Sword Art Online Alicization Dividing em Português – Underworld – Capítulo 9 – Parte 1.1

Arco: Alicization –Dividing

Capítulo 9

Integrity Knight Alice (5º mês do calendário do Mundo Humano do ano 380)

Sword Art Online Alicization - Dividing - Volume 13 - Alice e Kirito

Krriink…!

Krriink…!

Meu coração estremecia a cada rangido.

O ruído vinha da ponta da espada negra, que de algum jeito, estava cravada em um pequeno espaço entre os blocos de mármore branco que cobria a parede exterior da Catedral Central da Igreja Axiom.

Segurava a empunhadura da minha arma com toda a força que conseguia. O suor só dificultava a situação, fazendo meu antebraço e ombro gritarem enquanto sustentava torpemente a carga. Não restavam dúvidas de que eles cederiam a qualquer momento.

De alguma maneira consegui sustentar o peso de dois corpos humanos com somente a força de um braço e a ponta de uma espada. Agradeci do fundo do coração a grande prioridade que minha querida amiga negra possuía.

Tinha que pensar rápido em uma maneira de sair daquela situação. Se estivesse sozinho, provavelmente se faria uma tarefa mais fácil, porém, em meu braço esquerdo, repousava não músculos, mas uma grande e pesada massa metálica.

Não haviam sulcos profundos o suficiente na parede que possibilitassem algum agarre. Era quase tudo tão liso quanto à superfície de um espelho, ou seja, mesmo fazendo um movimento arriscado com a espada, não existia garantia de conseguir cravá-la novamente em outro vão.

Tudo que restava sob meus pés era o interminável vazio dos céus. Realmente as coisas não estavam saindo como eu gostaria, ainda mais se a pessoa que carregava na mão esquerda e que estava desacordada no momento despertasse…

A fadiga física nesse mundo alternativo, Underworld, divergia um pouco do seu irmão real original.

Como na realidade, se você caminhasse longas distâncias, corresse o máximo que sua constituição permitisse, praticasse exercícios sem interrupções ou levantasse objetos muito pesados, iria acarretar algum tipo de penalidade. Só que aqui, ela se daria de forma parecida com uma lesão, diminuindo rapidamente sua vida, que era o numeral que controlava a existência de todos os seres desse mundo.

Morte por esgotamento dificilmente acontece no mundo real. Normalmente, a pessoa ficaria incapaz de continuar se esforçando e acabaria sendo vencida pela fadiga muito antes de chegar a níveis próximos à morte. É claro que exceções existem, como os casos onde a força de vontade suplanta os limites do próprio corpo, mas como disse antes, isso são casos esporádicos.

Mas aqui é bem plausível acontecer, pois se a pessoa for ignorando a queda vertiginosa de seus pontos de vida, em uma corrida ininterrupta, por exemplo, poderá desaparecer sem ao menos se dar conta.

Nesse exato momento, estou sustentando um peso ridículo com somente a força de meu corpo. Com toda a certeza, meus pontos de vida estão reduzindo rápida e constantemente. Possivelmente se nada mudar e eu continuar segurando e sustentando apenas com meu corpo, chegará uma hora em que a vida do Kirito desse mundo atingirá zero e eu simplesmente serei disperso nos céus. Assim como o corpo da mulher cavaleiro que carrego, quando eu deixar de existir, ela atingirá o chão com um impacto estrondoso, se transformando em partículas luminosas muito antes de acordar.

Somada à situação crítica, estava o estado de minha espada negra. Ela também vinha suportando uma carga enorme muito além de seu limite com somente a ponta. Já seria perigoso forçar sua resistência caso ela estivesse em seu normal, porém, já tinha ativado a arte de controle total duas vezes.

Não conseguia abrir a janela de Stacia para comprovar o valor que ainda restava, mas podia imaginar que sua vida estaria chegando à zero em mais alguns minutos. Se isso acontecesse, ela iria se quebrar e nem retornando à bainha iria restaurá-la.

A espada iria se partir sem ao menos ter recebido um nome e também ficaria sem um mestre que morreria ao se chocar com o chão.

O cenário era esse, tanto o espadachim quanto a espada estavam tendo suas forças vitais drenadas enquanto corriam contra o tempo para se salvar.

“Já chega! Solte a mão!”

A mulher que estava pendurada um pouco abaixo de mim, a Integrity Knight dourada Alice Synthesis Thirty, segurando seu instrumento sagrado, a Fragrant Olive Sword, gritou:

“Não tenho a menor intenção de ter a vida salva por um criminoso como você.  Se isso acontecer, viverei em total desonra.”

À medida que balançava seu corpo tentando se libertar de minha mão, mais o suor aumentava tornando-a escorregadia.

“…Ei.. sua…!”

Não sei como consegui me segurar enquanto ouvia todos os ossos de meu corpo estalarem e rangerem, igualmente ao som da espada cravada na parede trepidando e saindo pouco a pouco de seu sulco.

Desesperadamente consegui a postura mais estável possível, olhei para baixo e gritei de volta:

“Pare de se mover, sua idiota! Se é mesmo uma Integrity Knight, então, comporte-se como tal e se dê conta que ficar gritando e esperneando não irá adiantar nada.”

“O q…!”

O rosto alvo da garota que olhava para mim, rapidamente corou.

“C-Como… você se atreve a zombar de mim? Peça desculpas imediatamente, seu… criminoso!”

“Fique quieta! Se te chamei de idiota é porque você é uma enorme, gigantesca e descomunal idiotaaa!!!”

