso era algo que a Alto Ministro não deixaria de notar…

Porém, como se estivesse totalmente despreocupada sobre minhas suposições, Cardinal gentilmente flutuou mais uma vez.

Aterrissou momentos depois perto de um minúsculo cadáver negro sobre o tapete.

Cravou profundamente o cajado no solo e se encurvou suavemente para pegar os restos mortais que jaziam no chão com ambas as mãos. Seus pequenos dedos envolveram completamente a aranha negra, Charlote, enquanto a trazia até seu peito.

A garotinha inclinou sua cabeça e sussurrou com uma voz doce, palavras que não consegui captar direito.

“Você… sua maravilhosa coisinha boba. Eu já não havia te liberado de seus deveres? Porque não foi aproveitar sua vida em algum lugar sossegado? Já tinha cumprido sua missão, eu estava agradecida por todo seu esforço e empenho… não precisava fazer isso…”

Seus grandes cílios piscaram uma, duas, três vezes e permaneceram abaixados por mais um tempo.

Recuperado, empunhei minha espada negra que estava caída ao meu lado com a mão direita.

Finalmente podia me mover apropriadamente outra vez. Então, a usei como suporte para me erguer.

Meu equilíbrio ainda estava retornando ao normal, por isso cambaleei um pouco até chegar perto de Cardinal e perguntei:

“Cardinal… essa era a verdadeira… forma de Charlote…?”

A pequena sábia de cabelos castanhos levantou seus olhos úmidos e respondeu pesarosamente.

“Muitas bestas mágicas e outras raras criaturas viviam em bosques, florestas e terrenos baldios no antigo Mundo Humano. Creio que está familiarizado com o que estou falando, não é?”

“Você está se referindo aos Named Monster… certo? Monstros especiais criados para os jogos de MMORPG, que tem nomes, personalidades e são muito mais poderosos que os outros de sua espécie.

Mas… Charlote era capaz de falar a língua humana, incluindo demonstrava emoções… por acaso ela também não era uma existência que possuía um Fluctlight…?”

“Não… E usando as palavras de seu mundo, ela seria o equivalente a um NPC. Tinha um considerável motor de pseudo-inteligência em seu main visualizer, o que a fazia ser um pouco mais do que Lightcube é. A grosso modo, ela era parte do próprio sistema.

Diversas bestas, monstros, árvores antigas, rochas gigantes e outros seres capazes de manter algum nível de conversação em língua comum estavam espalhados pelo Mundo Humano. Entretanto… hoje em dia, todos já foram destruídos. A metade foi exterminada pelos Integrity Knight enquanto a outra restante foi usada como fonte de recursos para criar objetos, tudo obra dessa… Administrator.”

“Entendo… assim como o dragão guardião que virou apenas ossos na caverna das montanhas ao norte.”

“Sim. Pensei que seria uma pena deixar essas magníficas inteligências artificiais serem destruídas dessa forma, então tentei pegá-las para mim a fim de preservá-las.

Mesmo tendo como meus familiares diversas pequenas unidades sem motores de inteligência ao meu dispor, algumas dessas criaturas que recuperei acabaram também me ajudando com essa tarefa, Charlote foi a mais formidável dentre todas.

Foi-me muito conveniente ter esse tipo de auxílio, já que eles não sofrem muitos danos, pois podem manipular seus status de acordo com suas vontades e situação. Essa pequena aranha passou por poucas e boas, mas sempre se manteve ilesa devido à capacidade de diminuir seu tamanho e se esconder… pelo menos até agora…”

“M-Mas… ainda assim…”

Olhei fixamente para o corpo de Charlote inerte na palma da mão de Cardinal e continuei a pergunta enquanto resistia a vontade de chorar.

“Suas palavras, ações… tudo em Charlote de alguma maneira era verdadeiro, não tinha nenhum traço de uma simples inteligência artificial. Ela me salvou, se sacrificou por mim… porque ela faria uma coisa dessas…? Como ela pode fazer algo assim…?”

“Creio que já disse isso antes, mas essa criatura viveu por mais de cinquenta anos. Havia passado conversando continuamente comigo todos esse tempo e vigiando os hábitos dos humanos. Inclusive esses dois últimos anos os acompanhando…

É natural que ela se apegasse a você… mesmo não possuindo um Fluctlight, ela…”

O tom da voz de Cardinal repentinamente aumentou, se tornando mais resoluto.

