Sword Art Online Alicization Rising em Português – Underworld – Capítulo 7 – Parte 1.3

Arco: Alicization – Rising

Parte 1

Sword Art Online Alicization - Rising - Kirito - Vol. 12

“Dois lugares?”

“Sim, foi o que eu disse.

Um deles fica mais além da enorme cadeia de montanhas que serve como barreira do Mundo Humano, ou como costumam chamar, o Dark Territory e o outro é a Grande Sala da Biblioteca, a mesma onde estamos confortavelmente sentados.

A princípio essa biblioteca era um espaço criado pela Administrator com intuito de analisar o limite de sua própria memória, esse lugar era para ser usado como um dispositivo de armazenamento externo de sua memória primária.  Sendo mais específica, um local para guardar a enorme quantidade de informações relacionadas aos System Commands de Underworld. E como medida de segurança, a fim de evitar qualquer entrada humana, restringiu todos os acessos além dela própria.

Então, colocou esse lugar dentro da Catedral, apesar de não estar necessariamente vinculado na mesma dimensão.  Em adição às medidas de segurança, fez apenas uma única porta para adentrar o local, sendo aberta mediante a um comando conhecido somente por ela… melhor dizendo, por ela e por mim.”

“A…Ahh…”

Olhei ao redor daquele imenso lugar, com suas passagens e andares abarrotados de estantes, circundados por uma maciça parede côncava. Ao observar isso, me ocorreu uma dúvida…

“O que tem atrás dessa parede?”

“Não existe nada, esse muro é um objeto indestrutível. Mas caso fosse possível destruí-lo, provavelmente mostraria um vazio infinito.”

Fiquei imaginando o que aconteceria se conseguisse entrar ali.

“Então… essa porta que mencionou, foi aquela pela qual passamos quando viemos do jardim de rosas, não é?”

“Não, aquela foi eu mesma que criei tempos depois.

A que me referi anteriormente, é uma porta dupla gigantesca que existe no andar mais inferior da torre. Enquanto fugia da Administrator, recitei com muito esforço a arte sagrada para invocá-la. E assim que consegui atravessá-la, imediatamente a fechei e tranquei.”

“A trancou…? Mas se vocês duas tem o mesmo nível de autoridade, como ela não conseguiu abrir novamente?”

“Ela realmente tinha condições de fazer isso, porém, felizmente descobri que uma vez fechada aqui dentro, bastava girar a grande chave noventa graus para a direita que bloqueava qualquer tentativa de acesso externo, embora isso requeresse um ritual muito chato de se executar. Enquanto o recitava, era possível ouvir também a voz da Administrator, do outro lado, tentando abrir a porta. Era uma batalha de velocidade, que acabou com a minha vitória. Quando terminei de girar a chave, o silêncio se instaurou e com isso, também a negação de qualquer comunicação externa. E para me assegurar de que não haveria mais uma invasão, recitei outro encanto.”

Na mente de Cardinal deveria estar passando uma espécie de filme daquela dia, pois conforme falava, instintivamente abraçava seu próprio corpo. Essa era uma história de duzentos anos, mas ainda assim me causava arrepios em somente pensar naquela batalha titânica. Então, após engolir a última porção daquela deliciosa sopa, perguntei:

“O encanto que recitou foi… para destruir a porta, correto?”

“Sim. Destruí o único caminho que ligava a catedral à essa biblioteca. Dessa forma, isolei completamente esse lugar do mundo exterior e como consequência, impedi qualquer acesso da Administrator…”

“Mas qual é motivo que faz com que o alto ministro desse mundo não crie outra porta?”

“Simples. Mencionei isso antes não é? A Administrator criou a Grande Sala da Biblioteca com somente uma porta de acesso e separou esse lugar do resto do mundo, essa porta era uma espécie de âncora para a sala. De maneira que as coordenadas dessa construção ficam mudando constantemente e de forma aleatória sem essa âncora.

O único modo de conseguir um portão de entrada seria, em um curtíssimo espaço de tempo, adivinhar quais são as exatas coordenadas daqui, recitar um longo ritual de ligação dos caminhos e por fim, acessar o lugar. Mas em virtude da complexidade e do tempo que isso demandaria, se torna uma tarefa completamente impossível.”