Sem que me desse conta, acabei xingando ela quando na verdade deveria tentar dissuadi-la. Mas ao menos aquilo aliviou a minha tensão, desviando o foco do problema e fazendo o sangue correr pela cabeça me deixando extravasar um pouco e me possibilitando raciocinar.

“Pense bem! Se você cair agora e morrer, Eugeo vai continuar subindo essa maldita torre e irá enfrentar sua grande líder. Isso sim seria uma grande desonra, não concorda?

Se entende isso, aja como um verdadeiro Integrity Knight e se mantenha firme e viva para que possa se redimir. Agora, se não puder compreender essa simples lógica, é porque de fato é uma grande idiota!”

“Co-… C-Como se atreve a me insultar tantas vezes seguidas? Seu…seu…!!!”

Provavelmente desde que tinha se tornado uma Integrity Knight, nunca ninguém a tinha lhe chamado de idiota antes. As bochechas de Alice estavam completamente vermelhas com seus olhos ardendo em fúria. A reluzente espada que mantinha em sua mão esquerda se levantou um pouco enquanto meu suor se tornava frio imediatamente.

Tudo estaria perdido caso ela resolvesse me atacar… porém, sua razão parece ter superado sua emoção, pois colocou sua magnífica arma para baixo logo após o movimento.

“…Vejo… que tem certo sentido nessas suas palavras… entretanto…”

Os dentes dela rangiam enquanto relutava em continuar.

“…Me diga porque não soltou a mão? Se a razão não é por piedade, a qual preferiria morrer mil vezes, qual é o motivo…?”

Piedade, não era definitivamente o motivo. Antes de qualquer coisa, resgatá-la era precisamente a metade do objetivo pelo qual invadimos essa Catedral.

Com o tempo que nos restava não daria para nem começar a explicar tudo. Mas focando no objetivo de Eugeo, ele queria do fundo de seu coração ajudar sua amiga de infância que fora sequestrada a voltar a ser o que era, fazendo essa versão super poderosa cheia de rancor de Alice sumir.

Fiquei tentando achar um argumento válido para satisfazer a repentina pergunta da cavaleiro, enquanto meu cérebro quase fritava. Infelizmente não vinha nenhuma desculpa convincente para dar. Sem mais tempo e diante da situação, não me restava nada mais a fazer a não ser contar parte da verdade.

“Eu…, na verdade, Eugeo e eu estamos subindo a Catedral Central desesperadamente, pois queremos destruir a Igreja Axiom.”

Olhando para baixo, dentro dos olhos azuis de Alice, comecei a disparar uma saraivada de palavras.

“Porém, nós somos iguais de certa forma, pois também queremos proteger o Mundo Humano da invasão das criaturas do Dark Territory. Inclusive, nós dois lutamos com um grupo de goblins na borda da cordilheira uns dois anos atrás… mas… creio que mesmo dizendo isso, você não irá acreditar…

Bom, o fato é que por isso que não podemos deixar uma das pessoas mais fortes entre os Integrity Knight morrer. A sua força é essencial para o mundo e todos seus habitantes.”

Com toda a certeza a peguei desprevenida com essas palavras, tanto que ficou emudecida por um tempo com a testa franzida.

“Mas se isso é verdade, porque vocês apontaram suas espadas para outro ser humano e romperam com o tabu que proibia o derramamento de sangue?”

Um sentimento de extrema justiça queimava nos olhos de Alice, seja por sua própria essência original ou pela nova personalidade que a Alto Ministro tinha implantado. A garota pareceu crescer em tamanho e imponência enquanto seguia gritando.

“Porque vocês começaram uma guerra com Eldrie Synthesis Thirdy One e desde então vieram derrotando e incapacitando todos os demais cavaleiros sagrados?”

Infelizmente não me ocorria nada para refutar aquelas palavras. Embora o que tivesse falado sobre o sentimento de querer proteger aquele mundo fosse realmente meu real desejo, ainda assim, tinha algo de enganoso.

Se eu conseguir chegar no última andar da catedral e derrotar a soberana desse mundo, a Administrator, provavelmente a garotinha Cardinal recuperará toda sua autoridade. E como tinha me confidenciado anteriormente, no momento em que isso acontecer, irá retornar Underworld a seu estado inicial para prevenir o destino terrível que está por vir. E quanto a isso… até agora não tinha a menor ideia de como evitar.

Mas uma coisa era certa, se Alice e eu morrermos aqui, a tragédia que cairá sobre o mundo será algo indescritível.

E se tudo continuar como está, com Cardinal privada de seu poder, o experimento de carga, ou seja, a invasão do Dark Territory se iniciará e todos os Integrity Knight restantes, Eugeo e eu seremos arrastados para uma guerra sem precedentes.

Com um resultado desastroso como a derrota da própria Administrator e o massacre total dos seres humanos que serão pegos totalmente desprevenidos e indefesos no meio desse fogo cruzado.

Mas acima de tudo… caso morra aqui, não quero simplesmente despertar lá do outro lado, dentro do Soul Translator com o sentimento de fracasso por não conseguido salvar ninguém e sem nenhum arranhão, como aconteceu… daquela vez.

Entretanto, isso não será nem perto da angústia e sofrimento que irão se abater sobre as pessoas desse mundo. Eles irão presenciar horrores piores do que o próprio inferno.

E isso sim, não poderia deixar acontecer.

