Sword Art Online Alicization Turning em Português – Underworld – Capítulo 6 – Parte 3.1

Arco: Alicization – Turning

Parte 3

Sword Art Online - Alicization - Cardinal System - Turning vol11

Além da porta havia um espaço inacreditavelmente amplo.

“Waaaaaah!?”

Dei três voltas no ar, gritando vergonhosamente antes de entrar em contato com uma superfície. Estranhamente o chão era tanto… elástico. E após essa pequena queda, caí sentado no piso.

Eugeo desceu instantes depois quase da mesma maneira. Sacudimos a cabeça enquanto tentávamos olhar ao redor e procurando recuperar o equilíbrio.

“Mas… o quê…?”

As palavras de Eugeo eram perfeitamente adequadas para a situação. Deveríamos termos saído do outro lado do labirinto ao passar por aquela porta, mas não foi o que tinha acontecido.

As paredes, o chão e o teto do corredor onde estávamos, eram feitos inteiramente de madeira de aspecto envelhecido. Explicando que a elasticidade sentida na hora da queda era devido a madeira ter envergado com nosso peso. Provavelmente teríamos sofrido uma grande redução de vida se fosse um piso de pedra.

A passagem continuava por uns dez metros ainda, com uma pequena luz alaranjada em seu final. Até o ar que nos rodeava não era mais o frio e úmido do jardim, ele agora adquirira um odor seco que recordava muito… papel velho.

Onde exatamente fica isso…?”

Foi o que pensei na hora, enquanto ouvia um rangido metálico mais acima e atrás de mim.

Uma escada de madeira simples, extremamente inclinada entrou em meu campo de visão no momento em que virei, com uma porta no lance mais alto e uma pequena forma humana visível, parada em sua frente.

Esqueci por um tempo da dor do meu peito e tentei levantar normalmente, porém, meu pé direito me fez cambalear para o lado.

E usando a lateral dessa escada, comecei a subir lentamente.

Aquela porta lá no alto parecia ser feita de bronze momentos antes de cruzarmos, mas agora, claramente se via como sendo de madeira. Porém, em contraste com os demais materiais ali, a madeira dessa porta parecia ser bem nova.

Quando estava próximo a pessoa que permanecia de costas, no alto da escada, esta levou a mão para trás, como se estivesse me dando uma ordem de parada. E segurando nessa mesma mão, um grande molho de chaves de bronze. Supus que o som metálico que ouvi a pouco era essa pessoa chaveando a porta.

“…Erm…”

E quando ia continuar com a pergunta básica ‘quem é você?’, ouvi o som como se uma pequena criatura estivesse se arrastando do outro lado da porta fechada.

Um calafrio passou pela minha espinha.

“…Hum, entendi. Então esse backdoor foi danificado.”

Foi o que aquela pessoa misteriosa sussurrou enquanto fazia sinal para que eu não fizesse barulho e me guiando para retrocede. Obedeci e desci da escada voltando para o lado de Eugeo que já havia levantado.

Com a pouca iluminação do lugar, distinguia pouca coisa de sua silhueta, apenas que com aquele grande chapéu e sua túnica preta, me lembrava muito os magos dos jogos que costumava jogar, ainda mais com aquele monte de chaves que possuía e um cajado que levava em sua mão esquerda com quase seu próprio tamanho.

Assim que desceu da escada, balançou esse ‘cajado mágico’ nos apurando para que nós a seguíssemos dizendo:

“Minha nossa! Deixem de lerdeza e caminhem de uma vez! Vamos para o final desse corredor!”

Realmente minha suposição devia estar correta, mesmo essa pessoa parecendo ser apenas uma pequena menina, emanava uma aura de solenidade e autoridade muito maior do que a supervisora Azurika.

Sem ter objeções, Eugeo e eu fomos até a luz orientados pela menina. Saindo da estreita passagem, nos deparamos novamente com outro lugar estranho.

Era um cômodo muito grande com várias lamparinas acesas nas laterais das paredes piscando calmamente.

Não havia nenhum objeto que pudesse ser chamado de móvel, apenas uma grande porta na parede logo a nossa frente.

Enquanto olhávamos na volta, a garotinha cruzou por nós e levantou o cajado apontando para o corredor ao qual tínhamos vindo.

“Lá!”