“Entendi… mas o contrário é perfeitamente possível não é? Criar um acesso para a Catedral Central desse ponto, já que a torre está estática em um lugar apenas.”

“Digamos que é quase isso. Para seu conhecimento, no momento em que essas portas são criadas, os familiares da Administrator as detectam quase que instantaneamente, tornando-se impossível de fazer um segundo uso das mesmas. Usando como o exemplo, a que você e Eugeo passaram para chegar até aqui.”

“M-Me desculpe por lhe fazer gastar um recurso tão valioso como esse…”

Baixei a cabeça em sinal de arrependimento só para instantes depois ouvir uma risadinha vindo de Cardinal.

Ela me olhava por cima das lentes de seus óculos e murmurou algo tão baixo que provavelmente estava dizendo para si mesma.

“Lutei contra o terror que deveria ter combatido e destruído, ou seja, o Administrator, e infelizmente, perdi e acabei fugindo com o rabo entre as pernas. E de uma maneira humilhante, vim me esconder em um lugar como esse e fiquei por mais de duzentos anos me reservando a apenas a observação e deliberação das coisas ao meu redor…”

“…Duzentos … anos…”

Era impossível para alguém como eu, que viveu apenas dezessete anos e meio no mundo real e uns dois acelerados anos em Underworld, captar a real sensação de passagem de tempo, só conseguia imaginar parcialmente o que essa garotinha deve ter passado.

Essa menina diante de mim já viveu algo que na minha concepção, parecia ser a eternidade, rodeada por somente uma montanha de silenciosos livros. Nem sequer a palavra solidão poderia descrever um cenário desses… era realmente um isolamento total do mundo.

Eu jamais conseguiria viver tanto tempo dessa forma. Provavelmente se tivesse em uma situação como essa, abriria a porta e me aventuraria no mundo lá fora, mesmo que isso significasse a minha morte.

Nesse momento me dei conta de algo…

“Espera um pouco… Cardinal, você disse que o tempo de vida de um Fluctlight era por volta de cento e cinquenta anos, não é? Passar desse limite foi o que fez o Administrator copiar sua própria alma… Como exatamente você conseguiu alcançar essa marca de duzentos anos após a separação? ”

“Sabia que você iria perguntar isso.”

Cardinal lentamente devolveu sua taça de sopa vazia na mesa e falou.

“Mesmo que meu Fluctlight seja uma cópia exata do Administrator, esse frágil corpo não tem a capacidade para reter muita memória por tanto tempo. E foi sabendo disso, que o primeiro ato que fiz quando me certifiquei de que estava segura na Grande Sala da Biblioteca foi reorganizar todas as minhas recordações.”

“Re-Reorganizar!?”

“De fato. Fiz exatamente o que disse antes que não era seguro fazer, editar diretamente um arquivo sem nenhuma cópia de segurança. Se tivesse cometido um erro sequer durante o procedimento, meu Fluctlight teria se dissolvido por completo.”

“Então…, isso significa que mesmo estando isolada dentro desse espaço, ainda permanece em comunicação constante e mantendo os privilégios de autoridade sobre o Light Cube Cluster?  Se isso for verdade, o que impede do Administrator de tentar acabar com seu Fluctlight fisicamente dentro desse cluster?”

“Provavelmente o mesmo que me impede de fazer algo contra a sua alma. Infelizmente, mesmo com acesso total ao sistema, nenhuma arte sagrada de manipulação de objetos funciona se não tiver um contato direto com ela. Lembra o que tive que fazer agora a pouco com as xícaras? Tive que tocá-las para alterar seu estado.

Realmente existem algumas artes sagradas que necessitam somente de estarem no campo de visão para que os efeitos sejam ativados.

Tente compreender isso como algo que deve estar familiarizado de outros mundos aos quais passou, tente relacionar com o conceito de range requerido para realizar algumas ações. E foi por isso que mesmo a Administrator teve levar a garotinha até o último andar da torre, pois só conseguiria realizar seu ritual se tivesse determinada proximidade dela.

Essa também é a razão pela qual ela queria levar vocês dois até a catedral.”

Tremi involuntariamente ao ouvir essas palavras. Se não tivéssemos obtido sucesso em nossa absurda tentativa de fuga, quem sabe o tipo de interrogatório estaríamos sofrendo nesse exato momento.