“Inclusive se a verdadeira natureza dessas inteligências forem nada mais do que dados de entrada e saída, um coração verdadeiro pode sim residir nelas. Então, visto por essa ótica, o amor pode existir.

Infelizmente, pode-se passar uma eternidade que você jamais entenderá isso… Administrator, seu recipiente vazio!!”

Gritando essas palavras que não eram mais dirigidas para mim, a garotinha voltou seus olhos de maneira ressentida para sua inimiga de duzentos anos.

Flutuando à distância e observando tudo em silêncio, a Alto Ministro não deu uma resposta imediata.

Suas finas mãos cobriram a boca, mostrando nada mais do que uma luz misteriosa se filtrando por aqueles olhos prateados.

De acordo com a história que Cardinal havia me contado, a Administrator se fundiu com o Cardinal System original, manipulando seu Fluctlight e eliminando a maioria de suas emoções com a finalidade de prevenir qualquer revolta do subprocesso de recuperação e esse expurgo originou a segunda personalidade que formou a base da Cardinal atual.

O perigo do subprocesso possuindo seu corpo havia passado depois que foram separadas em duas existências humanas únicas, mas ainda assim, ela deve ter encontrados diversas outras emoções que considerou inútil e certamente não gostaria de revivê-las.

Assim que, a imagem que tinha da existência conhecida como Administrator era de um ser humano que processava tarefas como uma máquina, que se comportava exatamente igual a um programa de computador. Entretanto, a Alto Ministro que encontrei nesse último andar da catedral diferia muito de minha imaginação. Não pude sentir nada de falso por trás daqueles sorrisos de soberba e também de todas as emoções que transmitia a Chudelkin em forma de desprezo ou da satisfação em manipular todos.

E mesmo agora…

A gargalhada que ela deixava escapar por entre os vãos de suas mãos, enquanto tentava em vão suprimir.

Hehehehehe… Fufufufu!!!

Se dirigindo a Cardinal com toda a superioridade, como se a garotinha fosse menos importante do que uma simples brisa, seus ombros esbeltos tremiam enquanto seguia rindo.

Ficou assim por alguns instantes e entre uma risada e outra, falou com severidade.

“Sabia que viria. Hehehehe!!!”

Riu mais um pouco.

“Mas confesso que inicialmente achei que iria deixar tudo nas mãos desses garotinhos. Entretanto, conforme o rumo das coisas foi acontecendo, sabia que viria.

E sua presença aqui só significa que você não tem mais nada, chegou ao seu limite, irmãzinha. Ainda não é capaz de usar seus peões da maneira correta, abandonando-os quando fracassam. Veja só! Esses humanos estão além de qualquer ajuda, mas eu os ‘amaciei’ esperando a sua chegada. Apostou nas peças erradas mais uma vez.”

Como imaginei…

Temi que o objetivo real da Administrator era atrair Cardinal para fora de seu isolamento na Grande Biblioteca. Contou com a intensa vontade de preservar e arrumar tudo de Cardinal e nos torturou até ela se revelar. Em outras palavras, a Alto Ministro podia nos obliterar a qualquer instante, mas se segurou, pois tinha um plano.

Mas… o Sword Golem, sua principal arma tinha sido destruída por Cardinal e Eugeo, Alice e eu, que já havíamos recobrado a consciência e estávamos se levantando, logo estaríamos pronto para seguir com a batalha.

Tecnicamente os dois lados estavam equiparados, com Cardinal e a Administrator com as mesmas capacidades, com o equilíbrio podendo ser quebrado por nossa presença. Porém, se ela havia atraído sua pequena contraparte para cá, é seguro dizer que deveríamos esperar uma reviravolta na situação.

Por experiência própria, atacar antes em um combate geralmente garante uma vitória rápida e limpa. Com isso em mente, a Administrator deveria ter atacado Cardinal com todas suas forças no momento em que ela atravessasse a porta.

Entretanto, porque a deixou sair da passagem e ficou somente observando Cardinal destruir sua preciosa arma, o Sword Golem? Sem contar que deu tempo para que ela regenerasse nossas feridas e ainda ficou observando Cardinal calmamente terminar a explicação sobre Charlote.

Naturalmente, Cardinal deveria ter as mesmas dúvidas do que eu. Porém, sua expressão só revelava uma firme resolução.

