Sword Art Online Alicization Beginning em Português – Underworld – Parte 5

Arco: Alicization

Underworld – Parte 5

Kirito e Selka - Sword Art Online Alicization
Me desculpe Asuna, Yui e Selka…

O som claro das batidas ecoavam alto no céu da primavera.

Eugeo terminou sua série de cinquenta machadas, secou o suor de sua testa e veio em minha direção. Alcancei o cantil com a água Siral e perguntei:

“Como você está? A ferida não dói mais?”

“Hum, estou bem. Fiquei novo em folha depois de um dia de descanso. Restou apenas uma pequena cicatriz, estranho, não é?

E por falar em coisas estranhas…, não sei se é a minha imaginação, mas parece que o Machado de Osso de Dragão está tremendamente leve.”

“Deve de estar mesmo. Pois você acertou quarenta dos cinquenta golpes na árvore bem no centro.”

Ao ouvir isso, Eugeo fez uma expressão surpresa e logo sorriu.

“Sério? Então vou ganhar a aposta de hoje.”

“Humm, veremos…”

Lhe devolvi o sorriso, me levantei e peguei o machado. Usei a mão direita para sentir seu peso e ajustar o balanceamento. Incrivelmente a sensação era de que a ferramenta estava muito mais estável e leve do que eu me recordava.

Duas noites haviam se passado desde aquela terrível experiência na caverna ao norte.

Eugeo conseguiu manter sua vida com ajuda das artes sagradas de Selka. O sol já havia se posto quando voltei carregando Eugeo e a cabeça do chefe goblin até a vila de Rulid. Todo mundo estava reunido na praça, discutindo estratégias para formar uma equipe de procura e eventual resgate.

E no momento que nos viram chegando, deixaram escapar sons de alívio. Porém, logo após fomos duramente repreendidos pelo chefe Gasupht e a Irmã Azariya. Era provável que os adultos estivessem mais assustados com algo supostamente impossível, que era a possibilidade de três jovens romperem com as regras do vilarejo do que com o que de fato aconteceu.

Porém, quando levantei a cabeça do líder goblin com minha mão esquerda diante de todos, as reações imediatamente mudaram. Os olhos amarelados de Ugachi que eram duas vezes o tamanho de um humano, com seus afiados dentes desparelhos e a aparência selvagem, olhavam diretamente para eles. Depois de um momento de silêncio, os adultos começaram um alvoroço muito mais forte do que antes.

Depois disso, Eugeo e Selka foram os que continuaram com as explicações sobre o grupo de goblins acampados na caverna do norte que, possivelmente, eram batedores exploradores do Dark Territory.

O chefe da aldeia e todos os demais pareciam não crer no que ouviam. Como fizeram de início, quando quiseram tratar o fato como sendo apenas coisas sem importância, besteiras e imaginação de crianças. Porém não puderam rir ao ver a cabeça decepada daquele monstro colocada sobre os degraus da escada de pedra da praça.

O tema da conversa começou a rumar rapidamente para a defesa da aldeia e só então fomos liberados para tratar as feridas e descansar.

Deixei Selka tratar da ferida do meu ombro esquerdo quando chegamos na igreja e logo adormeci. No dia seguinte, foi nos permitido tirar um dia de descanso do trabalho que usamos para dormir e recobrar as forças.

Outra noite se passou e a manhã chegou. A dor no ombro e o cansaço haviam desaparecido por completo.

Depois de tomar o café da manhã, caminhei com Eugeo rumo à floresta como se nada tivesse mudado. Meu esforçado amigo seguiu sorrindo e enérgico como sempre. E em um piscar de olhos, já havia terminado seus cinquenta golpes no tronco e já passava o machado para mim.

Olhei para a ferramenta em minha mão direita e disse para Eugeo:

“Eugeo, você se lembra…? Na caverna, quando o goblin te atingiu…, me disse algo estranho… Deu a enteder como se tu, Alice e eu fôssemos amigos de infância… ”

Eugeo não respondeu imediatamente. Ficou em silêncio por um tempo enquanto uma leve brisa soprava e sacudia as árvores em volta. Uma voz suave veio junto com o som do vento e chegou aos meus ouvidos.

“…Eu lembrei. Deveria ser impossível… mas por alguma razão, foi uma lembrança muito clara. Nós três nascemos e crescemos juntos nessa aldeia… e também você estava aqui quando Alice foi levada”

“…Entendo…”

Concordei com a cabeça enquanto comecei a pensar.

Talvez suas memórias tenham retornado completamente quando se deparou com aquela situação extrema. Esse era o melhor palpite que podia dar no momento. Já que o que forma a consciência e personalidade de Eugeo era um Fluctligh como o meu, não seria impossível dizer que poderia ter alguns erros em suas memórias quando estava no limiar da morte.

Porém , o problema era que nessa situação eu tive o mesmo tipo de confusão mental. Vendo Eugeo morrendo pouco a pouco na minha frente, acabei tendo uma vívida recordação de que nasci em Rulid e cresci ao lado dele e da menina de cabelos loiros e compridos, Alice, quem até agora só tinha ouvido falar.