“…Eu…”

Me perguntei o que poderia compartilhar com Alice, uma guardiã ferrenha da igreja, para convencê-la com aquele tempo insignificante que nos restava. Se palavras por si só não adiantavam, tinha que apelar para a lógica ou a falta dela…

“Eugeo e eu atacamos Raios Antinous e Wanbell Zizek porque a Igreja Axiom e o Índice de Tabus são falhos. Não consegue entender que existem tantas situações que esse catálogo de regras tão superestimado não trata, proíbe e até mesmo acoberta? Favorecendo o criminoso e punindo as vítimas, como por exemplo, deixar que os nobres de alta classe façam o que quiserem, violando os corpos de garotas inocentes que jamais cometeram um crime sequer só por serem e classe social mais baixa, como foi o caso de Ronye e Tiezé… Você terá a coragem de me dizer que isso está certo? Que um ato covarde e hediondo desses é de todas as formas perdoável ao olhos dos grandes cavaleiros invocados dos céus!?”

A cena que presenciei há apenas dois dias atrás no dormitório dos espadachins, vendo as duas garotas, Tiezé e Ronye, amarradas sobre a cama daqueles dois monstros com os olhos cheios de lágrimas vieram como um clarão à minha mente, me sacudindo violentamente por dentro.

A ponta da espada cravada na parede soltou mais um rangido enquanto comecei a gritar sem dar importância ao que poderia acontecer.

“É isso que pensa? Me responda, senhorita Integrity Knight!!!”

Toda raiva que estava contendo durante a escalada começou a transbordar em forma de uma única gota de lágrima no canto de meu olho, caindo sobre o rosto de Alice logo abaixo.

A mulher cavaleiro ficou imediatamente sem ar enquanto me olhava com os olhos arregalados.

Em resposta, instantes depois, a voz que saiu de seus lábios trêmulos tinha perdido boa parte de sua rigidez inicial.

“…A lei… é a lei… e os criminosos são… criminosos. Como a ordem seria mantida se fosse permitido que as massas pudessem escolher arbitrariamente o que é e o que não é certo? A lei deve ser seguida a risca e…”

“É exatamente esse o ponto! Quem pode garantir que a pessoa que criou essas leis, a Alto Ministro, a Administrator agiu de forma justa e imparcial? Foi decisão dos deuses do Mundo Celestial por acaso? … Se o que estou dizendo for errado e esses deuses todos existem e essa sua chefe for realmente tudo o que diz ser, porque até agora eu não fui fritado por algum raio divino, me carbonizando até não restar nenhum vestígio de meus ossos? Porque me foi permitido enfrentar e derrotar todos os guerreiros sagrados até agora sem ter nenhum efeito colateral fatal?”

“O-Os deuses, os planos de Stacia não devem ser contestados, ela sabe o que faz e por acreditar fielmente em sua palavra que somos os seus assistentes!”

“Eugeo e eu subimos até aqui com um objetivo bem claro! Viemos derrotar a Administrator e provar para você e todos os demais que esse esquema é uma piada, um enorme erro. E é por isso que…”

Olhei para cima e confirmei que minha amada espada encravada na parede estava se tornando instável, estava chegado muito próximo ao seu limite. A ponta, nos próximos segundos, explodiria em fragmentos ao menor movimento de Alice ou meu, nos jogando ao sabor do vento em direção ao chão. Com isso em mente, continuei:

“…Eu não posso te deixar morrer aqui!”

Tomando uma grande porção de ar e reunindo toda força em meu abdômen, consegui usar o resto de energia que ainda me restava.

“Ooooh!”

Com todo meu espírito na mão esquerda, puxei Alice para cima, a deixando na mesma altura o que eu. Uma dor violenta como uma corrente elétrica atravessou todas as articulações de meu braço e ombro, mas de alguma maneira consegui trazer Alice para perto de mim e gritar:

“Sua vez! Crave a sua espada através daquele sulco da parede! Não conseguirei aguentar por mais tempo!!!”

Olhei fixamente o rosto apavorado de Alice há um palmo de distância do meu.

Depois de frações de segundos de silêncio que pareceram uma eternidade, a garota moveu seu braço esquerdo até a Fragrant Olive Sword e enterrou profundamente a ponta no espaço entre os blocos maciços da parede com um ruído poderoso.

A espada negra perdeu contato com a superfície praticamente ao mesmo tempo.

Na sequência, minha mão esquerda também se separou da de Alice e…

Estava livre, solto em pleno ar, com uma mescla de pânico e alívio enquanto meu corpo começava a descer para o vazio, para a longa viagem até o chão e a morte certa desse invólucro que guardava meu Fluctlight.

Dei-me conta de tudo isso em milésimos de segundo enquanto era projetado para baixo, seria desligado de tudo, nada mais poderia ser feito.

Porém, algo interrompeu a ação da gravidade, causando um choque repentino e me deixando sem ar. Era a mão direita de Alice que havia se movimentado como um relâmpago e agarrado firmemente a gola de meu uniforme.

Depois de perceber que tanto a espada quanto os braços de Alice estavam sustentando nossos pesos firmemente, meu coração que estava aos pulos foi lentamente retomando seus batimentos normais.

“…!”

Fiquei olhando em silêncio aquela pessoa que estava agora no papel que eu empenhava até a pouco tempo, nos sustentando e nos mantendo vivos com sua própria força.

Sua expressão, ao contrário de sua postura firme e resoluta, demonstrava uma tempestade de emoções conflitantes orbitando em seus olhos. A mulher cavaleiro franziu a testa enquanto apertava os dentes e a gola da minha camisa com sua força monstruosa, me causando um pouco de sufocamento.

