Sword Art Online Alicization Rising em Português – Underworld – Capítulo 7 – Parte 1.4

Arco: Alicization – Rising

Parte 1

Sword Art Online Alicization - Cardinal e Kirito - Vol.12 - Rising
Então isso é ser humano…?

“Sim, essa foi a maior das artimanhas que ela já pôs em prática. Dentre os trinta Integrity Knight, a metade eram aqueles que foram presos por cometerem algum tipo de tabu, enquanto que a outra metade, eram os campeões do principal e maior torneio de espadachins.

Como você mesmo percebeu, aquele guerreiro com quem lutaram, fazia parte desse segundo grupo, dos campeões que foram enganados.”

“Entendi… então é assim que isso funciona…”

Respirei fundo enquanto digeria essas informações.

Com tudo isso, até fiquei contente e aliviado que tanto a senhorita Sortiliena quanto o senhor Gorgolosso, aos quais Eugeo e eu servimos, acabaram perdendo nas preliminares do torneio desse ano.

Se a minha senpai tivesse ganho a luta contra Eldrie, provavelmente seria ela que teria me enfrentado naquele jardim de rosas com suas memória completamente alteradas.

E isso não era tudo, se o incidente com Raios e Eugeo não tivesse ocorrido e o nosso plano tivesse sido um sucesso… ou talvez se não tivéssemos escapado da prisão e fôssemos realmente parar na sala de interrogatório… independente se fosse um Fluctlight natural ou artificial, tinha uma grande chance de que nos tornássemos os próximos Integrity Knight.

É como diz um certo ditado popular: ‘Há males que vem para o bem’.

Cardinal continuou com uma voz suave enquanto me arrepiava com essas possibilidades.

“Além disso, nesses duzentos e tantos anos, a Administrator foi solidificando cada vez mais as suas defesas enquanto minhas esperanças caiam uma a uma por terra, por mais que eu não queira admitir, mas estou em uma posição desesperadora…”

Aqueles grandes olhos castanhos focalizaram o teto da Grande Sala da Biblioteca. E ficaram observando por alguns segundos sem piscar.

“… Tudo que vi através dos olhos dos meus observadores era realmente maravilhoso, em especial os raios de luz. Haviam crianças se divertindo descontraidamente pelas planícies cheia de grama, garotas suspirando por seus amores, mães sorrindo afetuosamente para os bebês que carregavam em seus braços.

Se nada tivesse acontecido a dona desse corpo, essa pequena filha de artesões de móveis, provavelmente estaria experimentando todas essas coisas. Seria capaz de viver uma vida normal e pacata, ignorando todas as armadilhas desse mundo, tendo uma vida plena até que suas forças acabassem por volta dos setenta anos…”

Podia ser um produto de minha imaginação? Pois por uma fração de segundos acho que vi Cardinal estremecendo enquanto dizia essas palavras.

“Ao ver tantas coisas assim, comecei a ficar incomodada com o princípio gravado no núcleo de minha alma sobre o assunto de correção dos erros do processo principal. Decidi então seguir o caminho natural das coisas, aceitar o fato de que já estava velha demais para qualquer outra tarefa, me sentia como uma velha árvore que havia perdido todo o esplendor e que agora, só esperava uma oportunidade para tombar no chão. Estava tão convicta disso que até minha voz mudou para um estado de velhice avançada. Vivi dias e mais dias perdida em pensamentos por entre os humanos através dos olhos e ouvidos dos familiares que espalhei pelo mundo.

Ficava pensando por que os deuses do mundo exterior deixaram que a tirania da Administrator se alastrasse por todos os cantos sem nenhum freio.

Não me refiro aos deuses da criação Stacia, do sol, Solus e da terra, Terraria, que foram todos fabricados pela Igreja Axiom para ajudar a dar veracidade nas suas ações e servir como base para seu reinado totalitário e sim ao verdadeiro deus desse lugar, RATH, o nome que constava na lista com todos os system commands.

RATH era um nome coletivo de vários deuses… e o Cardinal original foi o falso avatar criado por eles, sem uma alma, com sua existência agora dividida e gravada na Administrator e em mim.

Quanto mais aprendia sobre esse mundo, mais perguntas e dúvidas eu tinha, era um clico sem fim.”

“Espere um segundo, Cardinal…”

Antes que começasse a me perder em meio a tanta informação, interrompi.

“Então… já que falou disso, sobre esse mundo ser uma simulação criada pelo RATH e sobre o Cardinal original sendo um programa com dois processos… tudo isso você descobriu através de suas próprias constatações?”

“Sim, com o que está surpreso? Qualquer um pode chegar a essa conclusão se tiver duzentos anos de estudo da base de dados do Cardinal System.”

“Base de dados… entendo, então é por isso que seu modo de falar é tão distinto dos demais habitantes de Underworld.”

“Isso é natural, dada à perspectiva em que me encontro. E creio piamente que essa também seja uma das grandes diferenças que influenciou o meu modo de ser e agir.

Mas então, vejamos a razão do porquê Underword ser um mundo demasiadamente imperfeito, apesar de suas raízes estarem completamente no criacionismo, como disse antes, e como ele está profundamente ligado a esse reinado tão não natural da Administrator…

Depois de muito pensar, cheguei a uma única possível razão. O verdadeiro deus RATH, não deseja que os humanos vivam uma vida feliz, muito pelo contrário…

Esse mundo existe somente para que eles testem os limites da resistência dos habitantes enquanto eles lentamente vão ‘apertando suas coleiras’.

