Sword Art Online Alicization Running em Português – Underworld – Capítulo 4 – Parte 4

Arco: Alicization – Running

Parte 4

Sword Art Online Alicization - Running - Vol 10 - Kirito x Uolo
“Será que eu deveria mesmo lutar contra Uolo?”

Enquanto ainda saboreávamos aquela deliciosa sensação do nosso lanche, chegamos enfim de volta à academia.

Já na entrada me separei de Eugeo, que se dirigiu até a habitação de seu superior, Golgosso, enquanto fui falar com a pessoa responsável pelos dormitórios, a senhorita Azurika, para pedir permissão de permanecer sob minha guarda a nova espada.

No mundo real, se entrasse em uma escola com um objeto mortal de mais de um metro de comprimento, provavelmente seria repreendido pelos professores, sem contar que era certo que chamariam a polícia e me levariam preso. Porém, nessa academia do outro mundo era destinada exatamente a formar espadachins, de maneira que se fosse só uma única espada, não haveria problema em portá-la.

E quanto ao porquê de só poder carregar uma espada, é que em Underworld, todas as armas absorvem Poder Sagrado do ambiente, pouco a pouco consumindo os recursos do local.

Para ser mais específico, a arma cuja vida se desgastou um pouco em uma batalha, pode se recuperar se ficar descansando em sua bainha, pois estará absorvendo Poder Sagrado da sua proteção, que por usa vez, absorve recursos do ambiente a sua volta. E é claro, se o dano for suficiente para perder seu fio ou destruir parte de sua lâmina, somente descansar na bainha não resolveria, pois a espada precisará de muito poder, nesse caso, é necessário procurar um mestre afiador ou um ferreiro para recuperá-la totalmente.

E além disso, se não houvesse uma limitação no número de espadas, um estudante muito apaixonado por armas acabaria por trazer centenas delas, que por consequência iria drenar completamente os recursos de sua habitação.

Se for apostar em um motivo para que só possa carregar uma espada, diria que esse último que citei com certeza é o mais relevante.

Já que hoje era um dia de descanso, mesmo a senhorita Azurika não estaria na recepção e sim em seu escritório sentada com a porta aberta organizando as tarefas da semana.

Depois de escutar minha leve batida, ela levantou a cabeça com uma breve surpresa ao me ver.

“Você aqui? Está tudo bem, aprendiz Kirito?”

“Desculpe lhe incomodar em um dia como hoje, mas vim aqui pedir sua permissão para carregar uma espada que adquiri.”

Me inclinei um pouco e entrei no cômodo, dando uma rápida olhada no local.

Haviam diversas pastas com capas de couro em uma grande estante cheia de documentos milimetricamente alinhados, porém sem nenhum tipo adorno, somente uma mesa e uma cadeira completavam o cenário da sala. Tudo simples e bem organizado, refletindo todo o estilo daquela pessoa encarregada dos cento e vinte estudantes.

Depois de escutar minhas palavras, a senhorita Azurika inclinou um pouco sua cabeça e levantou imediatamente para pegar uma pasta na estante. Puxou alguns documentos em papel comum e os colocou na minha frente.

“Aqui, preencha com todos os dados que pede!”

“Sim, entendido.”

Obedientemente baixei a cabeça e olhei para o papel. Era um formulário, com itens simples como nome, identificação do estudante e espada prioritária.

Enquanto pensava em como, diferentemente do mundo real, eu não precisei do aval de um adulto responsável, fui preenchendo meu nome em katakana, Kirito, o número de identificação do estudante, 7 e então… parei por um instante.

Lembrei que mesmo tendo manejado a espada antes, não tinha parado para abrir sua janela de status.

Com a senhorita Azurika me observando, rapidamente desamarrei a corda de couro que segurava a espada em minhas costas e abri um dos lados do embrulho, revelando parte da empunhadura, foi então que…

“Uhh…!”

Levantei rapidamente o olhar para localizar a origem do forte suspiro que ouvi. Notei que tinha vindo da senhorita Azurika, que estava mostrando uma rara expressão confusa, piscando os olhos. Achei um pouco estranho que algo a tenha tirado do seu habitual estado ultra sério.

“T-Tudo bem com…você?”

Perguntei.

A senhorita Azurika piscou mais algumas vezes quando escutou minha voz e logo negou com a cabeça e disse:

“Não, não é… nada.”

Parecia que realmente não iria falar mais nada, então continuei o que estava fazendo. Voltei minha atenção para a espada, fiz o comando no ar com a mão direita e toquei levemente a empunhadura, que respondeu um com som metálico e emitiu um pequeno brilho.

A prioridade que mostrava era ‘Classe 46’.

Quem imaginaria que era um pouco mais alta do que a Blue Rose Sword por um ponto? Realmente não é por menos que ela fosse pesada.

Então, coloquei seus dados no formulário e entreguei para senhorita Azurika.

Pensei, já impaciente por um instante enquanto olhava para ela, que ainda parecia um pouco estranha.

…Mas que diabos há com ela? Será que tem algum problema? Não me diga que tem um limite de prioridade para a espada que um estudante pode portar?

“Aprendiz Kirito!”

“S-Sim.”

“Por acaso… você sabe que a memória dessa espada é…”

Ela parou de falar nesse ponto e então apertou seus olhos. Quando os abriu novamente, quem estava na minha frente era de novo a tremendamente severa e rígida senhorita Azurika, a supervisora dos dormitórios de sempre.

“Não é nada, esqueça! Recebi sua solicitação. Creio que não preciso lhe informar de que uma espada real só pode ser usada para treinamento pessoal, não é? De maneira que é expressamente proibido usar nos exames e em práticas em grupo, estamos entendidos?”

“Sim, estamos.”

Respondi com confiança enquanto colocava novamente a espada negra embrulhada e amarrada em minhas costas. Porém, ainda fiquei curioso sobre o que ela iria me dizer. Mas como se fechou, provavelmente não iria mais conseguir nenhuma resposta. Assim, fiz a saudação de cavaleiro e deixei seu escritório.

Desci as escadas com aquela dúvida martelando minha mente.

A memória… da espada…?

Eram palavras inexplicáveis. É correto dizer que nesse mundo, todos os itens, isso incluindo as espadas, foram gravados com a ajuda das representações Visuais Mnemotécnicas do STL. Mas isso era uma tecnologia desenvolvida pela empresa chamada RATH no mundo real e até onde eu saiba, nenhum residente de Underworld é capaz de fazer algo parecido.

Em outras palavras, a ‘memória da espada’ de que ela falou, talvez seja exatamente o que as palavras são. Essa espada negra deve conter algum tipo de memória interna, uma consciência talvez…? Ainda não consigo compreender o que ela viu nessa espada?

Quase fritei o cérebro tentando entender enquanto saia do dormitório. Foi então que escutei o campanário avisando que eram três horas da tarde.

Havia combinado de me encontrar com a senhorita Liena às cinco da tarde. Então, eu tinha tempo para comprovar algumas coisas.

Não percebi nada de errado quando a testei lá na loja do Satore… posso dizer até que me senti muito bem, parecia que minha adorada Elucidator de SAO havia revivido e estava novamente em minhas mãos. Porém, ainda tinha que testar se ela podia mesmo aguentar todos os movimentos consecutivos do Estilo Aincrad. Até me acostumei em chamar as técnicas do antigo SAO de ‘Estilo’ …

Hoje era o dia de descanso da semana onde praticamente todos os estudantes nascido em Centoria voltavam para suas casas, assim como alguns que moravam em outras localidades acabavam viajando também. Dessa maneira, a academia ficava praticamente deserta, o que ao meu ver, era muito bom.

Sabia que tinha um pequeno bosque com um rio nos limites do campus, era o local perfeito para treinar meus movimentos e ainda me livrar de possíveis observadores, já que era bem afastado de tudo.

Essa também era a razão por eu querer mostrar minhas habilidades hoje, ter o mínimo de pessoas na volta para conseguir me soltar e utilizar todas as skills de ataques consecutivos.

“Porque existiam habilidade com espadas em Underworld?”

“Porque não existiam habilidades de ataques consecutivos? ”

Estou aqui há dois anos e ainda não sei as respostas para essas perguntas. A única coisa que consigo imaginar é que quando o técnico do RATH estava construindo Underworld, ele acabou usando o pacote do The Seed que Agil e eu distribuímos. Mas mesmo que isso seja verdade, ainda não explica tudo. Pois o pacote distribuído gratuitamente era uma versão simplificada do sistema Cardinal e não tinha as habilidades com espadas.