Isso era impossível. Eu, Kiirigaya Kazuto, tenho uma memória completa de viver com sua irmã Suguha em Kawagoe, no distrito de Saitama até os dias atuais, ou melhor dizendo, até o momento em que despertei nesse mundo.

Não posso acreditar que todas essas recordações foram fabricadas.

Será que foi uma alucinação que Eugeo e eu tivemos ao mesmo tempo?

Se for esse o caso, então há somente uma maneira de descobrir.

Quando Selka utilizou as artes sagradas para transferir a minha vida para Eugeo, senti a presença de uma quarta pessoa enquanto minha mente se entorpecia. Inclusive, essa pessoa disse:

Kirito, Eugeo… Eu estou esperando há tanto tempo por vocês. Continuarei aguardando… no topo da Catedral Central…

Não podia tomar aquela voz como uma alucinação criada em meio a perda gradativa de minha consciência. Isso porque nunca tinha ouvido o termo ‘Catedral Central’ antes. Não existe nada parecido no mundo real e nem mesmo nos outros tantos mundos virtuais pelos quais passei, ou seja, isso é algo que provavelmente só tem aqui.

Aquela voz não pertencia a nenhum de nós dois e muito menos da pequena Selka. Tenho convicção de que alguém realmente falou. Seria… muito forçado deduzir que era a própria Alice? A garota que foi levada de Rulid há seis anos? Se realmente foi ela, será que esse meu improvável passado aqui, com Eugeo e Alice de fato existiu…?

Interrompi novamente esses pensamentos e disse:

“Eugeo, na caverna, quando Selka utilizou a arte sagrada em você. Por acaso ouviu a voz de mais alguém além de nós?”

Ele imediatamente respondeu:

“Não. Já havia perdido a consciência naquela hora. Porque a pergunta? Você escutou alguma coisa, Kirito?”

“Não… nada. Talvez tenha sido só imaginação. Bom, vamos esquecer isso e voltar para o trabalho. Meu objetivo agora é acertar o alvo mais de quarenta e cinco vezes.”

Resolvi deixar esse assunto de lado por enquanto. Parei na frente do Giga Cedro novamente, segurei firme o machado com as duas mãos e concentrei todas minhas forças nos músculos do corpo.

O machado balançou e seguiu perfeitamente a trajetória que tracei mentalmente. Pareceu que a ferramenta estava sendo atraída pelo tronco da árvore em direção ao centro do corte.

***

Por hora terminamos.

Acabamos os primeiros mil golpes trinta minutos mais cedo. Talvez pelo fato de não termos cansado muito. O número de cortes certeiros aumentou significativamente em comparação a semana passada. Podia até ser a minha imaginação, mas era como se nossos olhos pudessem ver o avanço nas marcas naquele enorme tronco. Coisa que antes era impossível distinguir.

Eugeo deitou no chão plenamente satisfeito e disse que deveríamos almoçar, mesmo sendo um pouco cedo. Se recostou em uma das raízes do Giga Cedro como de costume, comigo ao seu lado. Pegou um pão do embrulho que tínhamos trazido e me alcançou outro.

Dei uma mordida naquele pedaço de pedra enquanto dizia com um sorriso irônico:

“Seria ótimo se esse pan ficasse um pouco mais macio, assim como o machado ficou mais leve.”

“Hahahaha!”

Eugeo deu uma risada enquanto mordia um pedaço também.

“…Infelizmente, segue sendo igual. E falando nisso… Porque será que estamos sentindo o machado mais leve…?”

“Vai saber…”

Disse isso, mas já havia previsto esse efeito no momento em que abri a minha janela de status na noite anterior. O problemático medidor de Autoridade de Controle de Objetos, a Autoridade de Controle de Sistema e minha vida máxima haviam aumentado consideravelmente.

Podia imaginar a razão também. Nós conseguimos enfrentar um grande grupo de goblins, fazendo-os fugir da caverna, em outras palavras, completamos uma missão de alta dificuldade e ganhamos Level Up, como um VRMMO normal. Não gostaria de fazer novamente, mas ter vencido uma dura batalha como aquela tem suas recompensas.

Pela manhã, fingi não saber de nada e em conversa com Selka, perguntei se ela passou pelo mesmo. Me respondeu que incrivelmente, as artes sagradas que ela tinha um alto índice de fracasso na semana passada, agora conseguia utilizar corretamente sem problemas.

Mesmo que Selka não tenha tomado parte da batalha propriamente dita, conseguiu obter o efeito de Level Up. O mais provável é que nós três tenhamos sido tratados como membros de uma party e dividimos a experiência. Ao meu ver, não fazia objeção quanto a isso.