Não faça essa cara de espanto, pois caso não saiba, houve um grande aumento de morte dos humanos nesses últimos anos, parecem que estão sucumbindo à ondas de doenças que antes não existiam ou morrendo por ataques de animais e outros monstros ou a total escassez das colheitas nos povoados mais isolados. Tudo isso se deve à um fenômeno incrementado pelo Load Parameter, ou parâmetro de carga, um marcador que nem a Administrator pode alterar.”

Load… Parameter? Você disse algo parecido com isso no começo de nossa conversa. Isso é algum tipo de experimento?”

“Exatamente e se incrementa dias após dias, mas… de acordo com que está gravado no banco de dados, a verdadeira prova só se fará presente no final do experimento e ao que tudo indica, não será nem perto de uma simples epidemia…”

“O que vai acontecer… exatamente?”

“Esse ‘ovo’ conhecido como Mundo Humano, terá sua casca quebrada. E você já deve imaginar o que acontecerá não é? Me refiro ao que há além desse lugar onde os humanos vivem.”

“O… Dark Territory…?”

“Precisamente. Esse mundo de escuridão é uma espécie de dispositivo construído para causar a derrocada total da população.

Eu disse isso antes, esses monstros que todos já ouviram falar, orcs, goblins e outras existências possuidoras das mesmas fluctlight dos humanos deformadas e influenciadas com instruções de condutas voltada apenas para o assassinato, saques, tortura e massacre.

Eles estão organizados de maneira hierárquica, onde a força que determina a superioridade. Tudo isso gerou um poderoso e implacável exército primitivo. Embora sua população seja por volta da metade da população humana, sua capacidade bélica individual está muito acima de uma pessoa normal.

Essa horrível perspectiva está apenas aguardando a oportunidade para invadir o Mundo Humano e cometer todas as piores e mais atrozes ações com as quais até me faltam palavras para descrever. Para essas criaturas, os humanos são piores que animais, tanto que criaram até uma palavra para nos referenciar, uma simples palavra, mas que carrega um ódio e aversão explícita, iums, é assim que os chamam. E infelizmente, essa história irá se desenrolar muito em breve…”

“Um exército…”

Esse era uma previsão terrível. Senti calafrios percorrerem a minha espinha.

Não seria exagero dizer que aquele líder goblin que enfrentei em uma luta até a morte na caverna nas montanhas no limite do Mundo Humano dois anos atrás, era um guerreiro incrível e feroz.

Simplesmente pensar em um exército de dezenas de milhares de lutadores como ele, fez meu sangue congelar. Neguei instintivamente com a cabeça enquanto dizia com uma voz rouca.

“O Mundo Humano tem muitos cavaleiros e guardiões também… mas não vou me iludir, se eu, que não passo de um pirralho, consigo lutar com muitos deles sem problemas… eles não teriam a menor chance com esse modo de movimentar a espada focado na estética contra um exército terrível desses.”

Cardinal respondeu imediatamente concordando com a cabeça.

“Obviamente… Os planos de RATH haviam previsto que esse momento chegaria, fizeram preparativos para quando essa situação se apresentasse. Esperavam que quando fosse a hora, aqui também teria um poderoso exército para poder fazer frente as hordas do Dark Territory.

Estava tudo acertado, os habitantes iriam gradativamente aumentando seus níveis de autoridade nas artes sagradas enquanto enfrentavam as invasões esporádicas dos goblins pela cordilheira, ao mesmo tempo em que iam aprimorando suas táticas de guerra em combates.

Porém… como você mesmo sabe, isso está longe da situação atual. Os espadachins nunca experimentaram um combate verdadeiro, perseguindo nada mais do que o atrativo estético de seus estilos liderados por seus comandantes, todos nobres de alta classe, resumidos a um bando de arrogantes com o ego maior do que eles próprios.

Tudo graças à intervenção da Administrator e seus Integrity Knight.”

“Como assim?”

“Não há dúvidas de que os Integrity Knight, com autoridades extremamente altas e equipamentos com o nível de Instrumentos Sagrados, são poderosos. O suficiente para eliminar qualquer ameaça do porte dos goblins sem nenhum problema, porém, graças a esse tipo de prática, os habitantes, gente comum, que deveria originalmente enfrentar essas criaturas, passaram por centenas de anos sem nunca experimentar uma batalha real. As massas não sabem nada sobre a ameaça que os rodeia, vivendo imersos nessa coisa densa e estática que a Administrator chama de paz…”

“E ela sabe que a fase final desse experimento de carga está próxima?”

“Com certeza sabe. Apesar disso, ela subestima o exército da escuridão, crendo que somente seus trinta cavaleiros e ela são o suficiente para vencer essa grande guerra.

Sua crença é tão cega que ela chegou a massacrar sem dó, um importante recurso bélico, os Dragões Guardiões, no norte, sul, leste e oeste, sob o pretexto de eles eram poderosos demais para obedecê-la.

Essa informação provavelmente entristeceria muito seu amigo. Aquele dragão banco, um encantador protagonista de lendas, foi assassinado por Bercouli após ter sido remodelado e assumido como um Integrity Knight.”

“Sim, é melhor que não saiba dessa história.”

Murmurei isso enquanto relembrava a montanha de ossos dentro daquela enorme caverna congelada.

“Sendo realista, o que você acha que acontecerá quando a armada da escuridão atacar? A Administrator e seus cavaleiros têm condições de vencer?”