“Em outras palavras, eu estando isolada aqui ou a Administrator solta e com todo o tipo de poder a seu alcance, de nada adianta, pois nenhuma de nós temos recursos necessários para atacar o Fluctlight uma da outra a distância.”

Fiquei em silêncio tentando ocultar minha ansiedade, enquanto Cardinal continuou.

“Reorganizar minha própria alma… Foi um desafio realmente apavorante. Todas as recordações que tinha armazenado até agora, desapareceriam com um simples comando para nunca mais voltar. Era algo aterrorizante, mas não tinha outro jeito. Então, acabei decidindo apagar todas as informações do tempo em que era Quinella, assim como também todas aquelas após me converter em Administrator. Resumindo, deletei noventa por cento de tudo que tinha.”

“M-Mas isso é praticamente…”

“Com certeza. E essa longa, longa história de Quinella que lhe contei, na verdade não foram experimentada por o ‘eu’ de agora, mas pelo ‘eu’ de antes de ter as memórias apagadas, graças as anotações que fiz antes de realizar tal procedimento.

Essa manipulação é tão intensa que nem os rostos de meus pais eu sou capaz de lembrar, nem o sabor do delicioso pão que minha mãe fazia, e que segundo minhas anotações, me faziam sorrir só de pensar neles…

O resultado disso tudo é o que disse antes, sou agora alguém sem emoções humanas. Sou um programa com praticamente todas as memórias e emoções perdidas, tomando ações baseadas puramente nas ordens marcadas em minha alma. Nas ordens que me dizem que tenho que deter o processo principal que enlouqueceu…

Isso é o que se resume essa minha atual existência, é o que sou, é o que devo ser, nem mais e nem menos.”

“…”

Cardinal baixou seu rosto em silêncio e sorriu instantes depois dizendo.

“…Bom, deletando minhas memórias me assegurei de liberar bastante espaço em meu Fluctlight. Portanto, ganhei muito tempo para me recuperar do fracasso que foi aquela luta e da humilhação que foi a minha fuga, bolando um plano para uma revanche contra o Administrator.

Considerei em atraí-la para uma armadilha e lutar novamente corpo-a-corpo. Mas agora não tenho condições de abrir uma passagem no antigo lugar, para fazer isso, teria que estar em um range específico. De maneira que o máximo que posso fazer é criar uma passagem nos jardins que circundam a torre ou em alguns poucos andares acima.

Infelizmente ela desce muito raramente para esses lugares, fazendo com que minhas tentativas de surpreendê-la sejam praticamente inexistentes. De qualquer forma, caso entremos em um combate, dessa vez ao menos já estou perfeitamente acostumada com esse corpo…”

“Quanto a isso, realmente é uma boa ideia bolar algo como um ataque surpresa mas… isso seria meramente uma aposta, não é? O mais provável é que a Administrator tenha uma medida preventiva quanto a esse tipo de situação, já que provavelmente ela espere que você a ataque em algum momento.”

Um ataque surpresa só é eficiente quando a outra parte não está esperando. Isso me lembrou que usei essa estratégia várias vezes nos tempos de SAO, mas nunca como forma de vingança, geralmente era com intuito de proteger algo.

Olhei para Cardinal enquanto ela estava fazendo uma cara emburrada.

“Mesmo antes de Quinella se transformar no alto ministro, ela era uma exímia lutadora e ótima estrategista, tinha um dom natural para encontrar as fraquezas das pessoas. O modo como ela notou minha limitação, minha estatura e alcance com somente alguns instantes de luta… e como brilhantemente usou isso para virar o jogo a seu favor… E agora ela está com a vantagem.”

“Vantagem…? Mas vocês duas têm a mesma capacidade intelectual não é mesmo?”

“Mas não se trata apenas disso, como já lhe disse.”

Cardinal respondeu de maneira irritada e prosseguiu.

“Não temos praticamente nenhuma diferença no quesito potencial. Mas isso só é válido se estivéssemos em constante treinamento.”

“Então…”

“É exatamente isso que você está pensando. Eu estou presa aqui, solitária e sem recursos, enquanto ela reina soberana com todo tempo do mundo nas mãos e uma enorme organização sob seu comando, a Igreja Axiom… Estava ciente do risco que estava correndo ao duplicar seu Fluctlight, criando um provável obstáculo ou então que acabasse em mais um erro que pudesse levá-la à morte.