Mesmo em 2026, entre os muitos VRMMO, somente ALO, a duplicata um pouco desatualizada do servidor do SAO, tinha essas habilidades.

E creio ser impossível que a empresa Ymir, que operava ALO, esteja ajudando RATH aqui.

Além desse tipo de palpite, minha mente começou a divagar com coisas bizarras e sem fundamentos. Mas tudo sempre apontando para um lugar, um objetivo…

Se eu queria saber toda a verdade, teria que ir até o governante no alto da Catedral de Centoria, de uma maneira ou de outra, nem que para isso eu tivesse que passar por cima de todos com essa amiga negra… isto é, se ela funcionar como eu espero que funcione.

De qualquer modo, todos os movimentos dos espadachins em Underworld, eram habilidades de um golpe só, como o Vertical e o Avalanche.

Quanto a razão disso tudo, meu único palpite aponta para o mesmo motivo de não existirem batalhas reais nesse mundo… a lei absoluta do Índice de Tabus e a Igreja Axiom com os invencíveis soldados, os Integrity Knight protegendo todo Underworld.

Dessa forma as batalhas se resumiram a breves encontros de demonstrações. Tudo acabou virando quase uma festa, com intuito de buscar a beleza e o refinamento, onde a vitória é de quem conseguir mais elegância.

E eles vêm fazendo isso há centenas de anos. Aprimorando seus movimentos mas nunca para sobrevivência. Fazendo suas lutas, mas visando sempre a prevenção de acidentes…

Tanto que nos torneios, a luta finalizava no momento em que um dos lados encurralava o outro.

Naturalmente com um cenário desses, golpes consecutivos são inviáveis, uma vez que deveriam parar na primeira vez que passasse a defesa do oponente.

Quase me sinto um alienígena, já que meus golpes visam a finalização da vida, inclusive já o fiz algumas vezes em um passado não muito distante…

Nessa situação, de uma batalha com um único golpe, o físico e a força do braço podiam fazer uma grande vantagem, isso sem contar no poder da confiança do habitantes daqui…. Assim, que não é de se estranhar que o líder dos espadachins de elite, Uolo Levanteinn seja tão forte e tenha uma espada tão poderosa.

Se eu enfrentasse alguém com duas espadas desse nível e com golpes consecutivos no antigo SAO, provavelmente não conseguiria ganhar.

Essa definitivamente era mais um motivo pelo qual, minha senpai seguia perdendo para o presidente Uolo durante esses anos.

Compreendo também que mesmo mostrando minhas habilidades de ataques consecutivos para a senhorita Liena, será impossível para ela aprendê-las. Mesmo Eugeo, que não teve contato com nenhum outro estilo anteriormente, levou meses aprendendo atacar consecutivamente e estou me referindo à ataques simples como o Arco Vertical.

Porém, se puder mostrar para Liena que as habilidades com a espada não se resumem a apenas um golpe, por mais magnífico que este seja, se puder retirar nem que um pouco da dúvida que reside dentro de seu coração usando esse meu Estilo Aincrad, o qual é tão similar ao Estilo Serlut e tão antagônico ao Estilo Norlangarth de alto nível, talvez ela consiga a força e confiança necessárias para enfrentar esse último duelo antes de sua graduação.

Continuei com esse pensamento em mente enquanto me dirigia quase que inconscientemente para o bosque ao lado do campus.

O campus dessa escola estava rodeado por altas paredes em forma de leque, de maneira que acaba separando do terreno central da academia. Além disso, haviam as edificações com bibliotecas, um enorme espaço para práticas, dormitórios dos aprendizes e instrutores, os dormitórios especiais para os espadachins de elite entre outros prédios que eu sequer sabia para o que serviam. Realmente a academia possuía um enorme espaço para suas instalações.

Os dois muros, do norte e do sul, tinham grandes portões que davam para mais acomodações, no lado oeste havia apenas uma pequena colina e no leste, o bosque com o rio.

Continuei olhando para os lados para ter certeza de que não havia mais ninguém por perto.

A bem da real não tinha uma razão do porquê escolhi o bosque para treinar, apenas foi o primeiro lugar que veio à mente. Pois não importa para onde eu vá hoje, com quase todos fora, poderia ser em qualquer canto com espaço suficiente para me movimentar livremente.

Chegando no local, passei pelo meio das árvores até encontrar um descampado, com a grama baixa, parecendo com um campo de futebol. Revisei o chão para ver se tinha algum desnível onde eu pudesse tropeçar ou marca recente de alguém ter pisado. Confirmando que estava tudo bem, enfim peguei a espada em minhas costas.

Desembrulhei-a e assim que senti seguro, agarrei pela empunhadura enquanto sustentava a bainha com a outra mão e a extraí de seu local de descanso.

A longa espada negra como carvão, brilhou na luz do sol, senti uma boa vibração, talvez ela também tenha gostado de que sua estreia fosse em meio às árvores, sendo banhada pela luz solar, como quando ela era apenas um pedaço do Giga Cedro. Não podia me esquecer, que mesmo sendo uma espada, ela ainda era feita de madeira. Mas se olhasse apenas para seu aspecto, era impossível dizer que era qualquer coisa além de metal negro.

Só tenho que admirar o maravilhoso trabalho daquele artesão, que passou um ano inteiro refinando-a até chegar nesse estágio, com uma classe de prioridade tão alta… mas ainda assim, não conseguia entender onde a memória se encaixava nesse objeto.

Resolvi abandonar o pensamento e me preparei ficando em uma postura básica.

Diferente de quando estava na loja, dessa vez eu não iria segurar a imaginação.

Resolvi começar com a habilidade de golpe vertical, que usava diversas vezes, o Slant.

Depois de poucos instantes de concentração, a ponta da lâmina brilhou com um flash. Usei então meu pé e mão direita para me impulsionar para frente, enquanto a ‘mão invisível’, o sistema de apoio das skills, projetava e adicionava velocidade ao meu corpo.

“SSSHHASSH!!!”

Um som agudo foi produzido e a trajetória do golpe foi desenhada no ar. A linha brilhante logo desapareceu como chamas do sol dispersando no vento acompanhando a espada em uma linha reta, fazendo a grama e a sujeira em minha volta voarem para os lados.

Mantive meu corpo em uma posição flexionada e fiquei observando o galho da árvore que estava na minha frente, mais ou menos uns cinco metros, a mesma distância que o escudo na loja de Satore estava. Porém, não havia nenhum sinal de que iria se quebrar, mesmo depois dos efeitos da habilidade se dissipar.

Isso já era de se esperar, já que o raio de ação do golpe Slant era de dois metros e meio no máximo. E só com isso não seria capaz de alcançar nada que estivesse no dobro de distância.

Mas ainda assim… aquele escudo se partiu… esse mistério segue sem solução. Não podia ser que coincidentemente a vida daquele escudo tenha chegado ao fim, pois a mesa também foi cortada e eu não executei nenhuma habilidade, disso tenho certeza.

E tem outra coisa, Eugeo disse que a espada brilhou na ocasião… embora igualmente eu não saiba porquê…

Esse mundo fica toda hora esfregando na minha cara de que não sei realmente nada sobre ele.

Respirei fundo e assumi a próxima posição para seguir com as habilidades.

Cortei verticalmente de cima para baixo e quando a espada estava prestes a toca o solo, girei a lâmina e a puxei para trás elevando novamente seu gume e me impulsionei para executar o mesmo golpe mais uma vez. A habilidade de dois ataques consecutivos, Arco Vertical.

O deslocamento de vento da espada foi muito mais feroz do que antes, fazendo balançar todas as plantas na volta.

Até agora tinha feito todas as habilidades que conseguia com uma espada simples de madeira utilizadas no treino. Então troquei a posição das pernas, colocando a espada em minha cintura e girei um corpo para a direita.

“…”

Silenciosamente concentrei minha força e executei um corte horizontalmente para a esquerda. O corte pareceu acertar alguma coisa invisível logo quando se alinhou em minha frente e se deteve para mudar a direção, indo para a diagonal superior direta. Dei outro passo à frente e lancei um corte frontal de curto alcance, porém de grande impacto e velocidade. Essa era a habilidade de três ataques consecutivos, Savage Fulcrum.

Observei também em silêncio o rastro luminoso rubro como sangue desenhar o que parecia ser o número ‘4’ em pleno ar. Assim que a marca do golpe sumiu, me preparei para a próxima habilidade.