Não conhecia ninguém em Underworld que fosse capaz de ponderar diante de uma situação tão perigosa quanto essa além de Eugeo. Todos os seres humanos desse mundo, os Fluctlight Artificiais, eram cegamente obedientes às leis e normas estabelecidas naquela sociedade, colocando tudo em preto e branco, não havia um meio termo em suas decisões, acreditando piamente de que as regras eram absolutas e justas. Sendo mais específico, embora eles não se dessem conta, mas todas suas ações estavam voltadas para o bem sim, porém era o bem de um único ser…

Se para as demais pessoas isso era um enorme grilhão que lhes prendia, para Alice era ainda pior, já que tinha a essência desse próprio ser escondida no interior de seu subconsciente desde o incidente que a fez se tornar um Integrity Knight.

Essa força de vontade suprema, faminta de sua humanidade, esse ser superior, uma monstruosa energia que monitorava e forçava todas suas ações, alterando até mesmo sua personalidade e se tornando parte de sua alma fragmentada, a Alto Ministro, a Administrator.

Não conseguia supor que tipos de conflitos estavam acontecendo na mente de Alice. Porém, depois de vários segundos, meu corpo foi puxado facilmente para cima, alcançando a altura que estava antes da breve queda.

Um movimento estranho para alguém tão resoluto em suas crenças, mas decidi não contestar.

Então, rapidamente enfiei novamente minha espada por entre o vão da parede, rezando para ela não se partir de vez. A minha crença estava no fato de que agora estaria sustentando apenas um garoto magro, sua vida não seria drenada tão velozmente quanto antes.

Após perceber que minha amiga negra não estava mais rangendo, soltei um longo suspiro.

No momento em que minha tensão diminuiu, Alice recolheu sua mão direita para trás, virou seu rosto para o outro lado, evitando assim o contato visual e disse baixinho:

“…E-Eu não estou lhe ajudando, fiz isso só para devolver o favor… além do que, ainda tenho que comprovar suas palavras através da espada, por isso não posso permitir que ela se quebre…”

“Está certo… estamos quites então…”

Agora era o momento de ter cuidado com minhas palavras.

“Então… tenho uma pequena proposta a lhe fazer…

Pelo visto o único jeito de sair dessa é escalarmos esse paredão até o último andar, que tal uma trégua até conseguirmos sair daqui?”

“Uma trégua…!?”

Pude sentir um olhar extremamente desconfiado sobre mim.

“Sim. Sozinhos e nessa posição não conseguiremos arrebentar a parede novamente e muito menos subir isso. Porém, nossas chances mudam se trabalharmos juntos ao invés de nos matarmos agora. Mas a coisa mudaria de figura se você tiver aí um outro meio de regressar…”

“…”

Alice mordeu os lábios, visivelmente contrariada, mas acabou respondendo com um ar zangado.

“…Se eu tivesse um modo de voltar já teria usado e te deixado para trás.”

“Então… você aceita a trégua e cooperação?”

“Antes de responder, a que tipo de cooperação você está se referindo?”

“Apenas para o auxílio de evitar que um de nós caia, proponho nos ajudarmos nesse sentido, eu cuido de você e você de mim. Ajudaria muito se tivéssemos uma corda também, mas acho que não é o caso…”

Novamente desviando o olhar de mim, ficou em silêncio por um tempo e respondeu logo em seguida me dando um olhar muito assustador.

“Está certo, é uma proposta aceitável… tenho que admitir, porém…”

Rangeu os dentes enquanto prosseguia falando.

“…Vou cortar você sem piedade no momento em que pisarmos dentro da torre, não se esqueça disso!”

“…Certo, certo, não esquecerei.”

Assentindo com a cabeça para minha resposta, Alice limpou a garganta como se fizesse o mesmo com seus pensamentos e disse:

“Bom, então… você disse que queria uma corda, não é? Me diga, você não está levando consigo nenhum pano que seja desnecessário?”

“Pan…!”

Olhei para meu corpo enquanto repetia, porém não tinha nada comigo que pudesse servir. Se estivesse em Alfheim, abriria meu inventário e pegaria um monte de tecidos que acabei juntando durante todo o tempo de jogo, porém, essa funcionalidade não foi replicada aqui em Underworld, acho que era pedir demais.

“…Não tenho nada além de minha camisa e calças, mas se servir, posso tirá-las para…”

Enquanto dizia isso encolhendo os ombros, Alice me olhava com uma mescla de raiva e espanto.

“F-Fique com suas roupas!!! Que maluquice está dizendo!? Pelos deuses!! O que você tem na cabeça? Como acha que eu lutaria com alguém nu? Quer envergonhar ainda mais os guerreiros sagrados? Jamais me rebaixaria atacando um inimigo sem uma roupa apropriada, como vestes simples ou até mesmo… sem elas…”

“Ora, ora, mas você não se importou nenhum pouco em enfiar a mão na cara do Eugeo lá na academia. Estávamos totalmente desarmados e com roupas comuns…”

“A situação foi completamente diferente. Além do mais, que tipo de preparo vocês fizeram? Já que entraram no arsenal da torre, poderiam ao menos prever que iriam precisar de alguma corda ou mesmo de uma armadura decente, algo que fosse melhor do que esses uniformes com pouco poder defensivo e… ah! Quer saber? Esqueça! É perda de tempo ficar falando com você…”

Alice sacudiu a cabeça enquanto bufava e depois levantou seu braço direito, completamente protegido por uma luva dourada. Pareceu querer tirá-la, mas logo percebeu que não conseguiria fazer isso pois sua mão esquerda estava segurando a empunhadura da espada cravada na parede.

Então aproximou a mão de Kirito e ordenou rispidamente:

“Faça algo útil, retire a minha luva com sua mão livre!”

“O que?”

“E nem pense em tocar na minha pele! Vamos rápido com isso!”