Porém, preferiu isso do que sucumbir ante a sobrecarga que suas sinapses neurais estavam sofrendo. O objetivo de manter sua existência e suas memórias não havia mudado. Mas ao contrário de mim, ela não precisava decidir pela perigosíssima alternativa de editar suas próprias memórias de forma direta como eu fiz.

Ela conseguiu manter a mínima capacidade livre requerida ao apagar as memórias extremamente recentes e as que ela considerava inúteis. De fato, operar tais memórias dessa forma tinha um baixo risco colateral caso desse algo errado, com isso, ela reduziu a quantidade de armazenamento ao máximo que pode.”

“Reduzir… Já que falamos disso, por acaso as memórias não se acumulam simplesmente com o passar dos dias? Digo, elas não vão se acumulando de forma passiva?”

“Depende do modo como você passe os dias, não concorda? Realmente ela se incrementa passivamente quanto mais você veja coisas novas, vá a lugares desconhecidos, pense em coisas que costuma não pensar ou que não imaginava pensar. Sua linha de raciocínio está correta mas… vejamos esse caso.

Me responda uma coisa, hipoteticamente falando, se você nunca desse um passo para fora de sua cama e passasse todos os dias encerrado em seu quarto com os olhos fechados, que tipo de memórias você acumularia?”

“Não há como eu fazer isso. Preferiria passar os dias balançando a minha espada por aí, isso sim…”

“Eu disse hipoteticamente e… sim, estou ciente desses seus hábitos. É por causa deles que você acabou tendo sérios problemas meu rapaz. Você é exatamente como tinham me informado, um garoto muito inconsequente…”

Não pude discordar totalmente.

Não tinha muita certeza sobre isso e nem como ela tinha tantas informações ao meu respeito. A maneira como fala, só confirma a teoria de que ela esteve, durante muito tempo, observando todas as minhas ações.

Cardinal continuou falando com um sorrisinho enigmático nos lábios.

“…Ao contrário de você, senhor Kirito, a Administrator não tem pensamentos como: ‘-Oh! Como estou aborrecida!’, ‘-Quero balançar minha espada por aí’ ou ‘- Preciso comprar um pastel naquele meu restaurante preferido’.

Essa mulher pode ficar em sua cama por dias ou semanas se for necessário. Afundada em sonhos semiconscientes e memórias de dias de um passado longínquo… Essa é a forma objetiva com que seu cérebro trabalha…”

“Mas ela pode realmente fazer isso? Afinal, é a comandante suprema da Igreja Axiom. Não deveria realizar discursos, ter audiências com os quatro imperadores, participar de rituais festivos religiosos, revisar o sistema administrativo mundial e todas as coisas que necessite fazer alguma aparição em público?”

“Certamente que ela tem esse tipo de responsabilidade. Tem audiência com os quatro imperadores durante festivais religiosos no começo de cada ano, assim como comparece nos horários programados nos andares inferiores da catedral para realizar a supervisão do sistema administrativo, exatamente como você disse. E toda vez que faz esses tipos de coisas, está sempre sob os cuidados de sua pesadíssima guarda, forte o suficiente para inibir qualquer tentativa de ataque surpresa de minha parte.

Mas ainda assim ela delegou boa parte de seus deveres aos seus leais e poderosíssimos seguidores.”

“Entendo, então é aí que reside a grande vantagem que ela tem sobre você, que está sozinha contra ela e sua enorme organização…

Mas se pensar por outro lado, isso pode até se tornar uma arma contra ela, não é? Já que se cercou de pessoas tão poderosas, não deveria esperar que em dado momento esses mesmos seguidores acabassem se rebelando? Afinal, ela estando sob seus cuidados, também significa que está vulnerável a ataques de origem interna, correto?”

Cardinal deu de ombros e falou.

“Por acaso não ouviu quando eu disse ‘leais e poderosíssimos seguidores’?”

“Sim, ouvi. Sei que os habitantes desse mundo não desobedecem as ordens de seus superiores, mas você mesmo disse que isso não era algo assim tão absoluto. Se esses guarda-costas mudassem suas perspectivas, como por exemplo, suspeitarem que sua comandante, o Alto Ministro da Igreja Axiom, está trabalhando para os inimigos da humanidade, os seres do Dark Territory…”

“Seu raciocínio é bom, porém, aquela pessoa certamente sabe que essa possibilidade existe. Por isso mesmo que ela caçou implacavelmente todos os humanos que tinham um alto coeficiente de transgressão e os submeteu para seus terríveis experimentos.