Essa jovem ou talvez uma anciã fez um rápido movimento e…

Quando achei que não teríamos mais nenhuma surpresa, um fenômeno nos deixou totalmente estupefatos. As paredes da esquerda e da direita começaram a se mover uma em direção a outra, causando tremores em todo o local.

O corredor que tinha aproximadamente dez metros se fechou em poucos segundos e no final, somente uma parede de madeira lisa havia sobrado. Não havia mais rastros de que alguma vez houvesse um corredor ali.

Se aquilo fosse uma arte sagrada, certamente era uma de nível absurdamente elevado. Um grande número de comandos e uma alta prioridade de acesso ao sistema deveriam ser necessários para mover a massa combinada de todos esses objetos.

A parte mais surpreendente era que essa garotinha havia feito isso com apenas uma palavra e nem sequer tinha sido o tradicional ‘system call’ que deveria, segundo os ensinamentos da academia, aparecer em todas as artes sagradas.

“Humpf!”

A menina deu um pequeno suspiro com ar de aborrecimento e baixou seu bastão até tocar o chão. Sua expressão fez parecer que aquilo era algo muito comum e corriqueiro.

Finalmente, depois disso, ela finalmente se voltou para nós.

Olhando-a de perto novamente e aproveitando o ambiente mais iluminado, pude perceber os traços delicados de seu rosto, parecendo com os de uma boneca. Sua túnica e chapéu negros tinham um leve brilho aveludado, realmente reforçando o visual de um mago ou velho ancião, mas seus lindos cabelos ondulado castanhos de tamanho médio saindo de sua cobertura, juntamente com a alva pele branca, demonstrava que se tratava mesmo de uma jovem garotinha.

O traço mais marcante dela eram sem dúvidas os olhos brilhantes atrás daqueles óculos redondos. Todo esse conjunto davam à ela um ar de enorme sabedoria e conhecimento.

Simplesmente um único foco naquele olhar me fazia sentir mergulhar em um poço sem fundo. Era impossível deduzir o que ela estava pensando.

De qualquer maneira… essa garotinha realmente tinha nos salvado do ataque do Integrity Knight, dessa forma, lhe devíamos no mínimo um agradecimento. Então, baixei um pouco minha cabeça e disse:

“Erm… muito obrigado por nos salvar e…”

“Ainda não tenho certeza se salvar vocês valeu todo esse esforço.”

Foi uma resposta muito irritante, quase perco a linha e respondo atravessado, mas sabia que não era a hora nem o momento. Por isso, geralmente deixava as conversações com as pessoas a cargo de Eugeo.  Foi algo que aprendi nessa longa viagem. Então, dei um cutucão em meu amigo, para que ele assumisse, antes que acabasse falando alguma bobagem.

Rapidamente, Eugeo se inclinou jogando alguns pingos de água para frente que ainda escorriam de seus cabelos molhados e começou com a apresentação usual.

“B-Bem… é um prazer conhecê-la, meu nome é Eugeo e ele se chama Kirito. Realmente, muito obrigado por nos ajudar. Você… você vive… nesse quarto!?”

Pelo visto, meu amigo também estava confuso. A garota fez uma expressão de surpresa e ajustou as lentes em seu nariz antes de responder.

“E como isso seria possível? É claro que não… agora, me sigam!”

A seguimos enquanto se virava e começava a caminhar até a grande porta na outra parede.

Com um simples movimento de seu cajado, a porta se escancarou, assim como nossos queixos de espanto.

E mais uma vez, ao passarmos pela porta, entramos em outro local surpreendente e enigmático.

Estávamos agora, em uma super-mega-gigantesca biblioteca. Não havia outra forma de definir.

As imensas estantes abarrotadas de livros do chão ao teto se estendiam infinitamente em um enorme espaço circular separados em andares, escadas e passadiços. Cada um desses passadiços levavam para mais outras aberturas que possivelmente levavam para outros conjuntos de milhares de estantes. Realmente, era livro que não acabava mais, formando outros labirintos, que diferente daquele que escapamos, esses tinham um incontável número de andares. Tentei mensurar o seu tamanho fazendo a correspondência a algum edifício no mundo real, porém não me ocorreu nenhum que ganhasse ou sequer se comparasse com o local onde estávamos.