“…!”

Segundo as lembranças de Eugeo, Alice deveria ser uma garota muito alegre, cheia de energia, porém, muito gentil com todos. Se isso realmente era verdade, onde essa personalidade estava agora? Pois essa Alice que estava aqui era irritantemente o oposto.

Enquanto pensava nisso, levei minha mão esquerda e retirei sua luva. Alice, imediatamente moveu a mão direita, fazendo vários sinais ultrarrápidos com aqueles pálidos dedos falando em voz alta:

System call!!

Seguindo a frase inicial de todas as artes sagradas, recitou como uma máquina super acelerada diversos comandos.

Nesse instante, a luva em minha mão começou a brilhar enquanto sua forma se modificava. E em questão de segundos, estava segurando uma magnífica corrente de ouro polido.

“Uau!…Transmutação…?”

“Não conseguiu entender o que eu disse? Ou talvez essas coisas ao lado de seu rosto servem apenas para se encherem de cera? Isso foi muito mais do que uma simples transmutação, ela também alterou as propriedades do material, algo que não pode ser feita por qualquer pessoa e foi a própria alto Ministro quem criou.”

Pensei em me desculpar, mas aparentemente isso não ajudaria muito. Alice, ao que tudo indicava, não iria conter sua língua afiada mesmo durante nossa trégua não importando o quanto eu me esforçasse para ser gentil.

Dei um suspiro e testei a resistência daquela corrente com os dentes. Surpreendi-me realmente, poderia até fazer um elogio, mas não consegui, pois meus dentes quase tinham caído de minha mandíbula. Não havia dúvidas de que aquilo era mais do que suficiente para aguentar o peso de nós dois apesar de sua aparência frágil, sendo mais fina do que meu dedinho mínimo.

Amarrei-a firmemente em volta da cintura e ofereci a outra ponta para Alice que a arrancou de minha mão e a conectou em sua cintura, ao lado da bainha de sua espada.

O comprimento da corrente era de aproximadamente cinco metros. E pela primeira vez desde a grande queda, estávamos mais seguros, inclusive se um de nós escorregasse da parede.

“Muito bem, agora…”

Fiz uma nova avaliação de nossa situação.

A julgar pela direção do sol, estávamos na parede ocidental da Catedral Central, ou seja, voltados para o oeste. O céu apresentava uma mescla de azul com violeta, com o sol brilhante alaranjado aparecendo por trás da grande parede branca. Chutei que eram aproximadamente três da tarde.

Vacilante, olhei para baixo. Sob meus pés era possível ver um chão feito de nuvens e por entre elas, uma miniatura ínfima que reconheci como sendo o jardim de rosas e junto a ele, os muros de pedras brancas que dividiam a capital Centoria em quatro, os enormes e tão falados ‘Muros Imortais’. Porém, tudo não passava de pequenas linhas e marcações da minha perspectiva, o que me dava a real ciência do quão alto estava no momento.

Cada andar da torre, em media, tinha mais ou menos seis metros de altura, fora a espessura das paredes que serviam de divisão. Então, o andar onde lutei com a Alice estava a uma estarrecedora altura relativa de quatrocentos e oitenta metros, adicionando o incrível tamanho do salão do quinquagésimo andar, o Grand Cloister of Spiritual Light, tínhamos aí uns quinhentos metros…

Com toda a certeza, nossas vidas zerariam instantaneamente no caso de uma queda, não sobrando nenhum vestígio dos corpos.

O vento estava calmo, mas não sabia até quando isso iria durar.

Pensando assim, um calafrio percorreu a espinha enquanto trocava a mão do agarre da espada para secar o suor da outra em minhas calças.

“Humm… só para confirmar…”

Alice, que disfarçadamente olhava para baixo, fixou sua atenção em mim quando comecei a falar. Podia ser impressão minha, mas sua expressão assim como sua pele estava mais pálida do que antes, porém, ela seguia com sua atitude intransigente.

“O que foi agora?”

“Não, é que… bem, pensei que talvez uma grande guerreira como você, capaz de usar artes sagradas tão avançadas como a troca de propriedade e forma dos objetos, pudesse saber alguma arte para voar…”

Joguei uma isca para ver se ela iria dar alguma brecha para uma conversa mais produtiva, porém, novamente ela me repreendeu como um garotinho que tivesse acabado de fazer algo errado.

“Por acaso não prestou atenção às aulas da academia? Até o aprendiz mais novato sabe que a única pessoa que consegue voar no Mundo Humano é a estimada Alto Ministro!!”

“Certo, certo! Por isso disse que era apenas para confirmar, não precisa se exaltar todas as vezes em que eu perguntar algo! Relaxe um pouco, não estamos disputando nada no momento.”

“Como você quer que eu não fique irritada? Você só faz perguntas idiotas.”

Pouco a pouco ficava mais claro que a personalidade da Integrity Knight Alice não era nada compatível comigo. Tínhamos uma péssima afinidade, mesmo nos menores e mais irrelevantes pontos de vista. Mas eu tinha uma missão e um objetivo, portanto, iria continuar com as perguntas.

“…Então, mais uma vez estou apenas comprovando… por acaso seria possível chamar o seu dragão voador até aqui?”

“…Argh!! Suas sugestões estão cada vez piores! A aproximação de qualquer dragão necessita de uma plataforma para que eles possam aterrissar e algo assim só existe no trigésimo andar. Não se pode embarcar em um dragão que não seja por lá, nem sequer o senhor… digo, nem sequer o Knight Commander.”

“Como disse, foi APENAS uma pergunta!!! Como você acha que eu poderia saber disso…!?”