Obediência cega não é sinônimo de lealdade eterna… ela sabe muito bem que não pode confiar em algo tão vago quanto isso, nem mesmo se cada um de seus seguidores jurassem de todo o coração, na tentativa de lhe convencer de seus ideais, isso não seria o bastante. Afinal, ela foi atacada por uma cópia de si mesma, não é? ”

Ao dizer isso, Cardinal deu um sorriso um tanto amargo.

“Para tal situação, ela precisaria se certificar que não haveria nenhuma possibilidade de traição e que eles estivessem sempre dispostos da darem suas vidas para me enfrentar.

O que você acha que ela fez? Se estiver pensando que utilizou seus privilégios para forçar isso, acertou. A solução adotada por ela foi alterar seus Fluctlight diretamente e garantir que não haveria nenhuma chance de mudança de lado.”

“…O-O q-que disse!?”

“Cheguei a mencioná-lo antes, o que ela usou em seus seguidores foi um complexo comando chamado Synthesis Ritual.”

“Hum… você disse que era a unificação da alma e da memória, não é?”

“Sim e ela tinha uma grande quantidade de material para trabalhar, já que todos possuíam almas poderosas.

Eram constituídos, basicamente, de todos os humanos que ela tinha capturado e congelado para usar em seus experimentos, pelo simples fato de possuírem um alto nível de coeficiente de transgressão…

E como disse no começo, é um palpite meu, mas acredito que esse coeficiente é proporcional ao nível de suspeita que essas pessoas tinham sobre tudo relacionado à Igreja Axiom. Em sua maioria, eram pessoas com um alto intelecto e aptidão física… Dentre todos, é válido destacar um.

Considerado um herói pela sua excelente esgrima, correu o mundo, indo às regiões mais remotas com seus amigos, fundando inclusive sua própria aldeia totalmente isolada da influência da Igreja Axiom, tal era seu ódio e aversão aos ideais dela. E o motivo que levou esse grande espadachim a ser um dos primeiro a ser capturados pela igreja foi quando acabou cruzando a cadeia de montanhas que separa o Mundo Humano e pisado no Dark Territory.

Ao invés de ser executado, foi recrutado como o primeiro e mais leal comandante da escolta particular da Administrator. ”

Aquilo soou como algo que já havia escutado antes, mas não interrompi as palavras de Cardinal.

“A maioria das memórias desses espadachins foram danificadas pelos experimentos, mas ao invés disso virar um problema, acabou dando uma enorme vantagem à Administrator.

Ela decidiu que qualquer memória anterior a sua captura era descartável. Então, usou um objeto que obriga a pessoa a ter lealdade incondicional para com ela e a Igreja Axiom, chamou esse objeto de Pietry Module, ou módulo de devoção. Essa coisa se parece com… um pequeno prisma mais ou menos desse tamanho…”

Cardinal fez um gesto abrindo as mãos, mostrando um vão de uns dez centímetros entre elas.

Senti uma sensação como se uma descarga elétrica estivesse passando pelo meu corpo ao imaginar que objeto era aquele. Tinha visto essa coisa poucas horas atrás.

“…No Synthesis Ritual, esse prisma é inserido na testa da pessoa. Ao fazer isso, a alma que teve suas memórias arrancadas, se une com as recordações fabricadas contidas no objeto. Com isso, também é garantido uma nova personalidade.

Ao final desse processo, nasce um guerreiro supremo que jura lealdade absoluta a igreja e ao Administrator, atuando unicamente pelo bem e preservação desse mundo…

Quando tudo termina, a Administrator nomeia essa pessoa como sendo um Integrator, aquele de dispersa a desordem e preserva a integridade, unificando tudo à igreja.

Se vocês subirem a catedral, a possibilidade de encontrar o mais antigo e poderoso dos Integrity Knight é bem alta, portanto, é bom lembrar de seu nome.”

Cardinal observou meu rosto por alguns instantes de prosseguiu.

“O nome desse guerreiro é… Bercouli Synthesis One.”

“M-Mas isso é… impossível!!”