Também fiquei tentando calcular onde essa biblioteca se situava dentro do terreno da igreja, porém, não havia modo dessa estrutura colossal se encaixar no que tinha visto da propriedade onde estava a grande torre e demais edifícios, superava em muito a área da prisão e do labirinto de rosas. Não conseguindo mais me conter, acabei perguntado:

“Esse lugar… por acaso ele fica dentro da Catedral Central?”

“Hummm, pode-se dizer isso, porém, não está totalmente correto.’

Percebi que a menina tinha dito isso com um certo tom de satisfação na voz.

“Como eu selei a porta original, a Grande Sala da biblioteca virtualmente não existem mais dentro da Catedral Central, porém, não é como se o acesso esteja realmente impedido. Tudo depende de… um convite meu…”

“Grande… Sala da biblioteca?”

Eugeo murmurou enquanto olhava atônito ao seu redor.

“Sim. Esse lugar guarda a memória de toda a história da criação desse mundo, a fórmula estrutural de tudo que existe e todos os System Commands que as pessoas erroneamente chamam de artes sagradas.”

“…System Commands!?”

Mal podia acreditar no que meus ouvidos captavam enquanto olhava fixamente para a pequena garota. As palavras acabaram escapando de meus lábios…

“Qu… quem é você… exatamente?”

A garota então, com um sorriso de quem entendia o motivo do meu choque, disse seu nome.

“Meu nome é Cardinal. Sou quem uma vez comandou, regulou e monitorou esse mundo, mas agora… sou apenas o único bibliotecário da Grande Sala…”

Cardinal!!!

Minha mente disparou ao dizer silenciosamente esse nome.

Até onde sabia, essa nomenclatura tinha três significados.

O primeiro, se traduzido do inglês, cardeal, ele era uma alta posição da igreja católica no mundo real. Em japonês o nome dado era suukikyou.

O segundo, era o nome de um pássaro da família Fringillidae. Também chamado de Shuujyoukoukanchou em japonês, com plumas em todo seu corpo e com uma crista escarlate como os chapéus dos cardeais católicos, daí a origem de seu nome.

E o terceiro… o programa altamente autônomo e funcional criado por Kayaba Akihiko para administrar os jogo VRMMO, o Sistema Cardinal. Sua primeira versão foi usada para SAO, controlou magnificamente o balanceamento monetário, itens e monstros dentro de Aincrad, manipulando todos os jogadores com o mínimo de esforço.

Kayaba escaneou seu cérebro com o protótipo do STL e faleceu logo que SAO fora terminado, mas comprimiu o Sistema Cardinal criando o ‘The Seed’, um pack de ajuda para o desenvolvimento de novos VRMMO genéricos.

The Seed foi enviado por todas as partes da internet pela vontade dos programas de pensamentos replicados desejados por Kayaba no espaço digital e isso culminou na criação de Gun Gale Online e muitos outros jogos de sucesso.

Mesmo tendo a versão original do The Seed em mãos e tendo a estudado tanto antes quanto durante a sua distribuição, ainda assim não consegui chegar a uma conclusão satisfatória sobre os reais motivos de Kayaba em querer criar e espalhar tais programas pelo mundo digital.

Duvido que ele, dentre todas as pessoas a criar um mundo virtual, tenha feito isso com a intenção de se redimir de todos seus crimes no incidente de SAO, mas…

Em todo o caso, essa garota diante de meus olhos está querendo dizer que é o próprio Sistema Cardinal encarnado em forma humana?

Era perfeitamente possível que ela fosse um Fluctlight Artificial com um alto cargo na Igreja Axiom com o nome de Cardinal. Mas essa menina sem dúvida nenhuma disse que comandava, regulava e monitorava esse mundo.

Mas…, porque diabos o Sistema Cardinal está nesse mundo? Será que o Underworld também foi produzido utilizando o The Seed? Mas se for assim, porque o sistema que deveria estar controlando tudo no mais baixo nível como a ‘mão de Deus’, assumiu agora a forma humana?

Diferente de Yui, o programa de orientação, Cardinal não deveria ter nenhuma capacidade de conversação com os jogadores.

Enquanto permanecia imóvel, perdido nas infinitas perguntas que inundavam minha mente, Eugeo falou com a voz embargada ao meu lado, talvez estivesse surpreso com essa revelação, porém, de uma forma diferente da minha.

“Toda… a história? As crônicas da fundação dos quatro impérios estão aqui…!?”