“Pelo simples fato de já ter passado pelo trigésimo andar e visto a plataforma que existe lá!”

Já estava ficando chato isso. Não sabia quantas vezes, mas sempre acabávamos discutindo e no final de cada frase imperava um silêncio constrangedor enquanto nos encarávamos com as feições irritadas. Após três segundos nessa situação, engoli minha raiva mais uma vez e tratei de pensar com clareza. Tinha que juntar o máximo de informações para construir um plano de fuga e para isso, precisava da cooperação da Integrity Knight mais irritante que o mundo criou. Era um saco, mas tinha que fazê-la continuar falando.

“…Bem, então com isso, escapar daqui voando está fora de cogitação…”

Alice, parecia ter usado esse tempo para se acalmar também, pois quando disse isso, ela fechou lentamente seus grandes olhos azuis e assentiu levemente com a cabeça.

“Nem os pássaros chegam perto dos pisos superiores da catedral. Não sei bem os detalhes, mas ouvi que é devida uma arte lançada pela própria Alto Ministro.”

“Hum… ela é realmente meticulosa.”

Examinei novamente, realmente havia pássaros, porém, estavam muito longe e não pareciam estar dispostos a se aproximarem.

Possivelmente o que estava agindo ali era a própria encarnação da capacidade transcendental e desconfiança absoluta de quem é a mais influente do mundo, a Administrator.

Seguindo essa linha de pensamento, a altura anormal da torre, também parecia ser um símbolo de sua autoridade superior. Algo feito para incutir temor a todos seus inimigos invisíveis.

“Nesse caso, restou apenas três opções… descer, subir ou nos juntar e arrebentar a parede novamente, então…”

“A terceira provavelmente será a menos provável e mais difícil. Igual aos Muros Imortais, as paredes exteriores da catedral são dotadas de vida praticamente infinita e com a capacidade nata de regeneração acelerada. O mesmo se aplica aos vidros das janelas dos andares inferiores.”

“Então, isso também inclui as janelas é…?”

Quando murmurei isso, Alice assentiu novamente com a cabeça e falou:

“…Em primeiro lugar, devo dizer que estou surpresa por termos conseguido abrir um rombo naquela parede… não consigo imaginar que tipo de poder anormal foi liberado de nossos instrumentos quando suas artes de controle totais foram combinadas. Pelos deuses… aquilo foi algo… inacreditável, não deveria ter acontecido.”

“…!”

Entraríamos em uma discussão acalorada caso respondesse em meu tom normal essa pergunta, então, tinha que escolher bem as palavras.

“…Mesmo sendo inacreditável, não concorda que é possível sim replicar aquele fenômeno?”

“Como confirmamos, a probabilidade de acontecer algo assim existe, mas… seria muito difícil termos tempo para passar pelo buraco antes que ele se feche, na nossa atual situação. Sem contar que tem mais um fator que devemos levar em conta… para utilizar a arte de controle total da Fragrant Olive Sword duas vezes é necessário que ela fique recebendo diretamente a luz do sol enquanto está embainhada, como estava fazendo na hora em que me encontraram.”

“Basicamente isso também vale para a minha. Tenho que devolvê-la a sua bainha e deixá-la se recuperar… Infelizmente, com uma só mão não poderemos fazer isso. Nesse caso, só nos resta mesmo subir ou descer.”

Tentei ainda dar pequenos socos na lateral da parede para sentir sua durabilidade e como Alice disse, o esforço foi completamente inútil. Os enormes blocos, de aproximadamente 2×2 metros, totalmente polidos, não apresentavam um arranhão sequer. Quebrá-los, aparentemente seria impossível, igualmente ao os vidros das janelas, mesmo se houvesse uma nesse lado da parede.

Quanto ao método para conseguirmos no mover pelo paredão, provavelmente não havia nenhum outro além de imitar uma cobra píton, serpenteando em meio aos vãos entre as pedras, cravando as espadas por entre as junções do mármore.

Não havia grandes diferenças no esforço para subir ou descer, porém, preferiria seguir para cima, pois esse era meu principal objetivo. Só tinha um problema…

Fiquei olhando Alice em minha esquerda, com a expressão mais séria que conseguia reunir naquele momento para evitar que ela desse uma reposta mal criada novamente.

“Se nós formos para cima… existe algum lugar por onde consigamos entrar na torre?”

Alice não respondeu de imediato, ficou com uma expressão incerta enquanto mordia os lábios.

Provavelmente estava ponderando a ideia, pois se ela subisse e voltasse de algum modo para dentro da torre, estaria levando consigo um inimigo declarado para perto de onde mora a Administrator. E guiar um criminoso da igreja dessa forma, certamente era igual a cometer um grande tabu, algo imperdoável para um Integrity Knight, um guardião.

Porém…

Alice respirou fundo me encarou e concordou com a cabeça.

“Há! Fica no nonagésimo quinto andar, um lugar chamado de Morning Star Lookout. Totalmente aberto, com somente quatro pilares sustentando tudo. Devemos ser capazes de entrar facilmente por ali, só tem uma coisa…”

Um brilho estranho surgiu em seus grandes olhos azuis.

“Como disse antes, assim que chegarmos lá, irei partir para cima de você com tudo que tenho e acabar com sua vida no primeiro instante, não se esqueça disso.”

Respondi o olhar da Integrity Knight com toda determinação que tinha e assenti com a cabeça.

“Esse é o nosso acordo desde o princípio, não se preocupe, estou ciente… Mas então? Vamos começar?”