Levantei a espada diretamente sob minha cabeça, puxando ela um pouco para trás.

Rapidamente fiz um corte de alto nível, um de baixo nível, um corte oblíquo em uma sequência muito rápida e cadenciada, feito isso, levei a espada novamente para trás de minhas costas antes de cortar ferozmente, construindo um quadrado de luz em minha volta, que continuou girando e se expandindo. Seu raio de alcance era enorme e só era possível executar com um tempo perfeito. Essa era a minha habilidade preferida com a Elucidator no antigo SAO, o Vertical Square.

Estava satisfeito, até agora tinha conseguido executar os quatro tipos de habilidade com a espada perfeitamente.

Só com isso já estava provado que essa espada tinha realmente o mesmo nível de prioridade do que a Arma Divina Blue Rose Sword que Eugeo possuía. Mas isso eu já esperava, pois vi o nível dela no escritório quando abri sua janela de status que mostrava classe 46.

Creio que seria capaz de cumprir minha promessa de exibir minhas habilidade de alto nível para Liena-senpai. Porém, antes de dar um suspiro de alívio, algo me veio à mente.

Sempre que usava a Blue Rose, só conseguia usar habilidades com quatro ataques seguidos. Mesmo eu tentando fazer combos maiores, nunca consegui algo como cinco ou mais ataques consecutivos. Mas e agora? Será que essa espada negra aguenta? Bom, cedo ou tarde eu terei que tentar e acho que aqui está a melhor oportunidade de testar.

Agarrei a espada com força, dei um grande passo adiante com meu pé direito e reuni toda a imaginação que fui capaz. A espada pareceu querer pular do meu braço esquerdo, pronta para sair atacando sozinha.

Estranhamente me pareceu que senti uma pequena fincada na parte da frente do meu cabelo, perto da franja. Pensei que isso poderia ser um tipo de aviso, mas de quem? Resolvi ignorar e continuar a me concentrar em formar os ataques mentalmente para executá-los com a espada.

Percebi com o canto do olho que a espada começou a soltar fagulhas alaranjadas.

Era um espectro de cor um pouco diferente dos que eu já havia visto até agora. Continuei fazendo o melhor esforço para imaginar as habilidades que queria e me preparei para ativá-las enquanto as fagulhas continuavam a aumentar de intensidade, sem dar sinal de diminuir.

Decidi continuar a carregar a energia até que sentisse a postura ficar instável. Assim que decidi que era a hora, comecei a me movimentar.

“UUUOOOOOHH….!!”

Instintivamente deixei escapar um grande grito e quando meu pé direito que levei a frente tocou o solo, a terra toda tremeu. A espada que estava descansando no meu ombro esquerdo vindo da parte inferior direita, fez um corte penetrante em um ângulo muito agudo com a ajuda do sistema, na hora foi o que pensei. Porém a espada não se deteve, nem mesmo quando cravou no chão.

O poderoso impacto refletiu na minha mão direita. Se eu tentasse puxar a espada para trás, com toda a certeza receberia um grande dano. Então apertei os dentes e deixei a espada continuar a trajetória que já estava à 20 centímetros se enterrando no solo, tremendo violentamente enquanto eu tentava retroceder.

“ZZPAAANG!!”

O som contundente de impacto pareceu vir das minhas costas. A única coisa que percebi a seguir foi a dor aguda ao aterrissar na grama.

Onde eu errei? Meu nível não era suficiente? A prioridade da espada talvez? Ou ambos…?

Nesse instante o que vi ali enquanto deitado estendido no solo foi…

…uma quantidade imensa de terra e grama jogados para todos os lados, como se uma mina terrestre estivesse detonado ao invés de uma espada ter cravado no chão… e…

…Um homem parado de pé, perto das árvores, no lado oposto de onde estava.

O que cobria o alto e esguio corpo era o uniforme escolar, mas a cor não era o cinza escuro básico. Tinha uma listra azul cobalto brilhante, contrastando com o tecido em branco perolado. É privilégio de todos os doze espadachins aprendizes de elite poder escolher a cor de seus uniformes.

A senhorita Liena preferiu um tom de roxo e Golgosso utilizava o verde escuro. Já o branco perolado com azul se reservava ao… aprendiz de espadachim de elite chefe, presidente dos estudantes e também o aluno mais poderoso da academia, Uolo Levanteinn…

Com seu cabelo loiro claro e curto e seus grandes e inexpressivos olhos azuis estavam decididamente me encarando.

Eu, naquela posição deplorável, jogado no chão, continuei olhando para uma enorme mancha escura de terra úmida que estava destoando com aquela brancura impecável do uniforme até me dar conta do que tinha realmente acontecido…

Imediatamente senti uma corrente elétrica passar pela minha coluna.

Para ser honesto, se estivesse em Aincrad e acabasse encontrando um oponente extremamente forte como eram os membros da guilda do Dragão Divino, por exemplo, em uma situação onde eu estivesse em desvantagem, era bem provável que eu fugisse para poder lutar uma outra hora.

Mas nesse mundo, se eu fizesse isso, virasse as costas e fugisse, teria algo muito pior do que uma honra manchada, essa coisa seria um delito capaz de quebrar com as regras do todo poderoso instrumento de leis desse mundo, o Índice de Tabus.

Já que não podia escapar correndo, tudo que fiz foi ficar imóvel por um momento, para então lentamente virar minhas costas e começar a levantar do solo, sempre mantendo a cabeça abaixada em sinal de respeito com um superior.

Após fazer isso, me aproximei, ajoelhei em sua frente e gritei:

“EU SINTO MUITO, SENHOR APRENDIZ LEVANTEINN!!! POR FAVOR PERDÕE A MINHA GRAVE FALTA DE RESPEITO!!”

Enquanto fazia isso, minha mente começou a pensar em um monte de coisas inúteis.

A única ocasião em que supliquei perdão dessa foram foi possivelmente no andar 61 de Aincrad quando Asuna e eu estávamos no quarto… Isso aqui está ficando cada vez mais estranho…

“Se estou correto, você deve ser o valete da aprendiz Serlut, não é?”

Escutei aquela voz tão grave.

Dei uma pequena levantada na cabeça para olhar para ele e imediatamente assenti.

“Sim, sou o aprendiz novato Kirito.”

“Entendo…”

O espadachim na minha frente ficou observando a espada negra no chão, coberta de terra e grama e então continuou a falar bem alto com aquela poderosa voz.

“Segundo as regras dessa academia, lançar sujeira nas roupas de um superior justificaria completamente a aplicação de castigo por insolência…”

Quando ouvi isso, senti uma pontada no peito.

Esse ‘direito de castigo’, era um direito que os estudantes modelos da escola, os alunos espadachins de elite tinham. Ele podiam castigar qualquer estudante que infringiam as regras da academia, mesmo que por acidente, baseados apenas em suas próprias regras e discernimento. Uma vez haviam me passado uma absurda carga de exercícios só porque me atrasei em chegar no dormitório de Liena.

O que será que fariam com quem rompesse gravemente as regras? Bom, provavelmente isso nunca aconteceu nesse mundo. Pois um ato assim, só um caso acidental, o que eu realmente duvidava, já que esses Fluctlight Artificiais eram muito regrados com qualquer coisa em relação às normas. E jamais fariam algo de caso pensado devido às restrições incrustadas desde suas raízes. De maneira, que o único perigo real aqui, sou eu, um Fluctlight natural. Mas, felizmente consegui não chamar muito a atenção e durei um ano aqui sem maiores problemas… até agora…

Creio que sujar o impecável uniforme do presidente Uolo deva se encaixar na categoria de ‘crime de alta periculosidade’ por aqui…

“Porém, não te censuro por se esconder dos demais para praticar em um dia de descanso, mesmo com o fato disso hoje ser proibido, parece não ter lhe preocupado.”

“Gehhh!…”

Deixei escapar um grunhido involuntário, mais uma acusação. Tinha esquecido de que nos dias de folga, não era permitido treinar com as espadas.

Era mais um motivo para justificar a aplicação do direto de castigo. Essa era umas daquelas situações que preferiria resolver com uma luta, mas não era possível, então tentei enrolar como deu…

“M-Mas isso não é o que parece, senhor presidente Levanteinn.