“E isso não é tudo. Inclusive a história da criação do mundo quando os deuses, Stacia e Vector, dividiram o mundo humano e o território da escuridão. Está tudo gravado aqui.”

Eugeo, que adorava tudo que era relacionado com a história do mundo, chegou a tontear ao ouvir o relato dela. A garota que dizia se chamar Cardinal pareceu gostar dessa reação de Eugeo enquanto ajustava os óculos mais uma vez um com um sorrisinho nos lábios.

“A história que tenho que contar para vocês tomará bastante tempo, que tal se fossem comer algo antes e descansar? Se desejarem, podem ler os livros que quiserem dessa estante aqui.”

Com um pequeno movimento de seu cajado, uma mesa surgiu ao nosso lado. Sobre ela, sanduíches, pastéis, bolinhos, salsichas com aparências e aromas saborosíssimos estavam prontos nos esperando.

Foi um ótimo e estimulante atrativo para o estômago. Pois havendo comido somente um pão muito duro e uma sopa aguada desde a noite anterior, qualquer coisa minimamente comível seria uma tentação.

Eugeo parecia se sentir um pouco culpado ao saborear a comida e a leitura enquanto deveríamos estar procurando uma solução para salvar Alice.

Ao me olhar com essa expressão, só pude dar de ombros e falar:

“Tivemos uma grande batalha contra Eldrie e fomos bem, porém não temos como ganhar no momento do outro Integrity Knight com o arco montado no dragão voador. Vamos descansar um pouco aqui e revisar nossas táticas. Esse lugar parece seguro para recuperar um pouco da nossa vida que se reduziu.”

“Sim. E há encantamentos nesses alimentos que irão curar suas feridas e cansaço imediatamente. Mas antes disso, estendam suas mãos direitas.”

Eugeo e eu obedecemos e levamos as mãos ainda presas pelas correntes para frente.

Com dois movimentos daquele cajado, os anéis de metal se romperam facilmente e caíram no solo juntamente com o que restavam das correntes.

Eugeo parecia ainda mais confuso conforme esfregava seu pulso e tremia um pouco. Ele havia caído de cabeça no fundo daquela fonte de águas gelada durante a batalha contra Eldrie, de maneira que, com a diminuição crescente de sua vida, baixou sua imunidade no combate às doenças, então, uma gripe não estava descartada, já que ainda estava completamente ensopado.

“Creio que será melhor aquecer seu corpo antes de continuar a comer. Mesmo sendo pequeno, tem um quarto com uma banheira de água quente no final desse corredor, naquele passadiço. Vá até lá, a comida e os livros não irão fugir, estarão aqui quando você voltar.”

Talvez, devido a sua índole gentil, tenha pensado que estava abusando da hospitalidade, mas finalmente Eugeo assentiu com a cabeça e disse:

“…Muito obrigado, permita-me então aceitar a sua gentil oferta, senhorita Ca-Cardinal… Ma-Mas antes…, poderia me mostrar onde estão os registros sobre a criação do mundo?”

Cardinal levantou o rosto apontando para o canto de um dos conjuntos de estantes próximo a nós.

“A galeria da história que procura está bem ali, atrás daquela escada.”

“M-Muito obrigado!!!… E mais uma vez, desculpe.”

Após fazer uma breve reverência, Eugeo deu meia volta e despareceu na passagem entre as estantes.

Cardinal ficou olhando suas costas e disse em voz baixa:

“…Lamentavelmente, os registros sobre a criação do mundo foram escritos pelos escribas da Igreja Axiom, seguindo a narrativa do Alto Ministro.”

Cheguei mais perto daquela menina e falei baixinho.

“Então… realmente não existe nenhum deus nesse mundo, correto? Nem Stacia, Solus, Terraria e … muito menos Vector, não é?

“Exatamente, eles não existem.”

A sua resposta foi muito concisa.

“A lendas criadas pelas massas de Underworld foram fabricadas e propagadas com o puro intuito de manter o controle da igreja sobre todos. Os nomes desses deuses, são meramente super contas utilizadas para casos de emergência, mas nenhuma delas foram ativadas por um humano depois que a sessão desse mundo foi iniciada.”

Por mais insignificante que fosse, essas simples palavras fizeram boa parte de minhas dúvidas desaparecerem. Então, olhando fixamente em seus grandes olhos castanhos, falei:

“Você não é um habitante de Underworld, certo? É uma existência similar aos de fora desse mundo… alguém como um… analista de sistemas.”