A Autoridade de Controle de Objetos de Eugeo deve ter aumentado em torno de quarenta e oito como a minha. Nesse caso, não havia razão para não tentar ‘aquilo’ novamente…

Terminei o almoço com algumas bocadas a mais e me levantei. Eugeo seguia comendo o dele calmamente enquanto me observava. Caminhei até a abertura do corte no tronco do Giga Cedro e extendi a mão ao lado, até o embrulho onde estava a Blue Rose Sword que háviamos deixado ali dias atrás.

Agarrei ela ainda na manta de couro e rezando um pouco para que estivesse certo, utilizei toda minha força para leventá-la.

“Ohh…!!!”

Imediatamente, quase caí de costas enquanto retrocedia vários passos. O peso absurdo que lembrava sentir, havia diminuido ao ponto de parecer que estava segurando uma simples barra de ferro, com um bom peso, mas nada comparado ao de antes.

A espada continuava forçando meus punhos, porém, essa pressão foi bem mais agradável. Era como se estivesse com uma de minhas queridas espadas do antigo Aincrad novamente.

Retirei a manta, afrouxei as cordas com a mão esquerda, enquanto segurava a empunhadura com a mão direita.

Eugeo, ainda mordendo o pão, arregalou os olhos e lhe respondi com um sorriso.

Enfim, desembrulhei totalmente a espada e a tirei da bainha, produzindo um som metálico poderoso.

Diferente de alguns dias atrás, dessa vez manejar a espada não foi nem um pouco difícil. Senti como se ela fosse uma linda princesa, que repousava em minhas mãos.

Quanto mais a olhava, mais linda ela ficava. Admirei sua maravilhosa empunhadura de couro branco com aquelas texturas bem detalhadas, a transparência da poderosa lâmina, que transformava a luz que a atravessava em magníficos raios azulados, juntamente com aquele intrincado padrão de rosas com cores vivas, os quais formavam um conjunto absurdamente mais detalhados do que qualquer sistema de polígonos pudesse reproduzir.

Não era de se estranhar que o personagem daquela história, Bercouli, tenha tentado roubá-la do dragão.

“Ei! … Ei, Kirito! Como está conseguindo segurar ela assim!? E somente com uma mão!”

Eugeo disse isso enquanto me olhava com espanto a girar a espada de um lado para o outro.

“Heh! Os pães podem não ter ficado mais macios, mas essa espada com certeza ficou mais leve, não acha?”

Me virei para o Giga Cedro novamente, baixei minha cintura. Meu pé direito deu um passo para trás e puxei a espada com a mão direita para minha lateral, com o objetivo de realizar um movimento giratório simples na horizontal. Enquanto focava minhas forças por um instante, a lâmina desprendeu uma suave luminosidade azulada.

“SEEEEIII !!”

Gritei ao mesmo tempo que pisava com força o solo. O sistema de assistência reconheceu a postura correspondente da sword skill e me acelerou para efetuar um golpe com velocidade e precisão esplêndidas. Esse era o golpe de espada com uma mão, Horizontal.

A Blue Rose Sword se tornou um raio horizontal, enquanto atingia com precisão milimétrica o local onde tinha focado, causando um som de impacto tremendo. O imenso tronco do Giga Cedro tremeu e as aves que estavam em seus galhos saíram voando para longe.

Fiquei imóvel, saboreando aquela sensação nostálgica do ‘homem se tornando um com a espada’.

Ah…! Que saudades disso…!

Olhei para meu braço estendido e segui o olhar até a espada. A lâmina azul claro e prateada estava cravada na madeira até a sua metade, onde dava para ver o núcleo da árvore recém exposto brilhando com uma luz negra metálica.

Dessa vez, não apenas seus olhos, mas a boca de Eugeo se abriu tanto que deixou até cair o pão que estava comendo, no musgo. Porém, o garoto que tinha a sagrada tarefa de lenhador pareceu nem notar. Apenas conseguiu dizer com a voz trêmula:

“…K-Kirito…, isso de agora foi… uma Habilidade de Espada !?”

Pensei por um instante. Já tinha ouvido que nesse mundo, existe um conceito de habilidades com a espada. Mas o que não sei, é se a habilidade que ele se refere é a mesma que conheço, que é regida por um sistema ou se ele está querendo dizer outra coisa. Devolvi a espada na bainha que estava na minha mão esquerda e respondi cautelosamente:

“Ãh… sim, creio que sim.”

“Então nesse caso… a sua Tarefa Sagrada, antes de ser levado pelo Deus da escuridão, pode ter sido um segurança de algum senhor de terras… não, talvez você fosse um sentinela de alguma cidade grande. Pois somente as forças militares podem utilizar habilidades de espada reais”

Eugeo deixou fluir uma torrente de palavras, algo pouco comum da sua natureza, mas seus olhos verdes estavam brilhando mais do que nunca. Ao ver isso, entendi de imediato. Seu trabalho era encarregar-se do corte de madeira, tarefa que ele vem fazendo nos últimos seis anos sem sequer reclamar. Mas sem dúvida, tinha a alma de um espadachim. A admiração por esse objeto chamado espada e o desejo de dominar as técnicas com ela estavam gravados em seu interior e agora, estampado em seu rosto.