“Hmm… E você parece ter ficado muito boa com essa imitação de ser humano. Bom, teve duzentos anos para aperfeiçoar esses sorrisinhos, não é? Andou praticando em frente a um espelho?”

A Administrator fez pouco caso das palavras de Cardinal e continuou sorrindo.

“O mesmo para você, mana. O que pensa em conseguir fazendo esse discursinho? Da última vez que te vi, duzentos anos atrás, estava tremendo miseravelmente enquanto fugia de mim. Estou errada, Lyceris?”

“Não me chame por esse nome, Quinella! Meu nome é Cardinal, um programa que existe somente para te eliminar.”

“Ufufu, isso é exatamente o que você é. Enquanto eu, a Administrator, sou quem manipula todos os programas. Desculpe-me pela recepção tardia, minha irmãzinha. Levei um tempinho para preparar uma arte para dar-lhe as boas-vindas apropriadas.”

Finalizando a frase com um grande e amável sorriso, a Administrator gentilmente levantou sua mão direita.

Os dedos esticados se curvaram como se estivesse agarrando e destruindo algo invisível. Suas bochechas enrubesceram e uma luz violeta refletiu em seus olhos prateados. Um forte calafrio percorreu minha coluna quando percebi que a Administrator estava levando aquilo a sério pela primeira vez.

Mas não havia tempo para fazer nada. Um instante foi tudo que a Administrator precisou para cerrar seu punho direito de maneira agressiva.

Então…

Uma avalanche de sons devastadores se ouviu por todo o salão. Pensei por um momento que as paredes e estruturas de cristal estivessem desmoronando sobre nossas cabeças.

Entretanto, estava errado.

O que acontecia além das janelas, além das paredes que agora era nada mais do que uma mera marcação semitransparente, o que se destroçava era o mar nebuloso de nuvens serpenteantes, as estrelas, a lua cheia brilhando com sua luz branca azulada… enfim, tudo que poderia ser conhecido como os céus.

Observei perplexo enquanto o céu se transformava em incontáveis fragmentos estilhaçados, girando, se dispersando, caindo e rompendo-se em partículas tão pequenas ao chocarem-se umas com as outras. O que surgiu logo após a desconstrução de tudo a nossa volta tinha um nome… o nada!

Impossível detectar a noção de profundidade naquela densa escuridão em tons violetas que parecia se retorcer de maneira viscosa. Era um mundo inteiramente vazio, sem nada. Sua mente se perderia em um branco total se fixasse o olhar por muito tempo.

Diferia completamente em tonalidade e beleza, mas ainda assim, senti certa semelhança a uma cena antiga. Com um véu de luz branca e nuvens douradas que cobria os céus e abraçava e engolia aquele castelo flutuante, Aincrad, no momento de sua destruição. Em essência, era a mesma coisa, um lugar de morada e sepultamento de todas as coisas.

Underworld estaria se desfazendo também? O Mundo Humano, o Dark Territory, as vilas e cidades… junto com todos seus habitantes… tudo?

O que me tirou dessa sensação crescente de pânico foi a voz de Cardinal, firme e resoluta, ainda que não completamente imune à comoção.

“Você… desconectou o… address?”

A que ela se referia?

Observei incapaz de tirar meus olhos da Administrator mesmo em total confusão. Enquanto a mulher gentilmente baixava sua mão direita e respondia baixinho.

“Certamente sou a única culpada por ter permitido que você fugisse duzentos anos atrás quando estava prestes a morrer, minha querida irmã. Esse andar é agora um host local, sem um address, foi construído especialmente para você. Da outra vez conseguiu acesso externo e escapou. Dessa agora será diferente, aprendi com meu erro. Está presa como uma ratinha e eu sou o gato que irá lhe caçar.”

Fechando a boca, a Alto Ministro fez uma expressão divertida no rosto, levantando seu dedo da mão esquerda como se estivesse pronta para dar o toque final.

Um ruído de algo quebrando, bastante fraco se comparado ao som aterrorizante de antes, soou um pouco atrás de nós, onde a porta marrom estava. Logo após, a passagem feita de madeira foi completamente destruída. Seus fragmentos viraram pó e se dispersaram no ar, igualmente acontecendo com o padrão radial do disco de elevação, que simplesmente evaporou do solo.