“…Compreendo. E realmente, continuar a subir é muito mais sensato do que descer. Mas mesmo dizendo isso… qual a sua ideia para que possamos escalar esse paredão?”

“Hum… pensei em corrermos pela parede, já fiz isso uma vez e…

Ei! Ei! Calma…! Foi só uma brincadeira…!”

Depois de receber toda a intenção assassina do olhar de Alice, limpei a garganta, troquei a mão na empunhadura da espada e comecei a recitar…

System Call! Generate metallic element!!

Um elemento metálico, brilhante como mercúrio foi criado instantaneamente. Aproveitei para alterar sua forma com a força de meus pensamentos e…

Puxando o novo item que havia gerado diante de meus olhos, a aproximadamente cinco centímetros, mostrei para minha companheira de escalada um gancho improvisado.

Olhei para cima, visando os espaços entre as rochas onde estava cravada a lâmina de minha espada, e lancei minha mão direita com toda a força que tinha.

“Hmmm!”

Por sorte, boa parte da ponta daquele gancho conseguiu penetrar no vão sem escapar. Forcei essa garra improvisada para baixo e para cima, para me assegurar que não iria sair, felizmente, a mesma continuou fixada e aguentando o peso de meu corpo sem se mover.

A vida dos objetos criados através das artes sagradas eram incrivelmente baixas, os fazendo desaparecem em mais ou menos uma hora, inclusive se não forem manipulados. Diferente da corrente dourada que me prendia com Alice, que fora construída usando como base outro objeto. Essa tinha uma durabilidade muito superior ao meu gancho.

Enquanto ainda sentia o olhar desconfiado de Alice sobre mim, agarrei firmemente o gancho com a mão direita e retirei a espada negra da parede com a esquerda.

Imediatamente a guardei em sua bainha para recuperá-la e subi mais ou menos uns quarenta centímetros, usando agora as duas mãos.

Mesmo que minha capacidade física aqui em Underworld não tenha chegado nem aos pés da de quando estava em SAO, ao qual me transformaria em praticamente um ninja de filmes B, todavia ainda era muito ágil e forte, apesar de não ser musculoso, do que meu verdadeiro corpo no mundo real.

Então, coloquei meu pé no sulco horizontal do vão da parede deslizei minha mão esquerda para cima enquanto levantava em um só movimento, com a sustentação do gancho e saltei para cima dele.

Depois disso, olhei para baixo e disse:

“Que tal dessa forma…?”

Vi Alice segurando firmemente a corrente dourada com o rosto pálido.

Sua expressão demonstrava resquícios de uma surpresa quase infantil. Algo que por pouco não me fez mudar o pensamento sobre ela.

“…Está bom… eu acho.”

Então, novamente estendi a mão direita, recitei o mesmo comando e gerei outro gancho. Refiz meus movimentos, cravando a garra temporária um nível acima e me elevando mais alguns centímetros.

Enquanto saboreava uma pequena sensação de sucesso, chamei Alice.

“Pelo visto, esse método funciona. Faça igual, lance o gancho na parede, fixe-o bem e se impulsione para cima dele, utilize-o como uma barra de sustentação e…”

Estranhamente a Integrity Knight permanecia imóvel e em silêncio enquanto me olhava. Seus lábios fizeram um pequeno movimento e pouco depois uma voz fraca alcançou meus ouvidos.

“…Eu não consi…”

“Hã!?… O que disse?”

“…Eu disse que… eu não consigo!!!”

“Não… você consegue sim. Com essa força e domínio das artes absurdos que tem, o gancho vai ser superior ao meu e sustentar tranquilamente o peso de sua armadura… subir será muito fácil…”

“N-Não foi isso que eu quis dizer!”

Alice sacudiu energicamente a cabeça de um lado para o outro.

“…E-Eu nunca estive em uma situação dessas… É vergonhoso dizer isso, ma-mas n-não s-sei como proceder. Como garantir a segurança apostando o sustento de um corpo em um único ponto como esse?… É impossível!”

Fui pego completamente desprevenido por aquela voz inesperadamente frágil que saía de Alice. A impressão é que era uma outra pessoa.

Em geral, as pessoas de Underworld não conseguiam reagir de modo natural frente à situações muito além de suas expectativas. Em termos de programação, era um grande bug.

Suas capacidades de adaptação às circunstâncias ‘impossíveis’ eram extremamente baixas, geralmente eles entravam em um loop de erros, exatamente como aconteceu com o aprendiz de espadachim de elite, Raios, que em um caso extremo como ter os próprios braços cortados pela minha espada, acabou tendo seu Fluctlight completamente destruído juntamente com sua vida, por não saber como proceder.

Suponho então, que nem mesmo um Integrity Knight seja capaz de fazer frente à situações como essa. Talvez nunca tenha passado por suas cabeças em como reagirem se forem jogados aos céus através de um imenso rombo na parede que, tecnicamente, deveria ser indestrutível, tendo que depender de um único ponto de apoio que sustentará sua vida, algo que era bem diferente voar em um dragão e ainda por cima colaborando com um inimigo para se manter vivo.

Ou então… simplesmente que Alice Synthesis Thirty, dotada de uma habilidade quase divina com a espada, seja lá no fundo… apenas uma garotinha.

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Fosse o que fosse, ouvir essa inesperada súplica da Integrity Knight por ajuda, provavelmente se limitaria única e exclusivamente a uma situação como essa. Considerando isso, gritei:

“Nada é impossível! Segure-se bem, vou usar esse apoio e te puxar para cima, tudo bem!?”

Alice mordendo mais ainda seus lábios, com um olhar como se tivesse em luta entre seu orgulho e medo, não fez nenhuma menção em me impedir, apenas se agarrou na corrente enquanto dizia baixinho.