“A chance é zero.”

Cardinal respondeu sem pestanejar.

“Mesmo que Integrity Knight tenham muitos anos de combates, eles perderiam devido ao seu reduzido número de componentes. E igualmente a Administrator, embora tenha artes sagradas poderosas o suficiente para ser consideradas desastres naturais, é necessário que ela fique em um determinado raio de alcance para utilizá-las com eficácia e com isso, acabar se expondo à todo o tipo de risco.

Ainda que cada um dos servidores das terras escuras individualmente não se compare com o poder do Administrator, suas artes sagradas… ou melhor dizendo, suas dark arts juntas podem fazer milhares de centenas de ataques consecutivos, a ferindo muito e em um tempo extremamente curto para que pudesse se regenerar. É provável que não consigam matá-la com apenas isso, porém, após receber um ataque desses, ela seria obrigada a retornar para a segurança da sua torre branca.”

“Então… significa que o destino desse mundo não irá mudar independente se derrotarmos ou não a Administrator? E que ela não será capaz de afastar a armada da escuridão a menos que recupere toda sua autoridade do Cardinal System, correto?”

Cardinal confirmou com a cabeça.

“É como você disse, atualmente nem ela e nem eu temos forças suficiente para deter a invasão do Dark Territory.”

“Então, de acordo com o que me contou até agora, a menos que que consiga completar a sua meta de eliminar a Administrator, cessando os erros do processo principal, você também não fará nada para salvar esse mundo… pois isso não está em sua programação?”

“De certa forma… sim…”

Continuou com uma voz fraca.

“…De certa forma, creio que as coisas devam acontecer independente de nossas vontades. Lhe contei tudo isso para que reflita e veja o panorama geral…

Seja como for, se nós dois ficarmos aqui sentados sem fazer nada… pode ser em um ano ou dois, tudo irá acontecer. Sem dúvida alguma as tropas da escuridão marcharão para dentro do Mundo Humano, então, vilas arderão, plantações serão destruídas e um genocídio terá início. As muitas palavras que conheço não são o suficiente para expressar o desastre extremo, o terrível e cruel inferno que irá se suceder nesse momento.

E digo mais, mesmo que eu recupere toda minha autoridade e tenha capacidade total para incinerar todos os monstros da escuridão com um simples comando, eu não o farei.

E antes que fique irritado, digo que a razão seria porque esses seres não desejaram realmente terem se tornado monstros, que tudo que eles fazem e farão, é devido as suas programações.

E exatamente por isso não poderei fazer nada. Lembra o que disse antes? Que mesmo tendo passado cem anos pensando em uma resposta para essa questão, não consegui uma solução satisfatória.

Escute… mesmo se um governante como a Administrator não tivesse surgido e o mundo seguisse seu curso planejado incialmente, a situação oposta teria ocorrido. Os humanos teriam formado um poderoso exército e invadiriam sem piedade o Dark Territory, cometendo todo o tipo de atrocidades contra os habitantes daquele lugar e também seria um massacre sem precedentes.

Entende onde quero chegar?”

A voz suave de Cardinal gradualmente foi se tornando mais e mais aguda, como se estivesse chicoteando meus ouvidos.

“Independentemente de quem esteja na dianteira, o fim do mundo estará afogado em uma quantidade abominável de sangue. Depois de tudo, mesmo que os habitantes de ambas as partes desse mundo lutem e esperneiem, eles dançarão conforme os desejos dos deuses de RATH… E eu… eu… não posso aceitar em me tornar um deus assim. Mas definitivamente não posso aceitar um fim desses também.

Dito isso, me dando conta de que era incapaz de evitar essa carga final experimental, cheguei a uma simples e dura conclusão…

Não importa o que aconteça ou o que custar, removerei a Administrator de sua posição antes que o momento final chegue, recuperarei minha autoridade sobre os processos e me tornarei novamente o Cardinal System e… invalidarei Underworld, ou seja, invalidarei o Mundo Humano e o Dark Territory.”

“Invalidar… Underworld?”

Repeti mecanicamente essas palavras.

“O que isso quer dizer exatamente…?”

“Exatamente o que eu disse. Apagarei todos os Fluctlight armazenados dentro dos dispositivos de almas, o Light Cube Cluster. Os habitantes do Mundo Humano e os da terra da escuridão também, sem deixar nenhum para trás.”

A firme declaração da jovem Cardinal me deixou sem palavras por alguns instantes. Depois de conseguir, de alguma maneira, visualizar a imagem do que ela estava dizendo, falei.

“Mas isso… essencialmente, não seria cometer uma eutanásia em massa? … Não seria tão cruel quanto o massacre do qual me falou?”

“Eutanásia?…Não, esse não é o termo correto.”

Talvez estivesse buscando em sua base de dados, mas Cardinal ficou piscando algumas vezes antes de fazer um sinal em negativo com a cabeça e dizer:

“Provavelmente é inimaginável para um ser humano que habita o mundo como você, possuidor de um conhecimento diferente do Light Cube, mas as almas dos habitantes vivendo nesse mundo podem ser apagadas com uma fácil manipulação. Elas podem desaparecer sem oferecer a mínima resistência, igual a chama desses candelabros na parede… e também, como as chamas, não haveria dor. Bem diferente de assassinar de fato uma pessoa, mas…”

Essa fora a conclusão à qual ela chegou depois de considerar exaustivamente por um longo período de tempo, pois não pude sentir raiva nem qualquer outro sentimento a não ser uma profunda resignação e auto depreciação na voz de Cardinal conforme ela ia falando.