Não estava praticando… na verdade, estava testando a minha espada nova. Os preparativos que havia solicitado à uma loja na sétima área estavam prontos e eu não podia esperar para ver se tudo estava como o contratado…”

Ao terminar de falar esse monte de baboseira, me dei conta de uma coisa importante.

Desde quando esse cara estava me observando? Quando ele chegou? E porque estava justamente aqui?

Vim especificamente na parte mais isolada desse bosque só para praticar as habilidades de ataques consecutivos, técnicas que não existiam em Underworld. Tudo para poder mostrar o meu melhor para senhorita Liena e assim quem sabe, ajudá-la a derrotar justamente essa pessoa à minha frente.

Mas se ele viu meus movimentos, que esperança eu posso passar para ela agora?

Cara, eu sou muito burro…

Parecia que o homem mais forte da academia pôde ler meus pensamentos, pois me retornou um sorriso irônico de canto de boca.

“…Hummm, então você está me dizendo que veio até aqui só para testar a sua espada? Mas deu um belo grito de ataque, sem contar no tremor de terra.

E falando nisso, tudo que vi ali foi você cavando um enorme buraco à sua frente com a espada enquanto era jogado para trás com a força de seu golpe, ou seja lá o que estava tentando fazer…, de maneira que vou encarar aquilo como… incapacidade de aguentar o poder de seu próprio equipamento o qual ainda não está acostumado.

Dito isso, não considerarei como um rompimento das regras do dia de descanso, pois para ser sincero, vim aqui por um motivo semelhante.”

Mesmo respirando aliviado, fiquei perplexo com essa revelação.

“Um motivo… semelhante?”

“Me refiro ao desejo de brandir uma espada mesmo em um dia de folga.”

Percebi uma breve expressão divertida, que formou um quase sorriso no rosto daquele homem tão fechado. Uolo tinha acabado de me confidenciar que estava praticando esgrima? Quebrando uma regra, era isso mesmo?

Enquanto dizia isso, observou o local onde eu estava praticando.

“Devo lhe dizer que eu encontrei esse lugar primeiro. Inclusive estou passando esse local para meu valete. Sinto muito, mas terá que achar outro para você.”

Estou entendendo…

Comecei a compreender um pouco mais esse homem em minha frente. Ele sempre veio a este lugar para treinar, acima de tudo e todos, essa sua própria vontade. Seu sentimento em querer ser forte era tal que inclusive desafiava as regras e vinha aqui para treinar…

Esse espaço vazio era perfeito para isso. De maneira que o errado nessa história sou eu, que simplesmente acabei de chegar e ‘invadi’. A razão por não perceber que esse lugar era frequentado, era porque como Uolo vinha apenas uma vez por semana, a grama e o solo tinham sua Vida restabelecida ao seu estado original, sumindo com qualquer sinal de passos ou danos realizado por uma espada.

Bom, então vou ter mesmo que procurar outro local e dessa vez me certificar que não tem ninguém por perto…

Em minha mente, tudo tinha se resolvido da melhor forma. Então, comecei a agradecer.

“…Entendido, farei isso. Sou muito agradecido por sua bondade…”

“É muito cedo para que me agradeça, aprendiz Kirito!”

“O que disse!?”

“Disse que não farei qualquer reclamação sobre você treinar em um dia de descanso, mas nunca disse que não farei nada quanto a isso…”

Lentamente levantei a cabeça e observei para onde Uolo estava apontando. Com seu dedo indicador da mão direita mostrando a grande mancha de sujeira em seu peito e seu semblante completamente sério me encarando.

“M-Ma-Mas, presidente Levanteinn, eu achei que o senhor tinha entendido que foi… um acidente…”

“Ah sim, isso eu entendi! Tanto que é exatamente por isso não te castigarei com algo como limpar todo os dormitórios dos espadachins da academia ou copiar mil linhas de feitiços.”

Ouvir isso me tranquilizou um pouco, mas sabia que tinha algo ruim vindo a seguir…

Enquanto usava sua mão para tirar a terra acumulada de seu uniforme, disse algo impressionante.

“Muito bem, aprendiz novato Kirito, seu castigo será lutar comigo uma vez. Não com uma espada de madeira e sim com essa sua espada negra. Eu também usarei a minha.”

Foi só nesse momento que reparei que em sua cintura, ele trazia uma grande espada verdadeira. Tinha sua empunhadura feita de puro ouro com uma bainha azul escuro. Mesmo sem abrir sua janela de status, era possível notar que se tratava de uma arma com uma prioridade muito alta.

“L-Lutar…? Co-Como?”

“Você conhece o termo sparring? Significa basicamente, treinar simulação de combate real, nada mais. Faremos algo um pouco parecido, tenha isso em mente e me siga, pois aqui tem pouco espaço. Vamos para o campo de treinamento, como hoje é dia de descanso, não haverá ninguém.”

Disse isso, deu meia volta e começou a caminhar.

Fiquei alguns instantes olhando aquela figura vestida de branco deslizando e passando por entre as árvores. Uma vez que percebi o que realmente estava acontecendo, novamente cogitei a ideia de fugir dali, mas não cumprir com o castigo, seria uma infração pior. E não podia me deixar ser expulso antes de me tornar um aprendiz de espadachim de elite como Uolo durante o exame de graduação nos final desse mês.

Não tinha outra opção, peguei a espada, limpei sua lâmina e coloquei-a em minhas costas.

Dei uma olhada além dos muros da academia, para a gigantesca torre entre as copas das árvores, respirei fundo renovando minha convicção e segui o homem loiro vestido de branco.

Haviam um monte de ervas daninhas e espinhos pelo caminho, porém, Uolo passava por elas, se esquivando de todos os obstáculos sem nenhuma dificuldade.

“...Que estranho, com toda essa agilidade, será mesmo que ele não teve como esquivar da terra que joguei?

Quando me dei conta do que realmente aconteceu, já era tarde demais. Agora tinha que ‘dançar’ conforme a melodia ditada por Uolo.

Caminhei pelo bosque e ao sair, consegui alcançá-lo no caminho de pedra, nesse momento ouvimos o campanário nos avisando que eram quatro da tarde.

Pouco a pouco o céu já demonstrava alguns sinais de que a noite estava se aproximando, com alguns dos alunos surgindo nas ruas já retornando para a academia.

Todos arregalaram os olhos quando viram o presidente Uolo, com seu lindo uniforme sujo, caminhando comigo o seguindo logo atrás.

Isso era de se esperar. Desde que Uolo Levanteinn tinha se tornado um aprendiz de espadachim de elite, ele praticamente nunca aparecia em nenhum lugar além do seu dormitório. Ele era tipo aqueles personagens super importantes de histórias que apareciam pouco, mas sempre que faziam, sua presença era impactante. Poucos alunos o viam além das aparições obrigatórias dos exames que ocorriam quatro vezes ao ano.

Até mesmo eu, que estava sempre junto de Liena como seu valete, o vi pouquíssimas vezes quando ia até o seu dormitório. De maneira que poderia dizer que essa era a primeira vez o conhecia.

E essa era a situação:

Um completo novato desconhecido, de nascimento comum, seguindo essa lendária figura até a arena de prática com espadas. Definitivamente seria um espetáculo se soubessem o que iria acontecer.

Infelizmente, o que eu temia se concretizou. Vários alunos descobriram o que estava prestes a acontecer e correram para todos os lados do campus espalhando ‘a grande notícia’.

O toque de recolher, indicando final do dia de descanso era às sete horas da noite, nesse momento todos os alunos já deveriam ter retornado. Porém, mesmo sendo algumas horas mais cedo, praticamente a metade já estava de volta à academia.

Assim, pude perceber que tinha um grande número de espectadores animados para assistir esse show.

Pensei em resolver isso o mais rápido possível, me esconder no quarto de Liena e esperar a galera se acalmar, mas…

Como vou fazer isso?

Como Uolo disse, eu atuaria como seu sparring, que era nada mais nada menos, que um duelo incompleto, ou seja, ele iria me usar para treinar seus melhores ataques.

A princípio, um iria atacando até encurralar o outro, porém, se em meio a isso acontecesse um acerto, a ‘regra do primeiro golpe’ como no SAO, estaria valendo e a prática deveria terminar.

Resumindo, ao ser golpeado a luta termina. Poderia usar isso para resolver minha situação.

Claro que o perdedor iria levar dano, o que poderia dar algum problema, pois iria reduzir a vida do oponente, algo que vai expressamente contra as regras do Índice de Tabus.