“…C-Conto com você, estou em… suas mãos.”

Me segurando o máximo que podia para não aproveitar essa chance e jogar todos os desaforos que ela já tinha me feito em sua cara, apertei os dentes enquanto usava todas as forças para puxar a corrente.

“Certo! Vou te levantar devagar, aguente firme!”

Enrolei parte da corrente em mim com cuidado. Meu ponto de apoio, o gancho, rangeu levemente, porém, pareceu que podia suportar o peso por um curto período.

Tentando não fazer movimentos bruscos para não sobrecarregar mais ainda o objeto que sustentava nossas vidas, comecei a içar a mulher dourada.

“…Muito bem, já pode retirar a espada agora!”

Alice assentiu e sem esforço algum, retirou a Fragrant Olive Sword da parede. A corrente tencionou, porém, manteve-se firme.

Ao confirmar que ela tinha embainhado sua espada, continuei puxando-a para cima.

Então, em determinada altura, gritei:

“Use suas mãos para ir se agarrando na parede!… Isso mesmo… quando estiver pronta, largarei a corrente.”

Não conseguia ver sua expressão daquele ângulo, mas Alice, que tateava desesperadamente procurando se segurar nos sulcos entre a rocha polida, negava com a cabeça.

Enquanto ficava imaginando seu rosto como estava, a posicionava sobre o primeiro gancho, a baixando suavemente.

A Integrity Knight tremeu um pouco quando aterrissou no apoio, mas em seguida recuperou o equilíbrio.

“Isso… muito bem.”

Deixei escapar um grande suspiro.

Não fazia nem ideia de quantos metros estávamos longe desse tal lugar, o Morning Star Lookout, que ela falou que ficava no nonagésimo andar, mas enfim, não tínhamos outra escapatória a não ser continuar com aquele processo um sem número de vezes.

O problema maior seria se a noite chegasse e nos pegasse naquela situação, demoramos muito tempo para subir não mais do que um bloco, tínhamos que nos preparar psicologicamente para enfrentar uma terrível noite em escalada.

“Tudo certo? Vamos subir mais um.”

Depois que disse isso, Alice ergueu seu rosto com uma expressão tensa e respondeu com um sussurro que quase foi levado com o vento.

“…Tenha cuidado, por favor!”

“Eu terei, eu terei.”

Fiz um gesto com o polegar para cima, porém esse gesto nada significava aqui em Underworld. Então, mais uma vez recitei os comandos para criar o terceiro gancho.

Mesmo que Centoria estivesse no meio do verão, o sol sem piedade começou a se mover, se escondendo mais e mais na parede.

A grande superfície branca misturada com o laranja foi aos poucos se tornando um vermelho, passando por um violeta, antes de se tornar um azul escuro. Nesse estágio pude ver ainda parte da cordilheira, fazendo uma grande linha horizontal bem longe no oeste.

Uma imensidão de estrelas já surgiam no céu, piscando para nós. E apesar da impressão de que o tempo tinha passado muito rápido, nosso progresso era totalmente o contrário. Diante disso, um limite em nosso sistema de escalada começou a me atormentar.

Todo o processo de subida era basicamente bem simples. Criar um único gancho com as artes sagradas, posicionando entre os vãos dos blocos de mármore e subindo sobre ele.

Segundo passo era puxar Alice, colocando-a sobre o gancho criado anteriormente. Isso era tudo, porém…

Todos esses movimentos demoravam em torno de três minutos, mesmo melhorando nossa marca após serem repetidos mais ou menos dez vezes.

Era bem fácil em termos gerais, o problema todo e o que começou a ficar mais aparente, era justamente a criação dos ganchos.

Nesse mundo, não existe um parâmetro equivalente aos ‘pontos de mana’, como por exemplo, exista em ALO. Qualquer tipo de magia, chamadas aqui de artes sagradas, podia ser utilizada ininterruptamente sempre e quando o acesso ao sistema pelo usuário fosse autorizado.

Entretanto, isso não significava que era algo que fosse possível realizar infinitamente. A regra em Underworld era sensivelmente diferente dos demais mundos. Todo ato de criação e manipulação de artes sagradas, consumiam determinados recursos, catalizadores preciosos, tanto advindo das vidas de seres vivos, humanos inclusive, ou de ‘recursos especiais’ que se armazenavam no ambiente ao redor de cada um.

Esses recursos especiais não tinham um valor numérico, o que deixava um assunto realmente problemático a se tratar. Basicamente vinham da luz do sol ou da fertilidade do solo.

Um lugar com a terra fértil e rico em luz solar, era incrivelmente rico em fontes de energia para as artes sagradas, possibilitando inclusive, moldar contínuos feitiços avançados sem a necessidade de se preocupar com o esgotamento, porém, por outro lado, se isso fosse realizado em local onde não recebesse a luz solar constantemente, como o interior dos edifícios de pedra, que requer um grande período para carregar seu ambiente, os recursos seriam drenados rapidamente, impossibilitando o uso de magias por longos períodos.

A regra se aplicava também para Alice e seu armamento e não obstante… para mim também.

A nossa situação atual, estando mais ou menos há quinhentos metros do solo, com o sol desaparecendo no horizonte eram as piores possíveis.

Resumindo, os recursos em nossa volta iriam se esgotar rapidamente, o que me faria ficar impossibilitado de criar novos ganchos, indispensáveis para a subida.

 

 

 

 

 

 

E A CRISE CHEGOU ATÉ PARA O PESSOAL DE UNDERWORLD.

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