Eugeo se aproximou até chegar na minha frente. Me olhou diretamente nos olhos e preguntou com uma voz tremida:

“Kirito… suas habilidades, qual é o nome do clã a quem pertencem? Você por acaso se lembra…?”

Pensei por um momento e logo sacudi a cabeça.

“Não consigo lembrar. Só sei que ela se chama Estilo Aincrad.”

É claro, esse era um nome que inventei na hora, mas uma vez que o disse, senti que qualquer outro nome não funcionaria. Isso porque todas as minhas habilidades foram aprendidas e aperfeiçoadas naquela cidade flutuante.

“Estilo, Ain… crad.”

Eugeo repetia isso enquanto concordava com a cabeça.

“Que nome interessante. Nunca tinha ouvido antes, mas pode ser o nome de seu mestre ou da cidade de onde você veio… Kirito, bem… eu…”

Meu admirado amigo repentinamente olhou para o chão e balbuciou algo quase inaudível. Mas depois de alguns segundos, levantou a cabeça novamente e dessa vez disse com uma voz e expressão determinadas:

“Você pode me ensinar a suas habilidades com a espada do estilo Aincrad? Sei que não sou um soldado, nem tampouco um guarda da vila… que nesse caso, teria uma regra que impedisse o aprendizado…”

“O Índice de Tabus, a lei… Imperial, tem alguma cláusula que diga ‘Quem não for um soldado não pode aprender habilidades com a espada’?”

Fiz essa pergunta calmamente. Eugeo mordeu um pouco os lábios e depois de um tempo respondeu:

“…Não existe tal cláusula… porém tem uma que diz que está proibido de ter múltiplas Tarefas Sagradas.

Normalmente, àqueles a quem foi outorgado a Tarefa Sagrada de guardas ou soldados, podem aprender habilidade com a espada. Assim que, se eu começar a aprendê-las… pode ser que seja visto como alguém que tenha renunciado à sua tarefa atual….”

Eugeo pareceu murchar na minha frente conforme seus ombros caíam lentamente. Porém mantinha seus punhos cerrados com força, tencionando os músculos enquanto falava.

Metaforicamente falando, vi como se o coração de meu amigo estivesse totalmente acorrentado. As pessoas que vivem nesse Underworld, os Fluctlight artificiais que o RATH produziu em massa de alguma maneira, tinham um único ponto que as pessoas do mundo real como eu não tínhamos.

O mais provável era que eles nunca pudessem ir contra as regras de alto escalão que estavam gravadas em suas consciências.

E a regra maior era justamente a da Igreja Axiom, o Índice de Tabus, lei essa que nem o Império de Norlangarth poderia ir contra. Sem contar que, possivelmente, cada povoado ou cidade tinham seus próprios conjuntos de regras. Como as da vila de Rulid. Fazendo que seus moradores estejam sempre controlados de maneira a nunca seguirem seus sentimentos e vontade por conta própria.

Por isso, Eugeo só podia reprimir seu desejo de ir buscar sua amiga de infância, Alice, que foi levada até a capital. Reprimiu seu coração e continuou balançando o machado, frente à árvore gigante que definitivamente nunca cairia enquanto ele vivesse.

Mas justo agora, nesse momento, ele estava lutando com todas suas forças, querendo mudar seu destino por sua própria vontade.

É claro que ensinarei as técnicas de espada. Farei isso em respeito à sua enorme admiração por elas e o mais importante, devido sua grande esperança guardada a tanto tempo… a de resgatar Alice. Por isso ele teria que ficar mais forte para poder lutar. Talvez esteja refletindo nele o meu próprio desejo de se tornar mais forte…

Eugeo ficou de cabeça abaixada enquanto tremia um pouco. Fiquei observando-o em silencio, repetindo mentalmente…

“Vamos! Força, Eugeo! Jamais se renda! Não perca seus sonhos. Um passo de cada vez… sei que consegue, pois você é um espadachim.”

E naquele instante…

O garoto de cabelos cor de linho pareceu escutar as minhas silenciosas palavras. Levantou o rosto com seus olhos brilhando com uma intensidade que nunca tinha visto até aquele momento. E disse pausadamente com uma voz rouca:

“…Mas, mas, eu… quero, ser mais forte. Para nunca mais cometer o mesmo erro. Preciso recuperar… o que perdi, Kirito. Por favor…, me ensine as habilidades com a espada. ”

Me emocionei imediatamente com essas palavras enquanto dizia sorrindo:

“Entendido. Lhe ensinarei tudo que sei, mas prepare-se! Pois não será nada fácil.”

Eugeo me olhou espantado, então fiz uma expressão mais amigável e estendi a mão direita para ele. Seus ombros ficaram menos tenso à medida que apertava minha mão com força.