Mas em contrapartida, essa regra do primeiro golpe, que era proibida mesmo em Zakkaria, poderia ser utilizada aqui sem problemas, já que a academia contava com uma grande quantidade de ervas para feitiços, assim como profissionais com alto nível de Poder Sagrado.

Logo, mesmo se um sparring se machucar gravemente, tudo ficaria bem no final.

Porém, mesmo com isso em mente, o presidente Uolo disse que usará uma espada real. Então a coisa pode ficar mais complicada do que imaginei. Só me resta ficar esquivando ou parando os poderosos golpes dele e me assegurar que minha espada vá parar pouco antes de causar um dano real.

Com toda a certeza fazer isso é que será o grande desafio… E tem outra questão, será que devo ganhar?

Uolo é o maior objetivo e Liena, se eu acabo vencendo, um mero aprendiz que tem estado sob os cuidados dela, como será que se sentirá…? Ficaria feliz? Furiosa? Depressiva? …

Enquanto tentava raciocinar sobre o que fazer, olhei para minha esquerda. O que i foi a aprendiz de espadachim Sortiliena Serlut com seu vestido agitando-se ao vento me olhando intensamente, com meu grande amigo Eugeo ao seu lado.

Eles devem ter vindo correndo pelo caminho todo para chegar até ali. Embora tenha visto Eugeo nesse estado inúmeras vezes, essa foi a primeira vez que vi minha senpai ofegante enquanto corria em minha direção.

Quando se aproximou de mim, mudou de direção e se alinhou com Uolo, mas não antes de me dar uma olhada preocupada.

Ela ajustou seu vestido púrpura, se alinhou em frente à Uolo e disse:

“…Senhor Levanteinn, o que significa isso?”

Dentre todos na academia, Sortiliena era a única estudante que não usava de palavras polidas para falar diretamente com Uolo, e isso sempre causava alguma comoção nos demais.

O melhor espadachim da escola recebeu o perfurante olhar dela sem retroceder ou dar sinal de intimidação. Apenas inclinou um pouco a cabeça e respondeu calmamente:

“Como pode observar, senhorita Serlut, seu ajudante fez algo impróprio. Como considerei que um castigo severo seria inadequado para um dia de descanso, preferi utilizá-lo em algo melhor, no caso, um duelo contra mim.”

O burburinho das pessoas ao redor se intensificou imediatamente.

Liena finalmente se deu conta da grande mancha suja no peito de Uolo. Parecia que estava tentando deduzir o que eu tinha feito enquanto mordia os lábios.

Deixando a conversa dos dois melhores espadachins de lado, virei minha atenção para Eugeo, parado e totalmente pálido ao meu lado.

Sua expressão era a que eu já tinha me acostumado a ver em situações assim. Provavelmente diria algo como: ‘- O que fez dessa vez?’ ou ‘- Onde você estava com a cabeça quando fez isso!?’.

Recebi ele com um sorriso sem graça e disse:

“…Vocês chegaram aqui bem rápido…”

Sussurrei essas palavras enquanto Eugeo sacudia a cabeça uma porção de vezes.

“Mas o que você fez dess… bom, deixa para lá…

Pois é, estava no refeitório quando o ajudante do aprendiz Zobun chegou correndo dizendo que o líder iria provavelmente lutar contigo. Ia ignorar, mas então resolvi confirmar com a senhoria Serlut…, pois mesmo parecendo algo absurdo, levei em consideração que estavam falando de você…”

“Hehehe… então…, parece que é verdade sim…”

Eugeo pareceu querer dizer algo, mas desistiu novamente. Apenas ficou me olhando por alguns instantes, suspirou e disse:

“…Bem, até que foi um milagre você ter ficado tanto tempo aqui sem ter entrado em nenhuma grande confusão… Mas já que entrou nela, seja qual for o motivo, é melhor ir com tudo até o fim.”

“Exatamente o tipo de resposta que esperava de você, meu amigo.”

Acabei sorrindo e Eugeo me deu um cutucão, me dizendo que não era hora para essas coisas.

Liena ainda encarava o presidente Uolo com uma expressão muito séria, mas inclusive eu que não sabia de todas as regras, sabia que não tinha como escapar.

Saí do lado de Eugeo e fui me juntar com ela. Tinha que me desculpar.

“Sinto muitíssimo ter lhe preocupado, senhorita Liena. Mas está tudo bem… e a bem da verdade, creio que conseguir uma chance de enfrentar o líder pode ser uma coisa boa, um golpe de sorte eu diria.”

Essas foram as palavras que sussurrei enquanto olhava bem dentro daqueles grandes olhos azuis, tentando captar suas emoções. Queria saber o que ela sentia de ver seu próprio ajudante enfrentando seu maior rival.

Mas imediatamente me arrependi, pois tudo que vi foi um sincero sentimento de preocupação.

“Kirito… como pensa em ganhar sendo apenas um sparring?”

Foi uma pergunta muito repentina, que me pegou de surpresa.

“Como…? Bem, estaremos utilizando espadas reais, então suponho que iremos lutar até que um seja encurralado…”

“Ah sim! Acabei esquecendo de explicar, senhorita Serlut…”

Uolo interrompeu a conversa enquanto começava a falar em seu usual tom calmo.

“Não farei dessa prática um verdadeiro sparring, pois teria que conter meus golpes. Penso em fazer algo como os exames da academia, mas precisamente usando a regra do primeiro golpe.”

A aprendiz ao ouvir aquilo fez uma expressão de incompreensão total, que imediatamente mudou para fúria, mostrando os caninos enquanto dizia:

“Do que está falando!? Sabe muito bem que só podemos lutar um duelo do primeiro golpe com o consentimento de ambos participantes, isso é o que está descrito no Índice de Tabus. Mesmo que tenha o direito sobre o castigo dos novatos, ainda assim você tem que deixar Kirito decidir se vai aceitar ou não!”

A multidão que estava animada se calou.

É óbvio que não pode aceitar uma regra dessas.

Parece que eu conseguia escutar essas palavras de Eugeo, assim como não precisava que Liena falasse, pois sabia que ela pensava algo muito parecido. Que uma condição como essa do primeiro golpe contra o homem mais forte da academia era completamente absurda.

Isso eu conseguia entender, mas…

“Deixo ao seu encargo, senhor Levanteinn. Afinal, quem está recebendo o castigo sou eu.”

Essas foram as palavras que saíram automaticamente da minha boca.

Exatamente segundos depois, pude ouvir o suspiro de lamento de Eugeo atrás de mim e vi Liena cerrando seus punhos enquanto nitidamente tentava se acalmar. Curiosamente pareceu que pude ouvir outro pequeno suspiro no alto da minha cabeça, isso tem acontecido muito nos últimos tempos, mas talvez seja minha imaginação…

O nome ‘Grande campo de treinamento da academia de maestria com espada’ pode dar a impressão e ser um lugar impressionante, porém, era só uma arena com um tablado simples e amplo para prática.

Seu piso era branco e muito bem polido. Haviam quatro outras arenas negras específicas para uso de sparring. Ao redor foram construídas arquibancadas com capacidade para duzentas e sessenta pessoas, mais do que suficiente para acomodar todos os estudantes da academia durante o maior evento do local, os exames finais.

Parei na arena que Uolo escolheu, olhei ao redor e vi que haviam mais de cinquenta estudantes observando. Como o toque de recolher ainda não tinha soado, aparentemente todos os alunos que haviam retornado até o momento estavam ali. Não bastando isso, também estavam presentes três instrutores, inclusive a supervisora, senhorita Azurika.

Pude perceber a presença daqueles dois nobres de alta classe, Rainos e Wanbell, que ao que parece, também já haviam retornado de suas casas para academia. Estavam sentados bem na frente, rindo e gesticulando como sempre faziam. Provavelmente torcendo para que Uolo destruísse um verme como eu o mais humilhantemente possível.

Quando disse para Uolo que ele poderia escolher a maneira que ele achava melhor para duelarmos, não tinha pensado em um cenário assim, mas acho que agora não tenho mais como fugir.

Por outro lado, tinha algo que ainda estava martelando em minha cabeça.

Será que eu deveria mesmo lutar contra Uolo?

Bem no fundo do meu coração eu queria realmente lutar e ganhar dele, o homem mais forte dessa academia, pois basicamente, esse era o terceiro objetivo que tracei quando deixei a vila de Rulid, lutar contra oponentes fortes. Porém, muito do que eu fizer nessa luta pode refletir nos meus outros dois objetivos primários…

Feliz ou infelizmente, não conseguia frear meu desejo de lutar contra alguém forte como ele. De maneira que farei como Eugeo disse, ir com tudo até o fim.