“É claro que o caminho ideal para esse mundo seria escapar do alcance de RATH para sempre, ter a liberdade para escrever sua própria história. Mas isso já não é mais possível. É improvável ter uma reconciliação sem derramar sangue entre as pessoas do Mundo Humano e do Dark Territory, não importando quantas centenas de anos sejam gastas…

Sei que é algo remoto, mas perguntarei mesmo assim…

Devo considerar essa possibilidade de tornar esse mundo independente, fora das garras de RATH, algo inalcançável, ou realmente tem alguma chance disso acontecer?”

Mordi meus lábios enquanto pensava sobre essa pergunta repentina.

Não sabia em que parte do Japão estava a verdadeira forma do Underworld, onde o grande Light Cube Cluster fora construído e instalado. Mas sabia que esses equipamentos deveriam ser enormes e consumir uma quantidade absurda de energia, assim, que conseguir fazer isso funcionar de forma independente era algo completamente… impossível…

Se somar isso ao fato de que RATH não era uma empresa de caridade, só deixavam o panorama pior. Kikuoka Seijirou era atualmente um membro ativo das Forças de Auto Defesa do Japão e se minhas suspeitas estivessem corretas, tanto essa empresa quanto todo esse experimento, estavam intimamente relacionados com a segurança nacional.

Mesmo que Cardinal recuperasse sua autoridade total e abrisse um canal para comunicação exterior pedindo a independência de Underworld, RATH com toda a certeza não iria aceitar.

E caso eu consiga chegar no topo da Catedral Central e faça contato com Kikuoka, não existe nenhuma garantia de que escute meus pedidos de salvar e conservar Underworld, o local onde conheci meu grande amigo Eugeo.

Pois para ele e provavelmente para toda a empresa, tudo aqui não passa de Fluctlight Artificiais, simples objetos de estudos e que o Underworld limita-se apenas a ser um ambiente para seus testes.

Em outras palavras, é até possível que haja algum método para os Fluctlight Artificiais que desejam alcançar a verdadeira liberdade e independência possam fazer… mas isso incluiria enfrentar os humanos no mundo real e…

Apreensivo com o rumo que esse pensamento estava tomando, me forcei a parar de raciocinar. Então, levantei meu rosto e encarei Cardinal.

“…Sim, é impossível. Esse mundo é totalmente dependente dos humanos e da energia do mundo exterior. Dessa forma, uma independência se torna inviável.”

“Entendo. Então, tudo aqui é como um pedaço de carne fresca flutuando em um tanque cheio de tubarões, esperando somente o momento de ser abocanhado…”

Não queria concordar novamente com o pensamento de Cardinal, então respondi.

“Mas… não posso concordar completamente com o que diz, mesmo que também não esteja totalmente contra sua ideia… A solução que propõe, de acabar com tudo em um instante poupando dores e sofrimentos, pode até parecer a mais adequada dada a situação atual, porém, estou envolvido demais com os humanos desse mundo, mais do que gostaria de admitir.”

Os rostos sorridentes de todos que conheci em Rulid e Centoria surgiram em minha mente. Com certeza não desejo vê-los assassinados pelas forças do Dark Territory, mas ainda assim, se cooperar com o plano de Cardinal, as almas dessas mesmas pessoas irão desaparecer…

Será que realmente não existe outro meio de evitar que isso aconteça?

Incapaz de lidar com a realidade em minhas mãos, fiquei esfregando-as, enquanto ouvia as palavras de Cardinal.

“Kirito, se eu conseguir recuperar todos os meus privilégios com a sua ajuda, posso conceder alguns de seus desejos, mesmo que seja por um breve período de tempo, posso atendê-los antes de desligar Underworld. Se me disser os nomes das pessoas que você quer ajudar, não irei apagar seus Fluctlight e os deixarei arquivados, seria como se estivessem em um longo sono. Então, após sair daqui, você só terá que se certificar que nada aconteça com o Light Cube Cluster e coletá-los.

Todavia isso será limitado a dez. Entendo que isso possa não ser o que deseja, mas é o que tenho condições de lhe oferecer.”

“…!”

Perdi o ar momentaneamente ao ouvir essas palavras.

Isso realmente é possível?

De fato, se o Light Cube Cluster não necessita de eletricidade para reter informações e caso eu consiga retirar os dispositivos que armazenam os Fluctlight de forma segura e em tempo hábil… é possível que consiga preservá-los até que a tecnologia do STL se torne mais viável e com isso, consiga salvá-los.

Seja como for, o problema todo acontece antes disso, na maneira de retirar os cubos do Light Cube Cluster, que certamente está no coração do centro de pesquisa do RATH.

E também não conseguirei carregar muitos dispositivos em meus bolsos, mesmo que eles sejam tão pequenos, em torno de cinco centímetros cada um, conforme disse Cardinal.

E mesmo que consiga uma oportunidade, é provável que tenha grande dificuldade para extrair todos os dez.

Então, se vou aceitar essa proposta, terei que escolher quem irei salvar…

Isso era muito diferente de analisar dados que iria selecionar para salvar em um console de jogos. Os Fluctilight Artificiais eram exatamente como humanos do mundo real, como eu mesmo. Seguindo a lógica de Cardinal, terei que salvar todos aqueles com os quais eu tenha mais intimidade… Será que estou qualificado para fazer esse tipo de escolha?

“É..é..”