“O-Obrigado. Isso era realmente algo pelo qual sempre… sempre estive esperando…”

Eugeo novamente baixou a cabeça enquanto, duas, três gotas de lágrimas deslizavam pelo seu rosto. E antes que me desse conta, ele deu um passo adiante e encostou o rosto no meu ombro direito e deixou escapar um pequeno choro, que me pareceu uma mistura de alívio e angústia.

“Agora… entendo. Tenho esperado por você, Kirito. Durante seis anos, nessa floresta. Esperando que você chegasse…”

“Ah…”

Respondi com apenas um som, sem saber muito o que dizer. Utilizei a mão que ainda segurava a Blue Rose Sword e lhe dei um pequeno tapinha em suas costas.

“…Sim, creio que… devo ter despertado aqui, nessa floresta, apenas para poder te conhecer também, Eugeo.”

Mesmo sendo palavras que disse inconscientemente, senti que eram a mais pura verdade.

***

A árvore demoníaca, o tirano da floresta, o Giga Cedro, duro e resistente como aço, foi finalmente, ou deveria dizer, facilmente, derrubado.

Com apenas cinco dias depois que Eugeo e eu usarmos a Blue Rose Sword para praticar as técnicas do Estilo Aincrad em seu tronco, o enorme titã foi ao chão.

A razão era simples. A árvore gigante era uma perfeita plataforma de treinamento. Cada vez que mostrava uma técnica, como a Horizontal para Eugeo, ele podia praticar nela outra e outra vez e consequentemente, o corte no tronco foi ficando cada vez mais profundo.

Uma vez que a profundidade do dano no tronco ocupou certa de 80% do diâmetro, aconteceu…

“-SEEEEIAAAAA!!”

A árvore recebeu o golpe horizontal refinado de Eugeo e produziu um rangido juntamente com um chiado absurdamente alto.

Nos olhamos estupefatos e logo o grande cedro, que se erguia até o céu, começou a cair lentamente. Acompanhado dos nossos olhares em choque.

Porém, nesse momento, não senti como se uma grande árvore estivesse caindo e sim como se a própria terra onde estávamos estivesse se movendo. A árvore pareceu alterar a gravidade de tudo que estava a sua volta, sua enorme copa, que preenchia tudo ao redor, conforme ia descendo era como se tivesse nos puxando junto enquanto caia. Foi realmente uma cena muito surreal.

80 centímetros, se for descrito com a unidade de medida do mundo real ou 80 cen, a unidade daqui, era tudo que compunha as raízes dessa colossal árvore. As quais não puderam suportar aquele enorme peso e se romperam, saindo grandes pedaços para fora, como se as ramas fossem feitas de puro carvão.

O grito final do gigante foi tão intenso que há quem diga que chegou a ser ouvido até no centro da vila.

Eugeo e eu gritamos ao mesmo tempo em que nos dividíamos entre direita e esquerda. Toda a forma negra do Giga Cedro ao cair, possibilitou a visão do céu, que já estava com seu tom característico alaranjado do final de tarde. O grande tremor e estrondo que aquele enorme corpo fez ao atingir o chão, nos derrubou de tal forma que perdemos cerca de 50 pontos de vida.

***

“Isso é realmente surpreendente… Não sabia que tinha tantas pessoas nessa vila.”

Recebi de Eugeo uma grande jarra cheia de suco de maçã enquanto dizia isso.

Tínhamos contado até agora uns quatro grupos de fogueiras na praça central de Rulid, que iluminava os rostos de todos os aldeões reunidos ali. A banda que estava próxima à a fonte, tocava instrumentos que à primeira vista, me pareceu ser gaitas e flautas muito grandes.

Além disso, haviam dançarinos vestidos com peles de animais se embalando ao ritmo daquele estranho som. Estavam todos aplaudindo acompanhando a melodia enquanto a noite seguia.

Me sentei em uma mesa um pouco afastada e percebi que meus pés estavam se movendo também ao ritmo cadenciado da música. Repentinamente senti um real desejo de sair dançando junto com os aldeões. Me dei por conta disso e achei engraçado e também incrível.

“Creio que essa é a primeira vez que vejo tantos aldeões reunidos. Inclusive tem mais gente do que nas festas do Dia Santo, no final do ano. ”

Eugeo sorria muito enquanto dizia isso e eu pegava a jarra e me servia mais. Não tinha ideia de quantas vezes brindamos. A cerveja que acabei bebendo era muito espumosa, tanto quanto aquele suco de maçã de antes, que agora percebo, não era suco, pois conforme bebia, mais meu rosto se tornava quente.

Uma vez que souberam que o Giga Cedro tinha sido derrubado, o chefe da vila organizou uma reunião do conselho do vilarejo com os mais influentes e antigos do local para decidir o que fazer. Durante esse tempo, parece que ocorreu um acalorado debate sobre o destino do ‘Cortador da Árvore Gigante’, Eugeo e o ‘Garoto Perdido’, no caso, eu.