“Sim. E isso se aplica a você também, registrado externo número um, Kirito.”

“…Sim, isso mesmo.”

Passados dois anos e dois meses desde que acordei neste mundo. Sempre mantive a convicção de que esse não era um mundo paralelo e sim um grande mundo virtual gerado pelos seres humanos do mundo real.

Uma intensa emoção que nem eu esperava que pudesse sentir brotou em meu peito. Respirei fundo e soltei todo o ar dos pulmões.

Haviam muitas perguntas que queria fazer, tantas que era difícil de começar. Porém, ainda tinha que confirmar algo antes.

“Quem criou Underworld foi o RATH… R, A, T, H, certo?”

“De fato.”

“E você é o sistema Cardinal. Um programa autônomo com o propósito de controlar, regular e monitorar o mundo virtual.”

Os olhos da menina tremeram levemente quando disse isso.

“Certamente, foi isso que eu disse logo de início.”

“Então, você tem entrado em contato com os outros de minhas… espécie nesse lado?”

“…Bem, posso dizer que sim.”

Isso adianta muita coisa. Em outro momento, esse programa que agora tinha tomado forma humana, era meu principal inimigo com o qual lutei por dois anos em Aincrad. Mas provavelmente não seria capaz de entender isso, mesmo se mencionasse.

“Ainda assim… pelo que me lembro, o Sistema Cardinal não deveria ter uma interface personalizada no pack de construção. De maneira que… quem é você agora? E o que está fazendo em um lugar como esse?”

Cardinal deu um leve sorriso triste em resposta às minhas perguntas consecutivas. Enquanto ajustava seus cabelos ondulados que caiam aos ombros, falou com uma voz doce e suave.

“Contar essa história levaria muito, muito tempo… A razão pela qual me isolei nessa grande biblioteca juntamente com a razão pela qual estive esperando todo esse tempo para contatar você … levará mais tempo do que se pode imaginar. ”

Ela ficou em silêncio por um momento, como se tivesse receosa em falar algo, mas depois levantou o rosto e continuou.

“Vou tentar resumir… Em primeiro lugar, é melhor que coma para regenerar esses ferimentos. Estão doendo, não é?”

Com tudo o que aconteceu, tinha até me esquecido da dor. Mas tudo voltou a latejar e arder no momento em que ela os mencionou.

Sem mais o que fazer me pus a comer. Realmente estava faminto e comecei a devorar aqueles deliciosos alimentos desesperadamente. Alguns deles me lembraram muito os pães, bolos e pasteis que comprava no comércio à volta da academia.

E exatamente como ela disse, conforme fui comendo, a dor foi desaparecendo pouco a pouco, gradativamente. Provavelmente em virtude dos comandos regenerativos que Cardinal havia comentado antes. Quando percebi, não haviam restado sequer cicatrizes dos cortes.

“…Como era de se esperar do programa supervisor capaz de manipular os parâmetros da comida, hein!?”

Cardinal, ao ouvir isso fez apenas um som.

“Humpf!”

“Você se engana em dois aspectos. Eu atualmente não sou a supervisora de nada. Tudo o que posso fazer no momento é manipular os objetos dentro dessa biblioteca.”

Girando de costas, caminhou até uma das passagens. Corri para segui-la enquanto metia o que podia daquela deliciosa comida nos bolsos. Olhei para onde Eugeo tinha ido, calculando que ele iria demorar um pouco até terminar de tomar banho e se aquecer para evitar pegar um resfriado, porém…

“…Calma aí! Se você pode curar até feridas com essa comida…, não pode simplesmente evitar que Eugeo fique doente?”

Quando disse isso, Cardinal me olhou de canto de olho com um sorrisinho nos lábios. Ao que parece, ela queria conversar comigo longe de Eugeo, então usou a história do banho para afastá-lo sem suspeitas.

Continuei seguindo a pequena sábia por uma infinidade de bifurcações, tanto que acabei perdendo a referência de onde tinha vindo inicialmente.

Quando a comida já tinha desaparecido em meu estômago, chegamos em um espaço aberto com uma mesa e duas cadeiras bem antiquadas no centro.