É impossível’, essas eram as palavras que estava tentando dizer, mas congelaram em minha garganta no momento em que vi o fundo dos grande olhos de Cardinal me encarando fixamente, era como se ela estivesse me analisando. No fim, o que saiu de minha boca, foi um argumento patético.

“…Me diga uma coisa antes…! Porque dentre todos, você me escolheu para ajudar na luta contra a Administrator? Lhe disse antes, não tenho nenhuma vantagem nesse mundo. Artes sagradas, técnicas com espadas, existem várias pessoas que são muito melhores do que eu, e que estão espalhadas por toda a parte. Você pode muito bem escolher Eugeo, que provavelmente está muito mais forte do que eu…”

Depois de escutar pacientemente minhas palavras pessimistas, Cardinal negou com a cabeça de forma um pouco irritada.

Encheu sua xícara (que agora tinha voltado a ser uma) de chá, tomou um gole e falou:

“…Descobri sobre a inevitável fase experimental de carga ou a invasão do Dark Territory, seja lá como deseje chamar, fazem apenas vinte anos. Desde então, estive buscando aquele que se transformaria em minha espada…”

Percebi que a longa história de Cardinal estava em seu derradeiro capítulo, finalmente saberia tudo, portanto, tratei de prestar bem a atenção.

“…De fato, é irrelevante para mim se a pessoa que procuro é ou não bom no manejo com a espada ou artes sagradas, pois caso essa pessoa acabasse presa e indo para o lado da Administrator, só iria se tornar mais um obstáculo ao virar um Integrity Knight.”

“Oh! Você pensou até nisso…?”

“Sim. Enquanto conduzia a minha investigação, bolei dez modos de resolver o meu problema, mas cada um deles carecia de uma certa quantidade de confiabilidade….

O tempo continuou passando enquanto minhas buscas seguiam. Soube de algumas batalhas na serra montanhosa, com incursões dos seres do Dark Territory tentando invadir pelas cavernas, conforme estava pré-estabelecido na fase inicial do experimento de carga.

Foi uma luta intensa, que necessitou de oito Integrity Knight para vencê-la. Foi nessa época que comecei a considerar a renúncia de tentar restaurar meus privilégios e adotar outra abordagem voltada na persuasão da Administrator, incluindo oferecer meu próprio pescoço, caso fosse necessário… mas então, soube algo através de um familiar que havia soltado para circular pelas remotas regiões do norte. Um feito que até então era para ser impossível de acontecer.”

“Um feito… impossível?”

“Um rumor sobre um fenômeno que nem Quinella, desde o momento em que se tornou o Administrator, esperava que pudesse ocorrer.

A destruição de um de seus objetos que serviam como barreira para o avanço social, tecnológico e financeiro da humanidade que ela havia inserido em todos os quatro cantos do Mundo Humano…

No caso, a queda da gigantesca árvore que tinha a função de exaurir todos os recursos do lugar, com uma prioridade e durabilidade quase infinitas, pelas mãos de dois simples jovens.

Você por acaso conhece uma história assim, Kirito?…”

Realmente era incrível, até isso chegou aos ouvidos da Administrator. Enquanto me admirava, Cardinal continuou.

“Ao saber disso, imediatamente mobilizei o familiar mais próximo da região norte de Norlangarth, a Charlotte, para encontrar esses dois garotos. Elas os alcançou momentos antes de deixarem seu povoado. Então, fiz com que Charlotte deslizasse na cabeça de um deles e começasse a investigá-los sobre o motivo pelo qual foram capazes de acabar algo que era para ser virtualmente impossível de destruir…”

Pensei em protestar dizendo que Charlotte era mais do que um simples meio de espionagem, que era na verdade uma grande companheira, mesmo que tenha passado praticamente todo o tempo oculta, mas não consegui colocar isso em palavras, apenas franzi o rosto.

“Por fim, descobri o motivo, a espada que estava em poder do rapaz de cabelos loiros. Era um objeto da mais alta classe existente nesse mundo, um dos instrumentos sagrados. Mas então, surgiu outra dúvida…

Porque aqueles garotos tinham uma prioridade tão alta a ponto de manejar uma arma daquelas? E experimentando uma sensação que acreditava não mais existir em mim, fiquei dia após dia com meus olhos e ouvidos atenta a tudo o que eles faziam e diziam. Na maioria das vezes eram necessidades absolutamente inúteis, porém…”

“M-Me desculpe por você ter ouvido essas coisas…”

“Ah! Cale a boca e continue escutando!

Depois de um tempo quando eles estavam em um determinado povoado a caminho da capital, finalmente entendi a razão.

Incrivelmente aquela dupla havia enfrentado uma unidade exploradora de criaturas do Dark Territory e saído vitoriosa do embate. Assim, receberam pontos de autoridade que normalmente deveriam ter sido dividido em dez pessoas, devido ao tamanho do grupo invasor, mas que foram monopolizados por apenas dois.

Compreendi que tinha sido a principal razão pela qual eles eram capazes de manejar um instrumento divino… mas ao mesmo tempo, outra pergunta me atormentou.

O fato de que… como somente dois jovens comuns, nascido em uma aldeia remota, que nem ao menos tinham treinamento militar ou faziam parte da guarda, conseguiram ganhar de goblins da raça guerreira do Dark Territory que possuíam uma força de combate extremamente poderosa? ”

“Bom… a maior parte deles foi vencida por caírem na minha encenação e blefe.”