O que era mais apavorante foi que algumas pessoas acharam que tinha sido muito mais cedo do que o esperado. Basicamente até era verdade, ‘só’ uns 900 anos antes. E essa mesma ‘galerinha bacana’ chegou a cogitar que deveríamos ser castigados por isso…

Porém, o chefe Gasupht deu por encerrado os assuntos e decidiu que o que realmente importava era que a vila tinha que organizar uma festa para celebrar o final de uma Tarefa Sagrada conforme a lei.

Não fazia ideia do que se tratava a lei e tampouco perguntei. Eugeo de alguma maneira percebeu isso, sorriu e disse que eu saberia dentro de pouco.

Ao menos de uma coisa eu tinha certeza, pela expressão contente de meu amigo, sabia que não seria castigado. Terminei outra caneca de cerveja, peguei um pedaço de carne assada com salsa, coloquei no meu prato e dei uma grande mordida.

Pensando agora, depois que cheguei nesse mundo, tudo que comi quase não tinha gosto. Do pedaço de pedra que eles chamavam de pão, até a comida da igreja, tudo era insosso. Então essa era a primeira vez que estava comendo algo que realmente era gostoso.

A carne foi tão bem preparada e os temperos me eram tão familiar e verdadeiros, que era muito difícil diferenciar que esse não era um mundo real. Não tive dúvidas, comi e bebi tudo que pude. Pois somente com esse aroma e sabor, já era motivo suficiente para entrar em batalha contra o Giga Cedro novamente.

Enquanto seguia pensando nos ingredientes da comida, olhei mais para a frente e vi Eugeo erguendo a Blue Rose Sword orgulhosamente.

Nesses últimos cinco dias, ele esteve praticando incessantemente o golpe mais básico de uma mão, o Horizontal no Giga Cedro. Fazendo exatamente o que, o recém nomeado ao acaso, Estilo Aincrad, necessitava para ser ativado.

Ainda estava intrigado que uma técnica dessas existisse aqui nesse mundo. Algo oriundo daquele VRMMO, Sword Art Online.

Porém, até conseguiria entender que essas ações podiam ser replicadas. Quando converti meus dados para o jogo baseado em armas, o mundo de Gun Gale Online, usei umas quantas habilidades de espadas para finalizar algumas batalhas, mas na verdade, somente deixei que o avatar seguisse as ações que eu já tinha automaticamente memorizado, sem efeitos de luz ou sistemas de assistências para acelerar as técnicas, já que o objetivo daquele jogo era outro. Ou seja, eu replicava os movimentos, porém sem assistência, pois essas habilidades não estavam no sistema do GGO.

Porém aqui, no mundo de Underworld, todas as habilidades de espadas estão com todos os efeitos completos. Se faço o movimento de ativação inicial e imagino as ações que a habilidade irá fazer, a espada começa a brilhar e acelerar.

Estava preocupado que somente eu pudesse fazer isso, porém, já no segundo dia de treinamento, Eugeo conseguiu fazer um Horizontal. Provando que os habitantes daqui também podem utilizar as técnicas quando houver as condições ideais.

A pergunta agora é porque esse fenômeno aconteceu? Não deve haver nenhuma relação entre o RATH e o grupo de desenvolvimento técnico do STL, com o extinto Argus, que criou SAO.

Se houvesse alguém, esse seria… o homem que me apresentou àquele estranho grupo chamado RATH e que antes fez parte da equipe de trabalho nacional no incidente de SAO…

“Não me dia que…”

Murmurei enquanto comia um segundo pedaço de carne. Se o que estava pensando fosse verdade, essa pessoa não é somente alguém que indicou um trabalho, mas alguém profundamente relacionado com a origem desse incidente…, porém, não tinha como comprovar isso… ainda.

Para conseguir mais informações, primeiro tinha que sair de Rulid e ir até a capital ao sul.

O maior obstáculo desse plano era o Giga Cedro e esse já foi resolvido. Assim que agora só havia uma coisa por fazer…

Depois de terminar a refeição, me levantei da mesa e fui até meu companheiro que estava de pé, olhando para os aldeões mais a frente.

“Ei…Eugeo…”

“Hum? … Diga!”

“O que você pretende…”

Antes de conseguir continuar, uma voz interrompeu.

“Aí! O que estão fazendo escondidos os dois personagens principais dessa celebração?”

Demorei um pouco para perceber que a pessoa parada na nossa frente com os braços cruzados, era Selka. Ela havia soltado as três tranças e feito um rabo de cavalo. Não vestia o hábito de Irmã, mas um vestido esverdeado com um casaco roxo.

Ela estendeu a mão nos chamando para dançar.

“Ah, não… não sou bom dançando…”

Eugeo sentou-se à mesa e começou a procurar alguma coisa para comer para fugir do convite. A garota me olhou.

“Sim, eu também. Perdi a minha memória… lembra?”

“É só se balançar! Seguir o ritmo. Façam igual aos que estão na volta!”

Ela então pegou cada um de nós com uma mão e nos arrastou até o centro da praça apesar de nossos protestos. A multidão à nossa volta imediatamente se animou e fomos arrastados para todos os lados em um círculo dançante.