Calmamente e em total silêncio Cardinal sentou em uma dessas cadeiras apoiando seu cajado em sua lateral. Pegou uma xícara de chá que havia aparecido magicamente sobre o tablado da mesa e começou a beber tranquilamente quando, enfim, quebrou o silêncio.

“Alguma vez pensou sobre isso? Sobre a razão da existência desse feudalismo nesse mundo artificial pacífico?”

Recordei do significado da palavra feudalismo que Cardinal havia usado, mas demorei um pouco para entender o que queria dizer.

Feudalismo. Era uma estrutura de governo onde a terra estava nas mãos dos nobres como senhores ou reis que controlavam tudo ao seu redor. Em resumo, o tipo de regime totalitário muito comum visto em histórias de fantasia e jogos. Dito isso, é mesmo muito raro encontrar locais onde isso não era utilizado. Imperadores, reis, condes, barões e todo aquele sistema de classes como havia na Idade Média.

Não há dúvidas de que Underworld usa um sistema baseado totalmente na Europa da Idade Média, porém, nunca estive frente a frente com esses nobres de alta classe como imperadores, portanto, não sabia inteiramente a extensão da pergunta de Cardinal.

Respondi da maneira mais simples que consegui.

“Bem… talvez porque os criadores quiseram que fosse assim?”

“Muito bem dito…”

Mesmo tendo falado isso, sua expressão ao torcer o canto da boca demonstrava que refutava completamente a minha resposta e estranhamente parecia que já esperava essa minha conclusão.

“Os seres humanos de fora que deram vida a esse mundo, não criaram nada mais do que uma simples casca vazia. Os que produziram a estrutura atual da sociedade não foram seus distintos habitantes, mas as massas de Underworld.”

“Entendi…”

Depois de assentir lentamente com a cabeça, finalmente lembrei de algo que queria confirmar. A garota reconheceu a existência de RATH no mundo real. Se esse é o caso, então…

“E-Espere um pouco. Você consegue contatar o mundo real? Tem meios para se comunicar com o outro lado?”

Perguntei com um pouco de impaciência, mas Cardinal negou desconcertada.

“Não faça perguntas idiotas, se fosse capaz disso, não teria ficado trancada em um lugar embolorado como esse por centenas de anos. Infelizmente, aquela pessoa é a única que agora tem os meios… me refiro ao nada mais nada menos do que o Alto Ministro.”

“E-Entendi…”

Fiquei curioso em saber mais sobre o Alto Ministro, mas isso poderia ficar para mais tarde, pois tinha que me agarrar na última esperança que me restava. Então…

“Bem, mas pelo menos pode me dizer qual é o dia e mês no mundo real, nesse momento… ou talvez onde está meu corpo…?”

“Ai, ai… sinto muito, não sou capaz de acessar os domínios do sistema na situação em que me encontro. Mesmo utilizando todos os parcos recursos que tenho, a quantidade de dados que consigo obter é insignificante. De fato, sou uma existência muito mais impotente do que aquela versão do Cardinal que você conheceu no outro lado.”

Me senti um pouco mal ao ver a pequena Cardinal com uma expressão tão deprimida. Sua aparência infantil só deixava as coisas piores, mas sacudi a cabeça para evitar pensar muito nisso, tinha que continuar.

“Não, deixe para lá. Só o fato de saber que o mundo real existe já foi muito mais do que eu poderia esperar. Me desculpe se minhas perguntas lhe causaram problemas… Vamos voltar ao seu assunto, você falava sobre a razão por trás do feudalismo não é?”

Retomando o tema anterior da conversa, fiz uma pequena pausa e continuei.

“Isso seria… porque alguém tinha que supervisionar a manutenção da ordem pública, a distribuição dos produtos e coisas assim, não?”

“Exato. Porém, provavelmente sabe que não é só isso. Os habitantes desse mundo, no geral, não se opõem as leis. Não existem atos que causem danos, assim como não existe o conceito de roubo ou monopólio de cultivos.

Diligência e imparcialidade estão profundamente incrustrados no cerne de cada um, então lhe pergunto…, porque mesmo com isso tudo, não foi desenvolvido uma sociedade mais comunista? Em uma população como a que tem esse mundo, com somente cem mil aproximadamente, com um grande sistema de classes, compondo quatro imperadores e mais milhares de nobres que se autodenominam aristocratas, como foi se tornar desse jeito?”