Cardinal pareceu querer me xingar por tê-la interrompido novamente, mas acabou não dizendo nada.

“Hum, entendo… concordo que você deve ter tido uma parcela de sorte então. Enfim, minha dúvida foi respondida.

Mas voltando ao que dizia…

Até aquele momento eu não tinha essa última informação, de maneira que só me restava cogitar as possibilidades e todas elas apontava para um dos garotos, o que tinha os cabelos negros… ou seja, você Kirito. Fiquei observando atentamente a todo seu discurso e o modo como se comportava em relação ao seu companheiro, Eugeo.

E a resposta me veio quando um dia vi você dar comida para um cachorro de rua sem ter motivo algum, em outras palavras, fez algo que estava contra o Índice de Tabus naturalmente.”

“Eu fiz isso?”

“Incontáveis vezes. Se alguém tivesse visto, teria sido um caos. Pois por mais corriqueiro que possa parecer para você, essa era uma clara violação às regras.

Então, permaneci analisando atentamente todas essas suas ações e palavras através de Charlotte para me certificar que estava diante de algo genuíno.  Você continuou fazendo esse tipo de pequenas coisas inclusive após entrar na Sword Mastery Academy em Centoria do Norte. Era realmente um hábito seu, pois já o presenciava há mais de um ano… então, cheguei a uma resposta.

Em resumo, você não era uma alma nascida nesse mundo confinada em um Light Cube e sim um ser humano do mundo exterior… um ser humano do mesmo lugar onde estava o verdadeiro deus da criação… RATH”

“Creio então que a tenha decepcionado. Pois além desse fato, não tenho nenhum privilégio de supervisor ou algo assim e muito menos um meio de comunicação direta com RATH… e para falar a verdade, não faço a menor ideia do que está se passando lá fora nesse exato momento…”

Falei com sinceridade, já que sentia que não poderia ser de nenhuma ajuda, mas Cardinal sacudiu seu dedo indicador direito em sinal negativo com um sorrisinho em seus lábios.

“Engano seu, eu sabia disso desde o princípio…  e ainda assim, você será perfeito para o meu plano…”

Eu sabia que você não tinha nenhum tipo de privilégio avançado, pois se tivesse uma autoridade superior à da Administrator, não haveria necessidade de ter que lutar contra os goblins usando uma espada e ainda saindo com uma grave ferida durante o processo.

Eu também sou incapaz de lhe dizer o motivo pelo qual você surgiu nesse mundo nessas condições. Suponho que deve ter ocorrido algum acidente… ou talvez seja algo relacionado à coleta de dados da memória, o que explicaria a autoridade restrita. Mas não ficaria surpresa se a sua estada aqui não tenha custado um alto valor… sinceramente eu aposto nesse último palpite.

“…Pois então, falo sério quanto a isso. Ainda não sei o que ocorreu para estar aqui.”

Recordei a dor que senti quando fui acertado pelo líder goblin.

“De qualquer forma, essa ainda é a minha maior esperança. Depois de tudo, a sua existência me mostrou um ponto significativo na batalha contra a Administrator.”

“Qual ponto?”

“Executar o Synthesis Ritual requer uma enorme e complexa quantidade de comandos e parâmetros. Inclusive na etapa de preparação, a cerimônia dura aproximadamente três dias.”

Cardinal voltou para sua história mais uma vez, me deixando desconcertado. Ia interrompê-la, mas ela seguiu falando ininterruptamente.

“Resumindo, é o caso quando não haja como alcançar um Light Cube diretamente em uma batalha, mesmo usando as artes sagradas.

Dizendo de outro modo, você é perfeito para o plano pois não existe o perigo de que sua alma seja dominada e manipulada caso você seja capturado e tentem lhe fazer uma lavagem cerebral para tentar transformá-lo em um Integrity Knight.

E se você estiver se perguntando que a Administrator pode decidir não te querer como um de seus guerreiros e tentar acabar com seu Fluctlight… o comando necessário teria que ser previamente realizado, pois o seu tempo de ativação também é longo, algo inviável durante uma batalha. E nesse momento pode ser cancelado por uso de armamento ou artes sagrados.

Me dei conta, depois de muito tempo, que esse era um ponto importante e que não tinha como escapar, já que um ataque diretamente na alma não tinha como ser evitado, até que você me deu essa possibilidade…”

“…Um ataque na alma é tão…”

“Sim, terrivelmente eficaz. Algo assim deixaria qualquer mestre impotente no momento em que suas memórias fossem arrancadas…

Assim sendo, Kirito, você é o único que pode enfrentar um ataque desses e sair ileso. Pois mesmo a Administrator não pode colocar suas garras no instrumento do mundo exterior, o STL, a máquina máxima que controla todas as almas de Underworld. Isso porque não existe um comando para tal.

Finalmente entendeu o motivo pelo qual estive lhe esperando? A razão pela qual tenho colocado todas as minhas forças em construir backdoors para conseguir lhe trazer até esse lugar? Não importando se você ganhasse o Torneio da Unidade, lhe raptando da sala de interrogatório, prisão ou em qualquer lugar que tenha pisado no terreno da Igreja Axiom. Minha máxima prioridade era trazer vocês aqui, se bem já imaginava que uma hora ou outra acabaria vindo para cá, após tanta transgressão do Índice de Tabus…”

A gigantesca história de Cardinal chegara ao fim. A garotinha finalizou o discurso com um grande suspiro e com um leve rubor em suas bochechas.