Eugeo, que estava parado ao lado, começou a pisotear o chão várias vezes no local onde estava o disco antes de levantar o rosto e dar uma pequena sacudida com a cabeça em sinal negativo para mim.

Em outras palavras, não existia mais nenhum ponto de acesso para outras partes desse lugar isolado.

O que a Administrator havia feito foi romper a conexão da sala do último andar da Catedral Central com o resto do mundo.

Mesmo se nós, de alguma maneira, pudéssemos quebrar aquelas janelas, não poderíamos sair dali, pois não havia um lugar para ir. Esse era um método usado para isolar alguém em um espaço virtual, algo que requeria um nível supremo de autoridade.

Comparado com isso, a área de encarceramento do Black Iron Castle no primeiro andar do antigo Aincrad podia ser considerada como brincadeira de criança.

A Administrator não estava perdendo tempo no momento em que Cardinal havia aparecido, ela estava usando a oportunidade para preparar essa arte absurdamente complexa.

Mas, se as conexões entre os espaços estavam completamente cortadas, então…

“Creio que essa metáfora não esteja completamente correta, creio eu.”

Aparentemente, a pequena sábia tinha chegado a mesma conclusão, ao proferir essas palavras em voz baixa.

“Embora você tenha levado poucos minutos para desconectarmos, fazer o caminho inverso não será uma tarefa muito fácil. Assim, você também está presa aqui. E creio que está bem claro qual dos lados pode ser considerado o gato e qual será o rato. Depois de tudo, nós somos quatro e você, apenas uma. Estará cometendo um grave erro se subestimar esses três garotos, Quinella.”

Sim, ela está certa.

Com as coisas como estão, a Administrator não deveria ser capaz de escapar desse espaço tão facilmente por si mesma. E ambas, Cardinal e ela, eram grandes usuárias de artes sagradas extremas, com o mesmo nível de autoridade.

Possivelmente teríamos que terminar esse impasse em uma batalha corpo-a-corpo, enquanto Cardinal enfrenta e cancela as artes dirigidas para nós.

Mas, mesmo depois de Cardinal ter dito isso abertamente, a Alto Ministro conservou seu sorriso.

“Você disse… quatro contra um? Não, irmãzinha, seus cálculos estão equivocados. Para ser mais precisa… são quatro… contra trezentos. Excluindo a mim, que ficarei apenas olhando.”

Assim que voz melosa e viciada finalizou suas palavras, a massa de metal, o Sword Golem que deveria já ter se desintegrado atrás da Alto Ministro, começou a produzir sons metálicos ensurdecedores, como se um enorme violino desafinado começasse a tocar.

“O quê…!?”

Cardinal franziu o rosto. Ela deve ter julgado que já tivesse destruído completamente após tê-lo golpeado por três vezes com seus relâmpagos disparados a queima roupa.

Entretanto, a luz dos orbes que faziam as vezes de olhos do golem e que estavam praticamente apagados, voltou a brilhar intensamente, como se duas estrelas estivessem incrustadas naquele arremedo de rosto.

Direcionando aquela luz homicida para nós, o gigante se levantou como se a falta dos membros, destroçados anteriormente, não lhe fizesse falta. Com um movimento único, se pôs de pé com um estrondoso rugido.

Quando a criatura se colocou em posição ereta, foi possível notar que todas as partes faltantes e carbonizadas de seu corpo, apresentavam agora nenhum tipo de marca de dano e com os membros antes ausentes, agora ressurgindo em perfeito estado.

Certamente que as armas de alta prioridades eram providas da habilidade de regenerarem suas Vidas nesse mundo, mas somente se fossem apropriadamente mantidas em suas bainhas e em locais com recursos abundantes. Coisas completamente ausentes nessa situação, já que o local de descanso das espadas que formam a criatura, eram os pilares da enorme sala e elas não tinham retornado para eles.

Inclusive, mesmo que todas as espadas fossem consideradas instrumentos sagrados, como a Administrator havia dito, não explicava a razão pela qual tinham se recuperado de maneira tão acelerada de todos aqueles danos severos.

Porém, a realidade é que o gigante de espadas estava erguido atrás da Alto Ministro envolto em uma aura assassina e poderosa igual ou até mais poderoso do que antes quando recebeu os três relâmpagos.

Se esse golem pudesse ser produzido em massa, seria realmente um meio poderoso o suficiente para contra-atacar a invasão conjunta do Dark Territory. Só com sua incrível tenacidade já dava para perceber que seria um obstáculo praticamente intransponível.