“Cem mil…”

A população desse mundo… fiquei sabendo dessa cifra pela primeira vez. Cardinal usou a palavra ‘somente’ para descrevê-la, mas ainda assim ela disse isso com um pouco de assombro, era realmente um enorme número de pessoas.

Isso já havia ultrapassado tranquilamente a classificação de uma ‘simples pesquisa’ sobre inteligência artificial e tinha se tornado em um experimento completo de simulação de civilização.

Mas sem dúvida, vinte e cinco mil indivíduos governado por um só imperador empalideceria em comparação ao império romano ou dos francos nos exércitos dos tempos antigos do mundo real. Assim, suponho que realmente era mais crível que o feudalismo tenha sido instaurado como base nos exemplos da realidade, no lugar de algo inventado de última hora por algum dos desenvolvedores.

Uma vez mais, Cardinal me lançou palavras inesperadas, me deixando perplexo.

“Mencionei antes que não existiam deuses, não é? Porém, durante a criação do mundo, quatrocentos e cinquenta anos atrás, houve alguns que agiam como deidades. Na época, quando Centoria Central não era nada mais do que um pequeno povoado…, naquele tempo haviam quatro entidades que se denominavam deuses. ”

“O quê? Quatrocentos e cinquenta anos? Não eram trezentos e oitenta? Quero dizer, agora mesmo, o Calendário Humano diz que…”

A pequena sábia deu de ombros com minha pergunta totalmente fora do tema principal.

“Creio que lhe disse antes que as lendas foram criações literárias da Igreja Axiom, não? A origem do calendário atual também fora fabricados por eles.”

“E-então… Esses quatro deuses eram definitivamente humanos… o pessoal de RATH que criou esse mundo…!?”

Parece que dessa vez tinha acertado em cheio, pois Cardinal deu um sorriso satisfeito.

“Oh! Que bom, conseguiu enfim chegar a essa conclusão.”

“É… a galinha realmente tem que vir antes do ovo… Alguns deles foram os que criaram os bebês de fluctlight artificiais no início… do contrário, não tinha como as pessoas terem a capacidade de falarem e escrever em japonês.”

“Essa é uma dedução lógica. Foi exatamente o que você disse. No início… quando eu era apenas um programa supervisor, sem uma consciência própria, quatros desses deuses vieram e criaram oitos crianças como duas famílias de agricultores. Ensinaram tudo, desde a leitura, fala, escrita, cultivo, criação de gado… e o conjunto de orientações sobre a ética do bem e do mal, que viria a ser a base do Índice de Tabus mais tarde. ”

“Eles eram realmente deuses… as responsabilidades que carregavam eram enormes. Uma só palavra errada, fora de contexto, poderia pôr em risco todo o destino de uma sociedade humana futura.”

Cardinal assentiu com seriedade quando disse ‘uma só palavra errada ‘.

“De fato. E foi meditando sobre isso depois que fiquei confinada nessa biblioteca que cheguei a essas questões.

Porque existe o feudalismo nesse mundo que, a princípio, não necessitaria ter?

Porque um sistema completo de leis tão exageradas como esse Índice de Tabus foi criado, com tantas lacunas jurídicas por onde os nobres fazem uso ao seu bel prazer para conseguir benefícios?

Não existe uma única resposta satisfatória para essa perguntas.”

Enquanto ajeitava seus óculos no rosto, a garota continuou com seu tom de indignação.

“Também ficou bem claro que o quarteto original tinha um intelecto bem elevado como seres humanos, já que brilhantemente conseguiram completar a difícil missão que tinham em mãos. Ao mesmo tempo em que deram aos habitantes de Underworld um sentido inato de virtudes, para que todos fossem eticamente corretos, isso não estava aplicado a todos eles.”

“…O que quer dizer…?”

“Havia um, que apesar de possuir uma grande inteligência, não tinha nenhuma ética. Essa pessoa acabou corrompendo um dos garotos. Provavelmente não de forma intencional, pois nossa real natureza não se pode esconder por muito tempo.

Trabalhando por sua ganância e interesses próprios, com o desejo insaciável de riqueza e poder, acabou por ganhar muita força. As crianças se tornaram os ancestrais dos imperadores e nobres que regem o mundo dos humanos e aquela pessoa acabou por se tornar o Alto Ministro da Igreja Axiom…”

“Sem ética… ela?”