“Entendi…”

Continuava não sabendo a razão pela qual tinha entrado nesse mundo e nem como estava a situação fora dele. De maneira que ainda se fazia presente a necessidade de chegar ao núcleo da Igreja Axiom para conseguir um modo de me comunicar com o RATH…

Será destino? Pois não importa o que eu tenha feito até aqui, parece que estou predestinado a seguir lutando, pelo menos é o que estou constatando desde o momento em que essa garotinha com uma idade absurdamente longa, me trouxe até aqui.

Ela me explicou e ainda barganhou uma maneira de me deixar sair desse mundo às custas de conseguir salvar apenas dez pessoas enquanto as outras perecerão…

A situação em si não mudou, terei que lutar contra a Administrator que fazer uma chacina ao preço de que se eu ganhar, também acontecerá outro massacre… Esse sistema, essas duas deusas… é certo eu continuar com isso? Afinal elas…

Não! Antes de eu começar a culpar alguém e diante das circunstâncias, não posso refutar nada do que essa garotinha, que me olha tão intensamente nesse momento, falou.

Embora ela tenha me dito diversas vezes que não possui emoções, não consigo acreditar em nada disso depois de ouvir o seu relato.

Creio imensamente de que Cardinal seja um ser humano como eu. E digo mais, creio que ela é quem esteja sofrendo mais do que qualquer um por ter que cumprir essa terrível tarefa de corrigir o mundo que está gravada em sua alma.

“Então Kirito? Eu não posso obrigá-lo a aceitar participar do meu plano de invalidar esse mundo. Caso não esteja de acordo, enviarei vocês dois para o mais longe que minhas portas puderem lhe deixar, no local em que poderão ficar com máximo de segurança.

E você pode querer seguir seu próprio caminho para deixar esse mundo e nesse caso, uma das escolhas também seria lutar comigo e depois com a Administrator…

De qualquer forma, teremos todos que lutar… pode-se dizer que é o… destino…”

Falando isso em um tom muito baixo, Cardinal mostrou um sorriso triste, com a dor transparecendo em seus olhos, com o peso compatível com sua verdadeira idade. Era uma expressão que ainda não tinha visto em seu rosto desde o instante em que entrei nessa biblioteca.

Depois de um longo período de silêncio, respondi.

“…Cardinal… sua alma é uma cópia da de Quinella, correto…?”

“Exatamente.”

“Então… deve também ter o sangue dos nobres correndo em você também. Os genes para perseguir seus próprios desejos e interesses…

Me diga, porque você não largou tudo e fugiu para longe? Alguém com seus poderes pode muito bem viver em um local afastado de tudo e ficar livre dos olhos da Administrator, não é?

Você poderia viver uma vida normal, a vida que você tantas vezes observou pelos olhos de seus familiares. Poderia casar, ter filhos… ficar em paz até o fim de seus dias.

Acredito que seu sangue esteja pedindo por isso durante esses duzentos anos.

Porque resiste a esse apelo e continua presa nesse lugar, em uma batalha sem fim?”

“Mas você é mesmo um idiota completo…”

Cardinal de um leve sorriso.

“Eu lhe disse que meus interesses e desejos são somente aqueles gravados em minha alma, os comandos do subprocesso Cardinal. E ele me diz que devo eliminar a Administrator e normalizar esse mundo. E depois de muito pensar, cheguei à conclusão de que o mundo só poderá ser normalizado se retornar ao nada absoluto. Então… eu… eu…”

Houve uma pausa em suas palavras.

Quando encarei seus grandes olhos castanhos amplamente abertos, eles pareciam tremer intensamente… pareciam demonstrar… emoções…

Então, seus lábios se moveram novamente.

“…Não… suponho que isso também é ruim… eu também… eu também tenho um… desejo, somente um. Há algo que gostaria de entender… não importa como… mas nesses duzentos anos eu…”

Suas pálpebras se fecharam e abriram lentamente. Ela me encarou e mordeu o canto de sua boca, mostrando uma rara vacilação em suas ações. Esfregou suas mãos, levantou da cadeira e disse:

“Kirito… fique de pé também…!”

“O quê…?”

Levantei como tinha me pedido. Então Cardinal se inclinou um pouco para cima para me olhar melhor. Mesmo não sendo um cara muito alto, mas perto dela eu parecia um gigante.

A garotinha que aparentava ter não mais do que dez anos, franziu um pouco a testa enquanto me analisava de cima a baixo e olhava ao redor.

Então colocou seu pé direito sobre a cadeira e um pouco de esforço, subiu nela e depois comparou as alturas.

“Assim está bom. Aproxime-se Kirito!”

“…!?”

Estava ficando realmente confuso enquanto atendia seus pedidos.

“Mais para perto!”

“Mas…”

“Pare de reclamar e venha aqui!”

Quanto mais me aproximava, mais confuso ficava, até que ela disse:

“Perfeito, fique assim!”

Nossas testas estavam praticamente se tocando.

Cardinal olhou ternamente dentro de meus olhos, enquanto eu suava frio.

Então, ela desviou o olhar e deu outra ordem.

“Estenda seus braços!”

“…Hã… assim?”

“Dobre-os em volta de mim formando um anel.”

“…”

Obviamente ela não iria me atacar com seu cajado nem nada parecido, então, mesmo com receio, segui suas instruções e passei meus braços em torno de seu pequeno corpo, porém tomando cuidado para não tocá-lo.

Depois de alguns segundos de um silêncio constrangedor, Cardinal fez um som.

“Tsc!”