Neguei com total incredulidade enquanto Cardinal franzia a testa.

Mas esse era o nome do grande herói que Eugeo admira tanto. Ele era o valente guerreiro da primeira geração daqueles que deixaram a vila de Rulid. O mesmo que explorou a Borda da Cadeia de Montanhas e roubou a Blue Rose Sword do dragão branco que protegia o Mundo Humano…

Bercouli.

Imaginava que Eugeo desconhecesse o que havia acontecido com Bercouli nos últimos anos de sua vida. Talvez ele tenha suposto que seu herói voltou para Rulid e permaneceu lá até a velhice.

A ideia de Bercouli sendo preso pela Igreja Axiom a mando da Administrator e sendo remodelado como o primeiro Integrity Knight provavelmente era algo impensável para o meu amigo.

“Cardinal, como você sabe, mesmo Eugeo e eu unindo forças para lutar contra Eldrie, tivemos uma tremenda dificuldade… e olha que ele era o trigésimo primeiro guerreiro… Como você espera que enfrentemos o número um?”

A pequena sábia apenas deu de ombros como se não fosse nada de importante.

“Não pode ficar tremendo só com a ideia de lutar contra Bercouli. Como você mesmo disse, existem trinta e um Integrity Knight para encarar.”

Trinta mestres espadachins mais fortes do que Eldrie…

Enquanto desviava o olhar de Cardinal, falei.

“Agora que disse, mesmo sendo tantos, não os vi em lugar algum. Além de Eldrie, havia somente um que estava montado em um dragão voador. ”

“Naturalmente que não os viu. Acima de tudo, o principal dever dos Integrity Knight é a defesa do Mundo Humano. Para isso, eles ficam patrulhando os limites da montanha que circundam todo esse território. Eles só vêm até a cidade quando aparece um grande criminoso e desafia o Índice de Tabus, algo que não acontece há pelo menos dez anos.

Fora isso, nem os nobres ou as famílias imperiais tem a chance de verem um Integrity Knight ao vivo… Pode-se dizer que existe uma barreira invisível entre as pessoas e esses guerreiros que os mantém afastados.”

“Humm… então, isso significa que a maioria deles estão nas montanhas?”

Cardinal negou com a cabeça.

“Não diria que são a maioria. O número de cavaleiros despertos na catedral nesse momento deve ser uns doze mais ou menos. Se você e Eugeo querem alcançar seus objetivos, obviamente, não terão outra opção a não ser irem derrotando um por um até chegar ao último andar.”

“Creio que realmente não temos alternativa…”

Afundei na cadeira enquanto deixava escapar um suspiro.

Para colocar em termos de RPG, me sinto como se acabasse de chegar na última dungeon absolutamente desprovido de equipamento e nível necessário. Certo, fiz todo esse trajeto até a capital Centoria Central com o intuito de enfrentar todos até conseguir chegar ao último andar e poder contatar o mundo real, mas sinto, honestamente, que a diferença de habilidade de combate entre nós e os Integrity Knight é algo incomparável.

Fiquei em silêncio enquanto olhava para meu peito. Graças a comida que Cardinal me deu, a ferida que havia recebido do Armament Full Control Art do Integrity Knight Eldrie, havia sido curada completamente, mas ainda podia lembrar daquela dor aterradora.

Dificilmente os próximos guerreiros iriam lutar de maneira normal, já que se supõe que sejam mais fortes do que Eldrie…

Pensando nisso, ainda estou curioso sobre o que ocorreu no final daquela batalha nos jardins de rosas.

O Integrity Knight estava sofrendo, de maneira súbita, afetado por uma imensa dor quando ouviu coisas sobre a sua história antiga, o nome de sua mãe pronunciado por Eugeo. Só a menção já o fez cair sobre os joelhos. E então, o prisma transparente emergiu de sua testa, cheio de uma luz púrpura, o Pietry Module, exatamente como Cardinal falou.

Aquilo era o objeto chave usado para alterar as memórias dos Integrity Knight, transformando-os em escravos totalmente leais ao Alto Ministro.

Mas será que a influência daquele objeto era realmente tão absoluta quanto Cardinal descreveu? Eldrie pareceu ser liberto de sua programação por alguns instantes após ouvir o nome de sua mãe…

Se esse mesmo fenômeno puder ser repetido nos outros guerreiros também… isso significaria que existe outra medida para enfrentá-los além de simplesmente cruzar espadas com eles. E também, abre a possibilidade de realizar o desejo de Eugeo e fazer a Alice voltar a ser quem era.