Realmente queria que Liena ganhasse dele na batalha final. Fazer com que ela vença e se liberte de suas amarras psicológicas. Digo isso pois até agora, mesmo passando tanto tempo treinando junto com ela, jamais a vi dando um sorriso sincero, sempre com aquele semblante carregado.

Enquanto seguia com essas dúvidas no meu coração, observava Uolo parado no outro lado da arena checando a lâmina de sua querida espada.

“Kirito!”

A voz de Liena veio de trás de mim, interrompendo a tempestade de pensamentos em que estava.

Me virei e vi a segunda melhor espadachim me olhando diretamente com aquele olhos azuis penetrantes. Ela se aproximou e sussurrou com uma voz firme:

“Acredito em sua força, Kirito. E por confiar completamente em você que contarei isso. A família Levanteinn que tem a tradição de formar os melhores cavaleiros do império tem uma herança perigosa, uma crença chamada: ‘A espada que bebe o sangue dos fortes, toma o poder para si’.”

“…Sangue? Sério isso?”

Sortiliena confirmou em resposta.

“Sim, Uolo provavelmente já passou por vários duelos de primeiro golpe em sua terra natal muito antes de entrar para essa academia. A sua experiência, possivelmente, é muitas vezes superior à sua. Sem contar no poder daquela poderosa espada…

Acredito, vendo-o tão ávido em lutar com você, que ele quer o seu sangue fresco sendo derramado por sua espada, que o vê como uma presa digna, pronta para ser abatida e absorvida…”

Essas foram palavras difíceis de serem entendidas imediatamente, mas tentei fazer correlação com coisas que eu já vivi e apenas respondi enquanto assentia com a cabeça.

“Sim, entendi!”

Essa revelação vem de encontro com minhas suposições. Tudo isso era devido ao ‘poder da imaginação’.

Era o mesmo caso dos espadachins da família Serlut, que acabavam se prendendo ao pensamento de que o ‘Estilo Serlut era inferior porque seu estilo principal e mais forte estava proibido de ser passado para as próximas gerações’.

Em contraste com a crença da família Levanteinn, que sua imaginação ditava que ‘quanto mais espadas poderosas dos inimigos fossem sangradas e devoradas, mais fortes se tornariam’. Isso é o ponto principal por Uolo ser tão forte.

Provavelmente ele viu a energia desprendida dos meus golpes consecutivos lá naquele bosque e deduziu a prioridade de minha espada negra e isso fez com que considerasse que eu era um oponente que valia a pena deixar sua espada devorar, absorvendo meu sangue.

Podia até soar bonito, mas na verdade eu não passava de gado que merecia ser abatido…

Em outras palavras, se eu recebesse um golpe nesse duelo e sangrasse, a imaginação de Uolo iria se ativar e ele se tornaria muito mais forte. Para ser honesto, a probabilidade disso acontecer era muito alta.

Assim sendo, não podia permitir ajudar o inimigo antes da batalha final com Liena. Agora me arrependi um pouco de não trocar as regras para aquela de a luta terminar quando o oponente fosse encurralado. Dessa forma, não levaria nenhum golpe e estaria tudo bem… Mas já foi, agora é encarar essa.

Minha senpai colocou suas mãos em meus ombros que se encurvaram inconscientemente e disse:

“Não direi isso novamente. Acredito em ti e creio que não é um espadachim qualquer e que irá cumprir com suas promessas, não é verdade?”

“Promessa?”

Repeti a palavra enquanto concordava com a cabeça.

“Sim, te prometi que mostraria tudo o que sabia e é o que farei.”

“Está bem. As condições podem ser um pouco diferente agora, mas não muda o objetivo. Está na hora, Kirito. Mostre todo o seu poder que sei que está aí dentro e derrote Uolo Levanteinn!”

No momento em que escutei isso, todas as dúvidas que tinha desapareceram.

O medo de relegar minha senpai à uma prisão de auto piedade ao derrotar Uolo em combate em seu lugar ou talvez a transformá-la em um inimigo em virtude disso quase me fizeram agir como um covarde e manchar todo seu orgulho e esse não era o tipo de presente de despedida que ela merecia.

Nesse instante, a minha gratidão para àquela pessoa só aumentou, mas ao invés de lhe agradecer com palavras, faria de outra maneira.

Tudo que tenho que fazer nesse momento é pegar minha espada e depositar toda minha alma em sua lâmina e lutar com tudo que tenho. Pois desde o início, esse sempre foi meu objetivo número um. Sou um espadachim acima de tudo.

Dei um pequeno sorriso para Liena e olhei para o lado direito, trocando uma rápida conversa silenciosa com meu grande amigo Eugeo. Viemos de muito longe, testando nossas forças e não é agora que será diferente. Lhe sorri enquanto ele me dava sua usual expressão preocupada, mas alçava seu punho fechado em minha direção.

Respondi com o mesmo movimento e novamente me virei para a senhorita Liena.

“Fiquei olhando, vou cumprir minha promessa.”

Ela assentiu com a cabeça sem dizer mais nada e se afastou.

Vindo do outro lado da arena, um voz poderosa disse:

“Creio que já está pronto, aprendiz novato Kirito.”

Lentamente virei e caminhei rumo à borda da arena coberta de negro e quando cheguei em minha posição, respondi:

“Sim!”

Uolo e eu fizemos uma breve saudação, colocando o punho direito sobre o coração.

Já que não era um duelo oficial, não havia nenhum instrutor fazendo as vezes de juiz. Porém, não havia nenhuma dúvida sobre as condições para ganhar essa luta.

O primeiro a ser golpeado pela espada do oponente e por consequência, sangrar, seria o perdedor.

Dei um passo à frente, dois, três e no quarto parei na linha branca demarcada no chão.

Sacamos nossas espadas, meu oponente pegou a sua magnífica arma do lado esquerdo da cintura e eu de minhas costas. Notei que além do esplendor dourado da empunhadura, sua lâmina era extremamente polida, realçando o brilho prateado. Os estudantes que nos rodeavam soltaram um grande ‘-Oooh!!’ ao vê-la.

Porém, quando olharam para a minha, todos ficaram murmurando como se eu tivesse feito algo errado. Na verdade, eles provavelmente nunca tinham visto uma espada real com a empunhadura e lâminas totalmente negras.

“Minha nossa, Lorde Rainos! E pensar que as pessoas do campo tem esse péssimo costume de pintar suas espadas com tinta!”

Wanbell, que estava sentado bem ao lado de Rainos, riu e gritou das arquibancadas em alto e bom som para todos ouvirem.

“Não diga isso, Wanbell. Esse ajudante aí mal tem tempo para polir as espadas, quanto mais pintá-las…”

Rainos seguiu com seu tradicional discurso sarcástico, entretendo os alunos a sua volta.

No entanto, quando Uolo começou a mover sua espada, a atmosfera ficou completamente silenciosa. Em parte por puro respeito que tinham pelo melhor aprendiz espadachim, mas creio que era mais pela pressão que a postura e presença daquele homem exercia.

A diferença entre uma espada de madeira e uma espada real é tão grande assim?

Foi minha silenciosa pergunta.

Como ajudante da senhorita Liena, presenciei o movimento mais arrasador que Uolo executou durante os três exames passados, o Avalanche do Estilo Norlangarth. Porém, dessa vez a pressão que sentia era completamente diferente, já que ele estava usando uma espada real ao invés de uma de madeira.

Uolo era loiro com a cabeça quase raspada, ligeiramente mais magro do que eu, dando a impressão de ser apenas um peregrino. Porém, se eu continuasse a pensar nele como alguém inofensivo, seria a minha ruina. Pois agora, em frente a esse homem orgulhoso, seu olhos azuis metálicos me perfuravam com a sede insaciável de um espadachim berserker que somente busca usar sua lâmina de metal para cortar o corpo do inimigo.

Se aqui fosse um jogo comum, a espada de Uolo seria classificada como uma Bastard Sword. Uolo usava ambas as mão para levantá-la com sua grande empunhadura e lâmina. O metal parecia envolto em chamas. Essa era a importância que o ‘poder da imaginação’ incrementava na espada. A pressão era tal que fazia o espaço à volta tremular.

“ZUNN!”