A sonora voz da sábia chegou aos meus ouvidos enquanto estava perplexo vendo a cena.

“Kirito, Eugeo, Alice, fiquem atrás de mim! Não se movam em momento algum!”

Após escutar suas instruções em tom de urgência, meus dois companheiros se apressaram em se posicionar conforme Cardinal ordenara.

Parecia que o dano que Alice sofreu a direita de seu peito quando perfurada, havia sido completamente curado, como os meus ferimentos. Ela havia perdido a proteção peitoral de sua armadura, assim como teve suas roupas de abaixo, o avental branco e o vestido azul completamente rasgados, entretanto, seu corpo não parecia mais ter sinais de danos.

Com sua Frangrant Olive Sword apertada fortemente em sua mão, sussurrou suavemente.

“Kirito… quem é essa pessoa…?”

“Seu nome é Cardinal. A Alto Ministro anterior que lutou contra a Administrator e foi exilada, duzentos anos atrás.”

E em contraste com a atual, ela estava encarregada de reiniciar e formatar esse mundo, regressando-o para o vazio, mas obviamente, não poderia dizer isso. Então, continuei minha explicação duvidosa.

“Está tudo bem, ela está do nosso lado. Foi ela quem ajudou Eugeo e eu e nos guiou até aqui. Ela ama incondicionalmente esse mundo e sente tudo que aconteceu e está prestes a acontecer, do fundo de seu coração.”

Pelo menos isso era uma verdade. Alice parecia ser incapaz de deixar de lado todo seu usual modo de desconfiança, entretanto, algo a fez mudar de ideia e gentilmente colocou sua mão esquerda no lado direito de seu peito, no lugar onde Cardinal tinha milagrosamente curado seu ferimento e assentiu com a cabeça.

Sword Art Online Alicization - Cardinal“Entendido! As artes sagradas de alta categoria também tem o poder de refletir o coração de seu usuário… Eu não preciso duvidar do poder dessa pessoa, já que senti todo seu carinho no gentil calor quando ela me curou.”

Exatamente! Ela havia compreendido completamente os sentimentos de Cardinal. Em resposta, assenti em afirmativo com a cabeça, profundamente comovido.

Uma dura batalha estava por vir.

 

 

PQP! CHARLOTEEEEE!!!!!!

COITADINHA DA ARANHAZINHA, SUBIU NO GOLEM FORTE E ELA A DERRUBOU… (horrível eu sei T_T)

QUINELLA E LYCERIS, A LUTA GERIÁTRICA VAI COMEÇAR!!!!

 

OBS.: Filme pronto e lançado galerinha, espero que gostem  da Yunna… aaah… essa Yunna.

Quem quiser o link do filme traduzidinho, me mandem mensagem aqui ou lá na fan page me passando o e-mail (de preferência gmail) que repassarei. Motivo? O grupo ao qual encabeçou o projeto ainda não lançou, então a divulgação full será daqui uns dias, então, conversem comigo que eu passo o acesso. 

Sword Art Online Alicization Underworld Uniting

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Coloquem essa música no repeat e leiam,principalmente na parte da Charlote, é de cortar os pulsos. Vou até dar um beijinho nessa aranhazinha aqui perto da luz e… ãh… deixa para lá!

  • Gin Wolfstein

    A Charlote foi uma verdadeira heroína, ela merece uma estátua em sua homenagem…
    A Kamidere deu 300 vidas pro Sword Golem, isso sim que é ser prevenida e covarde hein.
    Obrigado pelo cap

  • Isabel

    Obrigada pelo capítulo. Sabe onde o filme foi lançado?

  • Vinicius Cavalcante

    Primeira aranha que ninguém torceu contra…..u.u
    Filme por favor rsrsrs

  • Ae mano, blz? A sua tradução da ficando legal demais! Muito obrigado por continuar publicando! Pode me mandar o link do filme? victorggg143@gmail.com

  • Krl, to até cortando os pulsos aqui de tristeza ;-; Adeus Charllote. Sempre lembraremos de vc.

  • Darkphanton

    Ta cada vez melhor! Pode me passar o link do filme? darkohanton@gmail.com

  • André Brandão seu lindo S2 kkkk brincadeiras a parte.