A voz calma de Cardinal chegou aos meus ouvidos enquanto estava imerso em pensamentos.

“Ainda não cheguei ao final da história, posso continuar?”

“Ah! Sim, por favor…”

“Muito bem, agora que a Administrator havia criado vários Integrity Knight além de Bercouli, a oportunidade de um ataque surpresa estava… próximo a zero. Mesmo que eles não estejam no mesmo nível dela, definitivamente possuem habilidades ofensivas e defensivas suficientemente fortes para me causarem problemas caso atacassem todos juntos. Claro que poderia eliminá-los, porém, perderia o fator surpresa. Dessa forma, permaneci nesse impasse com a batalha em um hiato eterno…”

Parece que a história de Cardinal estava finalmente chegando a sua conclusão. Me endireitei na cadeira e me concentrei em suas palavras.

“Com mudanças no rumo das coisas, compreendi que precisava de aliados. Porém, encontrar pessoas dispostas a lutar ao meu lado contra a soberana desse mundo, não seria uma tarefa fácil.

Para começo de conversa, deveriam ter um alto coeficiente de transgressão, suficientemente forte para quebrar o Índice de Tabus, assim como uma excelente habilidade de combate e domínio no uso das artes sagradas, ao nível de um Integrity Knight.

Com essa ideia em mente, me arrisquei e abri uma porta o mais longe que consegui e usei uma arte um pouco diferente, a Consciousness Sharing, ou compartilhamento de consciência, nos pássaros e insetos mais próximos e os enviei por todas as partes do mundo.”

“A..Ahh!! Então eles funcionaram como seus olhos e ouvidos correto? Foi assim que ficou me observando?”

“De fato.”

Cardinal sorriu e levou sua mão direita à frente. Virou sua palma para cima e curvou um pouco os dedos, chamando alguém. Então…

“Uaaaaah!!!?”

Nesse momento um objeto extremamente minúsculo saltou de minha franja, aterrissando na palma da mão de Cardinal sem fazer nenhum som. Quando olhei para aquele pequeno ponto, percebi de que se tratava da menor aranha que vi em toda minha vida.

Ela agilmente se virou para mim e ficou me encarando com aqueles dois pares de olhos vermelhos escuros no alto de sua cabeça. Momentos depois ergueu a patinha direita mais à frente de seu corpo e me deu um tchauzinho… ou assim me pareceu.

“Seu nome é Charlotte. Ela esteve sempre com você todo esse tempo, lhe observando e analisando profundamente. Sua maneira de falar, seu comportamento diante das outras pessoas e situações.

Está lhes acompanhando desde quando deixaram a vila de Rulid. E ao que parece, durante esse período, por vezes ela fez mais do que apenas observar, não é?”

A pequenina aranha retraiu em suas oito patinhas, encolhendo mais ainda diante do comentário de seu mestre Cardinal.

Ao ver aqueles movimentos delicados me dei conta de que eram os mesmos que haviam me guiado por diversas vezes para o caminho certo, inclusive quando estava tentando escapar do Integrity Knight e seu dragão há poucas horas atrás.

Sempre que estive em problemas, nos momentos mais importantes, inclusive quando entrei naquele torneio de espadachins em Zakkaria e também quando ingressei na academia em Centoria. Ela estava lá…

“Então… aqueles puxões no cabelo que senti por várias vezes, não tinha nada de inspiração divina, não é?”

Minha mente agora trabalhando a todo o vapor para lembrar os momentos que senti a pequena, porém preciosa presença no alto da minha cabeça, em especial uma e a que considero até agora a mais importante.

Incapaz de conter isso por mais tempo, me inclinei até a pequena aranha negra, com não mais do que cinco centímetros e sussurrei:

“F-Foi você também que naquela ocasião do corte das flores de Zephyrias… me animou e me guiou para que elas revivessem, não é?”

Aquela linda voz ainda permanecia em minha memória. Era o timbre de uma mulher adulta, talvez essa aranhazinha diante de mim tenha a personalidade de uma mulher, assim como sugere seu nome, Charlotte. Será que um ser que nem é humano, possa ter uma alma… um fluctlight?