Um forte zunido passou por toda a arena e ambos os espadachins entraram em postura de ataque.

Quando ele mover a espada para trás, o Heavens and Moutain Break… ou também conhecido como o ataque de um só golpe de duas mãos, Avalanche, seria ativado.

Me transportei mais uma vez para aqueles dias no passado, na cidade flutuante de Aincrad. Onde passei por incontáveis batalhas, incluindo lutas 1×1.

Em uma determinada ocasião, quando um dos usuários de espada de duas mãos, membro da guilda Blood Knight e guarda pessoal da vice comandante Asuna, um cara chamado Kuradeel, me desafiou para um duelo.

Naquela vez ele também usou o Avalanche como seu primeiro ataque. Resolvi utilizar um ataque de um só golpe, o Sonic Leap, que visou a lateral de sua lâmina. E realmente obtive sucesso, conseguindo quebrar a arma seguindo com a skill Arms Blast.

Essas lembranças que repentinamente relembrei, me fizeram pensar se essa tática iria funcionar novamente. Porém, descartei tão rápido quanto veio.

Pois de fato eu realmente poderia acabar quebrando a espada dele, mas a probabilidade de acabar com a minha também era grande ou no pior dos casos, só a minha seria destruída e meu corpo partido ao meio. Não estava muito afim de apostar.

A forma original do Heavens and Moutain Break era com certeza a do Avalanche, mas o movimento que Uolo usava era completamente diferente com o movimento de Kuradeel, em termos de velocidade e peso.

Ele tinha absoluta confiança em sua força, o que garantia um aumento de poder inacreditável no golpe. Se eu não puder encontrar um poder de imaginação tão forte quanto o dele, algo capaz de romper órgão e os demais tecidos do corpo, não serei capaz de aguentar uma disputa por muito tempo.

Agora não é hora de ficar pensando nisso como sendo uma duelo normal. Tenho que usar todos os golpes consecutivos que conseguir. Meu único objetivo agora é rasgar a sua carne.

Dessa forma, eu iria começar com o primeiro movimento de habilidade de maior nível que podia usar no momento, o de quatro golpes, Vertical Square. Sabia que necessitava de uma enorme concentração, mas eu deveria ser capaz de usar o primeiro, segundo e terceiro golpe para deter o movimento do oponente e golpear com o quarto e vencê-lo.

Levantei a espada com minha mão direita, deixando-a na frente de Uolo e mostrei uma postura firme.

Quando se usa uma habilidade de espada contra outra, o tempo de execução é essencial. Tenho que ativar meus movimentos enquanto sincronizo-o com a ativação das habilidades do meu oponente. Em outras palavras, tenho que ativar depois e golpear primeiro. Ninguém disse que ser um espadachim seria fácil, não é?

A ponta da espada negra se moveu em arco através da parte superior do círculo, se inclinou ligeiramente para trás e nesse momento…

“…HAAAA!!”

Uolo começou a ação enquanto gritava.

A lâmina de sua espada tinha um brilho vermelho-dourado envolvendo-a. O corte superior de duas mãos que destruiu completamente o Cyclone da senhorita Liena três vezes seguidas, parecia criar um caminho flamejante enquanto era executado.

Nessa hora meu corpo começou a se mover. Usei o máximo de poder que reuni para ativar o Vertical Square, tentando reduzir ao máximo as ações de preparação e meu primeiro golpe acelerou adicionando ainda mais impulso enquanto me movia para frente.

“KIIINNNN!!”

Um som metálico rugiu vindo do forte impacto da minha mão direita. Meu primeiro golpe foi detido sem esforço. Os estudantes e instrutores provavelmente pensaram que meu golpe foi o movimento secreto do Estilo Norlangarth, Thunder. Se esse realmente fosse o caso, com meu golpe tendo sido parado, a luta estaria decidida, porém… o show começava agora…

Mesmo que houvesse o choque contra o golpe do oponente, se minha postura não fosse severamente comprometida, a habilidade ativada ainda continuaria.

Como esse era o caso, o segundo golpe do Vertical Square estava vindo por baixo na sequência. A minha habilidade não seria parada tão facilmente.

“ZAAA!!”

Deixei que meu corpo inteiro fosse para a esquerda e movi a espada firmemente para cima. O som do impacto explodiu novamente. O brilho azul que rodeava a minha espada estava mesclado com o brilho alaranjado da espada de Uolo, formando uma deslumbrante luz branca, clareando toda a arena escura onde estávamos batalhando.

Novamente meu golpe foi rechaçado. Porém, a Avalanche de meu oponente também ficou mais branda. Apertei os dentes e imediatamente lancei o terceiro golpe. Um corte na vertical para baixo.

“GAGIIINNNN!!!”

Outro som estridente ecoou para todos os lados quando as espadas se chocaram.

Como eu esperava, o terceiro golpe não foi o suficiente para empurrar a espada de Uolo, mas seu movimento parou.

Se conseguisse empurrá-lo agora, a habilidade Avalanche seria interrompida… mas eu só tinha mais um golpe sobrando.

“UOOOOOHHHHH!!!”

“NU…NNN!!”

Uolo e eu gritamos ao mesmo tempo, desesperadamente tentando parar a espada do outro.

Nesse ponto, o poder de ataque da habilidade de espada o sistema de ajuda ou qualquer outra coisa era inútil. Agora era questão de imaginação versus imaginação, uma batalha de vontades.

As duas espadas que se chocaram emitiram uma forte luz branca, soltando fagulhas brilhante para todos os lados. O piso da arena tremia, porém ainda suportava a pressão sobre ele sem se romper.

Se houvesse alguém observando a memória principal de Underworld pelo sistema no momento, veria que provavelmente várias sessões quânticas estariam brilhando absurdamente.

Nossas Fluctlight estavam emitindo inúmeros sinais luminosos, desesperadamente tentando vencer a outra. Meu oponente havia perdido toda sua compostura, me encarava com o rosto torcido, olhos arregalados e com os dentes à mostra. Eu, provavelmente, estava na mesma situação.

Esse impasse ficou assim por mais uns três ou quatro segundos e então…

Vi algo inesperado.

Nos dois lados e atrás do melhor aprendiz de espadachim, Uolo Levanteinn, pude ver nitidamente mais de cinco figuras, muito parecidas entre si, porém cada uma com sua característica diferente, como se fossem irmãos.

Seus corpos eram translúcidos, segurando uma espada na mesma posição que Uolo. Meus instintos diziam que esses espadachins eram todos os líderes da família Levanteinn das gerações passadas, que herdaram seu orgulho e tradições de serem os melhores cavaleiros do império.

Em outras palavras, isso era o que o simples estudante Uolo estava suportando, mesmo sendo agora o líder da família… ou melhor dizendo, isso é o que estava sendo obrigado a suportar. Essa era a verdade escondida por trás daquela poderosa espada.

Eu… não posso… perder aqui!!

Parecia que conseguia ouvir ele dizer isso. Após essa visão, senti uma força e pressão muito mais pesada do que antes cair sobre meus ombros.

Aquele brilho laranja que rodeava a sua lâmina começou a empurrar a espada negra em minhas mãos. Senti como se ela fosse quebrar a qualquer instante.

Desesperadamente tentei me segurar, mas meus pés começaram a ser empurrados lentamente para trás.

Se fosse arrastado por mais dez… não, cinco centímetros, minha habilidade seria cancelada. Nesse momento, minha espada seria quebrada e meu corpo seria cortado.

Trezentos e oitenta anos.

Essas palavras surgiram em minha mente.

Essa era exatamente a quantidade de tempo que se passou em Underworld desde sua criação. Mesmo que tenha sido envolto por uma lei absoluta, onde não existiam batalhas reais, os espadachins que aqui vivem, seguiram buscando suas habilidades de espadas e refinando-as durante gerações nessas centenas de anos de história. O resultado por si só já estava muitos níveis acima do conceito original das habilidades de ataque de um VRMMO.

Meu pé direito começou a resvalar novamente e o brilho de minha espada diminuindo aos poucos.

“Ainda não!!!”

Definitivamente não estava lutando somente para ganhar experiência ou algo parecido.

Pelo bem de meu bom amigo Eugeo, o primeiro que conheci aqui e também o primeiro a me estender a mão.  Pelo bem de minha senpai Liena, que gentilmente, ainda que de maneira severa, me ensinou incontáveis coisas e as demais pessoas no mundo real que estão esperando a minha volta, Asuna, Suguha, Klein, Liz, Sinon, Agil, Silica e todas as demais pessoas que me aguardam.