    1º Parabéns…Pq? Simplesmente sem o seu esforço e a sua dedicação, não estaríamos lendo essa obra de arte.

    2º Que vc continue sempre assim e irá longe se assim persistir (só precisa melhorar as piadas kkkk brincadeira rsrs).

    Obrigado por disponibilizar o seu tempo para traduzir, editar e postar para nós os capítulos de SAO, muito obrigado mesmo.

    Se for possível pode me enviar o link do filme por favor (spacacheri@gmail.com) e essa música ali em cima eim ai ai…acaba não mundão que chegamos na melhor parte.

    E nos dê notícias do chibi Kirito rapaz, já encontrou a Asuna perfeita pra ele rsrs.

    Abraços e obrigado pelo seu trabalho.

    • Hahahaha obrigado 🙂
      Esforço e dedicação seriam meus nomes do meio… se não fosse o Luiz e o Nunes… (cara,não dá para evitar, sou um poço de cultura inútil e piadas ruins)
      O quanto eu puder e o chibi deixar, estarei sempre aqui traduzindo.
      Mandei para o seu e-mail.
      Um forte abraço e muito obrigado.

  • Saulo cesar

    Obg pelo capitulo andré, me alegra muito ver alguem tão dedicado à um projeto desse. Link do filme pls. saulocesarlopes@gmail.com

    • Muito obrigado. Envei 2 e-mails, ignore o primeiro e considere apenas o segundo que é a versão mais recente. O primeiro foi por engano.

  • Gabriel Nani

    Cara eu nunca comentei aqui antes porque eu não tenho esse hábito, mas eu realmente aprecio o trabalho que você está fazendo já que deve levar bastante tempo e esforço.
    Então meu muito obrigado a você.
    Enfim o motivo de eu estar comentando mesmo é o filme, que eu estive ansioso para assistir desde os trailers lançados.
    Poderia me enviar o link por favor? Grato desde já.
    gabrielnani7@hotmail.com

    • Obrigado pelo apoio. Já está em seu e-mail, e por favor, mantenha-o para você por enquanto até o grupo fazer o lançamento oficial.
      Forte abraço!

      • Gabriel Nani

        Perdão pelo incomodo mas poderia enviar neste outro email – gabrielnani7@gmail.com
        Não estou conseguindo acesso ao meu hotmail atualmente.

  • Luis

    Kra, isso ta ficando cada vez melhor, alias pode me passar o link do filme? martins-portuga@hotmail.com

    vlw pelas traduçao ♥

  • Gustavo

    Agora a treta vai começar de verdade!

    Poderia me mandar o filme?
    gustavomelati@hotmail.com

  • Helio Fernandes Farias

    Eita…agora a coisa ficou séria… mano, ELA CRIOU UM LOCALHOST O.O’
    Caramba, nunca tinha visto “redes e TI” desta forma… rs

    Acho que colocar o Cardinal nesta forma, foi um jeito de fazer com que o Kirito também deixasse de odiar o sistema do antigo castelo de Aincrad… e ficou muito bom, atém os leitores devem ter deixado de odiá-lo (ainda mais depois de tentar deletar a Yui…)

    Tem como me mandar o e-mail com o link do filme? abraços!

    • Pois é, ela criou um ambiente virtual (uma VM) com um servidor local dentro dela. A versão do Cardinal que tinha em Aincrad era sem sentimentos, já essa, foi mesclada com a alma de uma humana de Underworld e preenchida com a parte da humanidade da Administrator que foi por ela descartada.
      Eu gosto muito dessa baixinha petulante hehehe.
      Obs.: Olhe seu e-mail.

  • Tales Mendes

    Me manda o link?
    tales.mendez@gmail.com

    • Está na mão, só olhar o seu e-mail. E desculpe a demora 😉

  • Romero

    Tadinha da aranha… Pelo jeito as coisas vão ficar um pouco mais sangrentas também….

  • Opa, sempre acompanho seus updates e gostaria de agradecer, e por favor me envie o link! liberatoreis@gmail.com

  • Emanoel Elon

    quero o filme elon65795@gmail.com

  • Belíssimo trabalho cara, parabéns, ah e manda esse link do filme pra aumentar o hype do Alicizaton animado kkkk kurosakimiguel03@gmail.com

  • Carlos Miguel

    Opa alguem disse link? Eu quero kkk cmmiguelanjo@gmail.com