Enquanto pensava sobre isso, Charlotte não disse uma palavra, apenas ficou me olhando por um tempo. Depois saltou da palma da mão de Cardinal, correu absurdamente rápido pelo tablado da mesa, alcançou o piso e desapareceu de vista.

Cardinal, observou seu pequeno familiar saindo assim que foi despachado e depois falou em tom gentil.

“Charlotte é a mais antiga unidade de observação que enviei para o Mundo Humano. Seu longo, longuíssimo dever finalmente terminou. A degeneração de sua vida estava congelada, portanto, deve ter vivido por mais ou menos duzentos anos. Me serviu bem… muito bem…”

“Unidade… de observação…”

Sussurrei enquanto olhava mais uma vez por onde Charlotte tinha ido. Para ela deve ter sido somente um dever a ser cumprido, porém, nesses dois anos desde que deixei Rulid, Charlotte, que permaneceu por entre meus cabelos, me dando avisos ocasionais, me confortando e me incentivando, fez com que eu a considerasse uma companheira, uma amiga de viagem como é Eugeo, mesmo que não a tivesse notado como de fato ela era, mas somente sua presença já era… reconfortante.

“Obrigado.”

A agradeci do fundo do meu coração, fazendo uma reverência típica dos japoneses.

Depois disso, olhei para Cardinal e perguntei:

“Então, quer dizer que você ficou trancada nessa biblioteca por duzentos anos enquanto buscava, através dos olhos e ouvidos de seus familiares, um humano digno de ser um colaborador?”

“Sim. Infelizmente estando nesse lugar, fico incapaz de verificar os coeficientes de transgressões dos humanos. Assim, quando qualquer notícia de algum incidente peculiar chega ao meu conhecimento, mando minhas unidades irem até lá e observarem as pessoas que causaram o problema… e tenho feito isso desde então.

Por muitas vezes vi humanos que chamaram minha atenção serem capturados pelos Integrity Knight diante de meus olhos, sem que eu conseguisse fazer alguma coisa. Posso até não ter emoções, mas conheço muito bem o significado das palavras decepção e perseverança. E mais do que nunca, nesses anos todos que passei aqui, essas duas simples palavras foram uma constante dentro de mim…

Honestamente? Já estava quase me acostumando com a ideia de que não tinha mais o que fazer e que talvez fosse melhor encarar que tinha sido derrotada. A palavra rendição era outra constante que surgiu dentro de mim nesses últimos dez anos.”

Um sorriso triste, com um peso de duzentos anos se formou nos pequenos lábios de Cardinal.

“Enquanto estava sentada nessa sala, apenas observando o mundo, a Administrator desenvolveu o mais eficiente sistema para assegurar que somente os melhores guerreiros fossem se tornar os próximos Integrity Knight. E era nesse exato sistema que você e Eugeo estavam envolvidos.”

“Eu já estava suspeitando sobre isso. Que o espadachim que conseguisse a vitória no maior torneio desse mundo não seria honrado com o direito de se tornar um Integrity Knight e sim…”

“Que ele seria convertido em um soldado da igreja independente de sua vontade. Seria transformado na mais forte das marionetes, com suas memórias seladas e prestando obediência cega ao Alto Ministro e a Igreja Axiom.

Enquanto que a família que contribuía para esse aumento nas fileiras dos Integrity Knight recebiam dinheiro suficiente para viver como reis, ao mesmo tempo que também recebiam títulos de aristocracia de altíssima classe. É devido a isso que todos os nobres e outras famílias com bom poder aquisitivo se empenham tanto em estudar esgrima.

E para que tudo desse certo nesse grande plano, os recém-formados cavaleiros era alocados para terras distantes longe do contato com suas famílias, cortando de vez suas conexões com o passado.”

“Ah! Então… foi isso que você quis dizer com ‘uma barreira invisível entre as pessoas e os Integrity Knight’…

“Exatamente…”

 

ENFIM, O OBSERVADOR SE MOSTRA E SE CHAMA CHARLOTTE!

QUE TIPO DE PLANO VAI SAIR DA CABEÇA DESSES TRÊS? A ÚNICA COISA QUE SAIU ATÉ AGORA FOI UMA ARANHA… 

(Eita trocadilho infame… ¬_¬)

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