Definitivamente, com esse relato, comprovei que a origem da maldade no poder de alguns nobres era oriunda de alguém de dentro do próprio RATH. E foi desse mal herdado de gerações em gerações, que resultou naqueles seres humanos terríveis como Raios Antinous e Wanbell Zizek…

Senti um calafrio momentâneo percorrer a minha espinha. No mundo real, meu corpo estava conectar no STL da sede do RATH em alguma parte e inconsciente.  Eu não podia deixar de tremer ante a ideia de que uma pessoa com a mesma natureza de Raios pudesse estar ao meu lado nesse momento.

Será que conhecia essa pessoa? Tentei lembrar de todos os rostos que vi no laboratório do RATH, mas os únicos que apareceram foram o pesquisador chefe Higa Takeru e o misterioso empregado do governo que me apresentou para essa empresa, Kikuoka Seijirou.

É claro, haviam vários outros membros em Roppongi, mas não tinha muita recordação de suas feições. Em todo o caso, meu trabalho de meio período foi há dois anos atrás, do meu ponto de vista atual.

A pergunta era se a pessoa só tinha forte egoísmo e ganância, ou se tinha se juntado à empresa RATH com outro objetivo em mente. Tal como, espionar a pesquisa e depois vende-la… sabotagem talvez?

“Cardinal… conhece os nomes do quarteto original?”

Infelizmente a menina negou com a cabeça.

“É necessário ter acesso total ao sistema para poder conseguir essa informação.”

“Não… me desculpe por perguntar coisas como essa outra vez.”

Não tinha muito a fazer de qualquer modo, mesmo se soubesse seus nomes. Porém, a necessidade de obter um meio de comunicação com o outro lado ainda era a prioridade principal.

Trocando o peso de meu corpo na cadeira, tomei um grande gole de chá antes de voltar ao assunto.

“Entendi… se somente uma pequena parte das pessoas de Underworld possuem o desejo de dominação, é natural que estejam entre a elite. São como lobos em meio às ovelhas.”

“São similares aos programas de vírus, com imunidade à qualquer tipo de tentativa de remoção.

Quando nasce uma criança de seus pais nesse mundo, essa herda não somente suas aparências externas, e sim sua natureza também, entende? Os nobres de classe baixa que a princípio se casam com plebeus, acabaram diluindo seu egoísmo, porém…”

Recordei o sentido de benevolência e justiça dos aristocratas de sexta classe, como Ronye e Tiezé, que eram verdadeiramente dignas de se encaixar nas palavras de Cardinal.

“Isso significa que… os matrimônios entre irmão nobres de alta classe era para manter, principalmente, esse egoísmo e sede de poder, correto?”

“De fato. Essa é a essência dentro das quatro famílias imperiais e do Alto Ministro da Igreja Axiom, que está no topo de tudo, soberano absoluto desse mundo…

O Alto Ministro da Igreja Axiom, também o supervisor e controlador atual do sistema, é uma mulher solitária e cruel.

Se autodenomina, da maneira mais arrogante de todas, de o Administrator. ”

Adminis…. trator.”

Seu significado traduzido do inglês é administrador, também era o termo utilizado para o usuário com o maior privilégios dentro dos sistemas operacionais. Ao repetir esse nome, recordei do Integrity Knight Eldrie mencionando enquanto aquele fenômeno luminoso ocorria.

Em outras palavras, a entidade a quem os Integrity Knight juraram lealdade era o Alto Ministro, o Administrator….

Ao chegar nesse ponto dos meus pensamentos, finalmente me dei conta da presença de outro dado importante dentro das palavras de Cardinal.

“…Como? V-Você disse que é uma mulher? O Alto Ministro?”

Tinha como certo que a pessoa que estava no topo da torre era um homem ancião com um tempo de vida bastante prolongado, mas parece que estava completamente enganado. Cardinal assentiu com a cabeça com uma pequena ruga na testa.

“Sim… foi o que eu disse. E ainda que não goste de admitir isso, essa pessoa é considerada a minha irmã gêmea mais velha também.’

“O… quê…!?”

 

NOS VEMOS SEMANA QUE VEM COM O FINAL DO VOLUME!!!

É ISSO MESMO, CHEGANDO MAIS UMA VEZ COM A CONCLUSÃO DE UM VOLUME, QUE FELICIDADE!!!

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