Felizmente, os passos de dança não eram muito complicados. Se parecendo até certo ponto, como exercícios que temos nos colégios. Então depois de umas três trocas de pares, arrisquei e consegui imitar algo parecido com uma dança.

Lentamente, com aquela melodia simples, meus movimentos foram ficando menos mecânicos e mais naturais, talvez a cerveja e aquele ‘misterioso’ suco de maçã estivesse ajudando.

As garotas, que não pareciam orientais ou ocidentais, conversavam conosco muito alegremente. Segurei suas mãos enquanto dançava com todas e tive uma sensação, será que realmente era um ser errante sem memórias? E se eu não fosse quem achava que era? Achei melhor deixar esses questionamentos para depois.

E falando em dança, uma vez dancei no mundo virtual. Minha parceira na ocasião era minha irmã Suguha em Alfheim, a espadachim Sylph, Lyfa. Seu sorriso se sobrepôs ao da garota em minha frente por alguns instantes.

Enquanto estava absorto em meus inesperados sentimentos de nostalgia, a música ficou mais intensa e rápida e de repente parou.

Olhei para abanda e vi um corpulento homem barbudo subindo no pequeno palco. Era o chefe da vila Rulid, o pai de Selka, Gasupht.

Ele bateu duas palmas e falou com sua poderosa voz:

“Todo mundo, a celebração chegou ao seu momento principal. Peço que escutem o que tenho a dizer.”

Os aldeões levantaram suas jarras e copos e deram um animado brinde ao chefe. Depois todos ficaram em silêncio, enquanto Gasupht olhava ao redor.

“O maior desejo de nossos antepassados de Rulid, enfim foi cumprido. A árvore demoníaca que desafiava e tomava de Terraria e Solus as suas bênçãos, nas terras ao sul, finalmente foi cortada! Temos agora um novo lugar para cultivar trigo, feijões e criar gado!”

A fantástica voz de Gasupht foi engolida pelo gritos animados de todos. Ele então ergueu as mãos para que houvesse silêncio mais uma vez.

“O garoto que conseguiu tal façanha, o filho de Orick, Eugeo, venha até aqui!”

O chefe da aldeia fez um gesto com a mão apontando para meu amigo, que se pôs de pé um pouco nervoso. O homem magro e atarracado ao lado de Gasupht, certamente era Orick, o pai de Eugeo. Mesmo sendo pai e filho, eles não se pareciam em nada um com o outro, a não ser pela cor dos cabelos. Tive a impressão de que ele não estava orgulhoso e sim irritado.

Eugeo pode até não ter sido motivado por seu pai, porém recebeu os aplausos e incentivo de todos os demais que o cercavam. Ele caminhou até o centro da praça onde estava Gasupht e enquanto atravessava em meio as pessoas, mais uma vez naquela noite ocorreu um ruidoso brinde. E para ajudar, também fiz o meu melhor e mais ruidoso aplauso.

“De acordo com as regras…”

Assim começou o discurso do chefe da vila e os aldeões novamente fizeram silêncio escutando aquelas palavras com atenção.

“Eugeo, quem conseguiu cumprir totalmente sua Tarefa Sagrada, ganhará o direito de escolher sua próxima missão. Você pode continuar cortando árvores na floresta se assim desejar, pode também seguir seu pai e cuidar da fazenda, tratar do gado, fazer vinho ou ser um comerciante. A escolha é unicamente sua, siga o caminho que quiser.”

“O quê!?”

Senti desaparecer totalmente minha vontade de dançar.

Não era hora para estar ali, rodopiando com a música. Tinha que chegar o mais próximo possível de Eugeo e dar o empurrão final. Tudo iria pelo ralo abaixo caso ele dissesse algo como querer cultivar trigo ou similar.

Fui em direção ao pequeno palco olhando fixamente para Eugeo. Ele baixou a cabeça, o que me deixou bem preocupado. Agarrou uma mecha de seu cabelo com a mão direita enquanto cerrava o punho da mão esquerda.

Pensei em correr a toda em sua direção e gritar em seu ouvido dizendo que queríamos ir para a capital. Enquanto cogitava isso, ouvi uma voz fina ao meu lado.

“Acho que Eugeo… deixará a vila…”

Era Selka, que havia chegado ali sem que eu percebesse. Seus lábios se curvaram em uma mescla de sorriso de alegria e solidão…

“É isso que você acha?”

“Uh-hum, é verdade. Creio que não restam dúvidas que é isso que ele vai querer.”

Eugeo pareceu ter escutado nossa conversa enquanto apertava firmemente com sua mão esquerda o punho da Blue Rose Sword em sua cintura. Pois nesse instante, levantou a cabeça para olhar primeiramente para Gasupht e depois para todas as pessoas em sua volta e dizer em alto e bom som:

“Quero… me tornar um espadachim. Quero me unir à guarda da cidade de Zakkaria e aperfeiçoar minhas habilidades. E depois disso seguir até a capital.”