“Ainda não…POSSO PERDER AQUI!!!!”

O que parecia ser uma resposta ao grito de Uolo, virou um rugido com toda a força de meus pulmões.

“DOOONNN!!”

A espada em minha mão direita tremeu.

Luzes douradas apareceram no meio do brilho azul que já estava sumindo. Começou a se multiplicar até que cobriram toda a lâmina da espada. Enquanto esse fenômeno ocorria, tudo ao redor se tornou incrivelmente escuro, porém eu não me dei conta disso a princípio.

Isso porque algo mais estranho estava aconteceu com a espada.

“KIN!, KIN!”

Pouco a pouco a espada começou a expandir. Como estava coberta pela luz branca, somente Uolo e eu conseguimos ver. Eram pouco centímetros, mas definitivamente estava crescendo.

Assim como a lâmina, a empunhadura e tudo mais estava ficando muito maior. Nesse momento, como se fosse guiada, minha mão esquerda também agarrou a empunhadura.

Se estivesse em Aincrad, isso seria considerado uma tentativa errada de equipar uma arma e a habilidade seria cancelada imediatamente.

E nessa hora, o brilho azul do Vertical Square que estava prestes a apagar, recobrou sua luminosidade e potência no momento em que minha mão esquerda tocou a empunhadura e luzes douradas começaram a orbitar em sua volta, criando uma espécie de vórtice.

Senti a força selvagem que a espada negra em minhas mãos estava liberando e por alguma razão lembrei de seu estado original… lembrei do imponente titã, o Giga Cedro. O mesmo cedro gigante que se encontrava no meio da floresta ao sul de Rulid. Lembrei de como ele absorvia uma quantidade absurda de recursos, tanto da terra quanto do sol, esse grande ser que viveu por mais de trezentos anos sem ser cortado.

…As memórias… da… espada…

Essas palavras vieram aos meus ouvidos mais uma vez e foram imediatamente coberta pelo meu rugido.

“OOOOOOOOOOHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!”

Expulsei tudo que restava de minha força de vontade e joguei tudo para fora.

No momento em que meu pé direito aterrissou no piso, a intensidade da energia causada pelo choque das espadas atingiu o limite e explodiu…

Foi como se um feitiço de combustão das artes sagradas de alto nível tivesse detonado entre nós dois. Uolo e eu fomos empurrados para trás.

A medida que éramos arrastados, nossos pés deixavam marcas queimadas no piso, soltando fumaça. Mas mesmo com essa explosão, conseguimos nos manter me pé, só esperando nos estabilizarmos para seguir marcha novamente para frente.

Ambos paramos nos limites opostos da borda da arena.

Com as espadas afastadas, a Avalanche de Uolo estava finalizando sua ativação, com seu brilho desaparecendo gradualmente.

Porém… o meu golpe Vertical Square ainda continuava ativo, mesmo com a postura modificada, com as duas mão na empunhadura.

“SEIAAAAHHHHH!!”

Não peguei impulso, só retrocedi um pouco, girei e soltei o golpe final com tudo que tinha, em único corte para cima. A espada soltou um brilhante arco de luz azul… que foi rumo ao peito indefeso de Uolo.

O corte roçou nele levemente apenas, parando a linha de dano real bem em sua frente, espatifando o azulejo.

O Vertical Square não era um gole de estocada depois de tudo…

Fiz meu melhor esforço para expandir seu raio de ação, mas não o suficiente para passar através da arena inteira. Terei que treinar um pouco mais…

Uolo e eu nos encaramos novamente e…

“JÁ CHEGA!!”

Sword_Art_Online_Alicization_Kirito_x_Uolo

Uma voz aguda interrompeu a luta.

Institivamente saltei um pouco para trás e baixei minha espada. Uolo fez o mesmo, dessa maneira, saímos imediatamente do ‘modo de batalha’.

Logo fiquei sem ação, ao ver que era a senhorita Azurika.

Me veio a dúvida imediatamente, do porquê uma supervisora de dormitório que não atua como árbitro parou o duelo? E como ela foi capaz de impor tamanha obediência no melhor aprendiz de espadachim?

Enquanto remoía isso, o melhor aprendiz de espadachim se aproximou pela esquerda e sussurrou:

“A decisão dessa senhorita deve ser acatada”

“Certo, mas… porque?”

“Porque essa mulher foi a representante número um de todo o Império de Norlangarth durante o quarto torneio da unidade imperial há sete anos. ”

“O quêêê!?”

Uolo Levanteinn ficou desconcertado com minha reação, porém quando se virou diretamente, me olhou novamente com aquela expressão calma de sempre e não como um berserker maluco por sangue de minutos atrás e disse:

“O castigo terminou, aprendiz novato Kirito. Seja cuidadoso e procure não lançar mais terra na roupa de outras pessoas no futuro.”

Depois de dizer isso, Uolo embainhou a espada e se afastou.

O uniforme branco e azul cruzou toda a arena e logo desapareceu no portão de saída.

“UUWAAAAAAAAAAHHHHH!!”

Foi uma tremenda gritaria e salvas de palmas. Surpreendido, olhei em volta e percebi que o número de estudantes nas arquibancadas já havia chegado aos cem, inclusive diversos professores aplaudindo e sorrindo. Até mesmo a supervisora Azurika fazia o mesmo, embora com sua usual expressão séria. Olhei um pouco mais para o lado e vi meu companheiro levantando o punho em minha direção, assim como seu superior, Golgosso que também estava ali.

Baixei a cabeça, olhando para minha mão direita e percebi que a minha nova companheira negra já tinha regressado ao seu tamanho normal. Então embainhei novamente e…

“TUMM!”

Recebi um baque nos ombros. Ao me recuperar do susto, percebi finas e brancas mãos que me forçavam a girar. Era Sortiliena com uma expressão mais assombrada do que as que Eugeo costuma fazer.

“… Não consigo acreditar que você não se feriu!”

Respondi imediatamente:

“Sim… eu também não posso acreditar.”

“E mesmo assim você não se rendeu…?? Seu maluco!”

Vi que seus olhos tinham ficado um pouco marejados, porém, não deixou rolar nenhuma lágrima, ao invés disso, baixou um pouco a cabeça e quando levantou, seus olhos emitiam um brilho que nunca tinha visto antes.

“Aquilo foi maravilhoso… realmente uma magnífica atuação, Kirito. Deixe-me ser a primeira a lhe parabenizar por isso. É mesmo uma pena que não foi em uma batalha comigo… mas ainda assim, você cumpriu com sua promessa e me mostrou tudo o que tinha…

Muito obrigada!”

“Mas… acabei empatando…”

“E não se contenta com isso? Você lutou contra o Levanteinn!!!”

“N-Não é isso…eu, é que…”

Quando me viu gaguejando e tentado formular uma resposta melhor e me perdendo mais ainda nas palavras, Liena deu um sorriso estranho, se aproximou de meu ouvido e disse baixinho:

“Não foi questão de ganhar ou perder. Você me mostrou durante a luta algo muito importante. Me sinto completamente orgulhosa de ser a herdeira do Estilo Serlut… e muito feliz de ter sido sua mentora, seu incrível garoto estranho.”

Ao terminar de dizer isso, me deu outro tapa no ombro e ainda com aquele sorriso nos lábios, falou:

“Ainda temos tempo antes do toque de recolher. Que tal vir para meu quarto para celebrar? Traga seu amigo Eugeo junto e … sim, porque não? Convide o mentor grandalhão dele também!”

Sorri enquanto concordava com a cabeça. Me virei e sinalizei para Eugeo e Golgosso nos encontrar no portão de saída e então segui caminhando juntamente com minha animada senpai para fora da arena.

Na passada pelas arquibancadas, antes de ocupar minha mente com vários goles do vinho que Liena havia escondido no seu quarto e me entreter com as divertidas histórias de Golgosso, sobre suas grandes lutas, ainda consegui ouvir:

“…Acreditem! Eu mesmo poderia ter parado esse duelo!!”

Observei de canto de olho e vi Rainos e Wanbell me olhando de uma maneira estranha, porém, nada disseram para mim e eu também os ignorei.

Nada iria estragar esse momento.

Realmente, foi uma grande luta.

 

A RETA FINAL DO VOLUME SE APROXIMA, ATÉ O PRÓXIMO CAPÍTULO !!!

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Trilha animada para uma bela batalha 😀