“É um cara tímido, não?”

“Mas do que você está falando?”

Sua túnica abriu um pouco e os dois braços de Cardinal lentamente deram a volta em meu corpo, se apoiando em minhas costas. Pude senti-la fazendo um pouco de pressão, encostando seu peito ao meu.

Seu grande chapéu bateu em meu rosto e caiu sobre a mesa, revelando seus cabelos castanhos.

Senti seu pouco peso ao se apoiar em mim juntamente com a sua tênue temperatura.

“…”

Depois de um tempo, fui perguntar a razão daquilo. Porém, antes de conseguir falar, ouvi a quase inaudível voz de Cardinal, um pouco trêmula chegando ao meu ouvido.

“Entendi… então é assim…”

Depois de um grande suspiro…

“Isso é o que significa ser humano?”

Minha pergunta desapareceu.

Entendi que se havia algo que Cardinal queria depois de passar duzentos anos em isolamento, esse algo era o contato com outro ser humano.

A palavra ‘humano’, tem raízes nas conexões entre as pessoas. Ser um humano significa trocar palavras com outro ser humano, dar as mãos, sentir o contato entre as almas.

Apesar disso, a garotinha esteve sozinha por duas centenas de anos, rodeada de apenas livros, incapazes de uma só linha de conversação.

Pude captar, mesmo que por um curtíssimo espaço de tempo, o que Cardinal tinha vivido. Então, entendendo a situação, fechei meus braços de vez, puxando firmemente o pequeno corpo dela e se aconchegando ao meu.

“…Quente…”

Tinha algo de diferente nessa simples palavra sussurrada de Cardinal. Assim como percebi algumas gotas que viajavam suavemente pelo seu rosto e se depositavam em meus ombros.

“Creio que… esses duzentos anos de espera por isso… não foram em vão…”

Ela deixou as lágrimas fluírem, uma atrás da outra.

“Me sinto realmente satisfeita… em conhecer esse calor… me sinto… recompensada.”

Sword Art Online - Alicization Rising vol.12 - Kirito - Cardinal

Ficamos abraçados durante um tempo que não consegui determinar.

Então, Cardinal se soltou de meus braços e desceu da cadeira. Após colocar seu chapéu e ajustar seus óculos no rosto, falou:

“Vai ficar aí sonhando até quando? Por acaso nunca abraçou alguém antes?”

“…Ei! Ei!…?”

Não consegui dar uma resposta direito à essa provocação. Apenas me ocorreu que aquele momento de antes, com ela chorando em meu ombro tinha sido uma alucinação, pois a garotinha estava com sua personalidade ácida novamente, como se nada tivesse acontecido.

Sem mais o que fazer, voltei a sentar na cadeira e cruzar os braços e me preparei para responder a sua grande pergunta…

“…Conseguiu chegar à uma conclusão? Vai aceitar a minha proposta ou vai recusá-la?”

“…”

Novamente travei na hora de responder.

Se for julgar apenas pela lógica, o melhor resultado que tinha era aceitar a proposta de Cardinal e eleger as dez pessoas que levaria comigo… Infelizmente não me ocorria nenhuma outra ideia melhor.

Mas tinha certeza que deveria de ter uma outra alternativa, só não conseguia pensar nela nesse instante.

Ao menos é nisso que queria acreditar. Mas já que tinha que falar algo…

Levantei meu rosto e encarando Cardinal, falei:

“…Certo. Participarei de seu plano, mas…”

Tinha que ser cuidadoso com as palavras à partir desse ponto…

“…Mas não irei desistir de pensar em outra solução, mesmo quando começarmos a lutar contra os Integrity Knight e a Administrator. Algo que evite esses dois cenários de tragédias da fase de carga experimental e permita que Underworld viva em paz.”

“…Mas você realmente é muito otimista. Mas eu já previa isso também.”

“E digo mais, estou disposto a salvar todos e isso inclui você, não quero que desapareça. E se tiver que escolher mesmo essas dez pessoas, você será uma delas.”

Cardinal arregalou os olhos, depois passou a mão sobre o rosto em um movimento exagerado.

“…Está confirmado, você é mesmo um completo idiota. Se eu escapar, quem vai deletar esse mundo?”

“Como eu disse… entendo as circunstâncias, mas não irei abandonar essa luta, mesmo que você diga que é inútil.”

Sacudindo a cabeça diante a minha resposta, a garota se levantou e deu as costas. A voz que chegou aos meus ouvidos junto com um aroma doce era muito suave e tranquila, escondendo os duzentos anos de total isolamento mas que nunca abandonou o desejo de ter ligações com as outras pessoas.

“Cuidado com essas palavras, Kirito! Chegará o dia em que você também irá amargar a dura realidade. Sentirá o quão duro é o sentimento na hora em que tudo falha… o quão pesado é o fardo do… fracasso.

Bom, vamos voltar, é provável que seu companheiro esteja devorando todos os livros de história que lhe alcancei. Temos muito o que falar sobre os planos e isso também diz respeito às ações de Eugeo. ”

Pegando seu cajado e dando umas batidas no chão, a mesa em que estávamos desapareceu por completo.

Girando para a passagem pela qual viemos, Cardinal foi caminhando tranquilamente, sem jamais olhar para trás.

 

KIRITÃO NÃO PERDE TEMPO MESMO HEHEHE.

FIM DA PARTE UM E DE MUITO BLÁ BLÁ BLÁ, SEMANA QUE VEM TEM A DOIS.

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