Houve um momento de silêncio que depois se transformou em uma comoção entre os aldeões. Só que dessa vez não estavam nada amistosos. Os adultos franziram os rostos e começaram a discutir entre eles. Seu pai e as pessoas ao seu lado, provavelmente os irmãos menores de Eugeo, igualmente fizeram expressões de repúdio.

O chefe da vila levantou a mão e controlou o alvoroço que havia se armado e todos foram se acalmando aos poucos. Porém, os olhares censura se mantiveram.

“Eugeo, você prentende s…”

Ao dizer isso, acariciou a barba e continuou.

“…Não, não irei lhe perguntar o motivo. A igreja já decretou que tem o direito de escolher sua próxima Tarefa sagrada.

Então, estou de acordo. Reconheço sua nova Tarefa Sagrada, Eugeo, filho de Orick, como sendo um espadachim. Se está disposto a deixar a vila para praticar suas habilidades com a espada, que assim seja.”

“…Uuufa!”

Dei um longo suspiro.

Com tudo que aconteceu, pude mais uma vez ver a essência desse mundo com meus próprios olhos. Se Eugeo se tornasse um fazendeiro, eu definitivamente teria que tentar a sorte indo sozinho até a capital, mesmo não tendo dinheiro ou conhecimento para empreender esse tipo de viagem. Teria que gastar incontáveis meses ou anos para conseguir recursos se fosse caminhar sem rumo certo.

Porém, agora consegui relaxar um pouco, mesmo tendo trabalhado duro nesses poucos dias, eles acabaram rendendo frutos preciosos.

Mesmo com aquela comoção inicial, aos poucos os aldeões começaram a aceitar a ideia e iniciaram uma salva de palmas. Porém antes que os aplausos se intensificassem, uma voz como um rugido surgiu na multidão.

“ESPERE UM POUCO AÍ!!”

Era um homem alto, de aparência jovem, porém, com uma constituição forte. Veio abrindo espaço por entre os demais aldeões.

Tinha presença de autoridade, cabelo curto, estilo militar. Sua expressão era severa enquanto seguia em marcha com uma espada longa em sua cintura. Reconheci essa pessoa como sendo o sentinela da entrada ao sul da vila.

O homem confrontou Eugeo, berrando grosseiramente.

“SER UM GUARDA EM ZAKKARIA DEVERIA SER MEU DIREITO. ESSE FRACOTE DO EUGEO SÓ PODE DEIXAR A VILA DEPOIS DE MIM, NÃO É ASSIM?”

“EXATAMENTE ISSO! ESTÁ CORRETO!”

Um homem de meia idade saía do meio da multidão gritando isso. Tinha o mesmo tipo de corte de cabelo do mais jovem, porém cheio de rugas no rosto e uma volumosa barriga.

“…Quem é aquele ali!?”

Olhei para Selka, que me respondeu:

“É o ex-capitão da guarda. Seu nome é Dolkye e aquele outro ali é seu filho, o atual capitão. São da família mais influente da vila, mas também os que mais incomodam.”

“Entendi…”

Enquanto estava considerando a possibilidade de intervir nessa situação, vi Gasupht que escutava as opiniões de Jink e seu pai levantar a mão e dizer:

“Mas Jink, você só é guarda há seis anos. De acordo com as regras, só pode ir até o torneio de Zakkaria daqui a mais quatro anos.”

“ENTÃO EUGEO DEVERIA ESPERAR TODOS ESSES ANOS TAMBÉM!!

COMO PODE ME IMPEDIR DE IR E PERMITIR QUE ESSE GAROTO, SEM PERÍCIA ALGUMA E QUE CERTAMENTE NÃO CHEGA NEM AOS MEUS PÉS, DEIXE A VILA?”

“Humm, entendo. Então esse é problema. Você acha que é mais forte que Eugeo? Como vai provar isso?”

“O QUÊ !?? …”

Jink e seu pai ficaram completamente vermelhos. E dessa vez quem falou foi o pai do atual capitão, enquanto se aproximava ameaçadoramente de Gasupht.

“AINDA QUE SEJA O CHEFE DESSA ALDEIA, NÃO PENSE QUE PODE FALAR O QUE BEM ENTENDER E NOS INSULTAR DESSA FORMA SEM NENHUMA CONSEQUÊNCIA.

E JÁ QUE INSINUOU QUE AS HABILIDADES DE MEU FILHO SÃO INFERIORES À DESSE NOVATO, QUE TENHAMOS UM DUELO, AGORA!!!”

Ao escutar isso, muito dos aldeões começaram a gritar em aceitação desse inesperado evento de celebração. Alguns levantavam suas taças, outros começaram a dançar e até trataram de fazer um pódio improvisado. Em poucos instantes podia-se ouvir em toda a praça as palavras:

“DUELO! DUELO! DUELO!!”

Eugeo foi forçado a aceitar a luta que aconteceria entre o espaço que a multidão havia criado.

Ao ver o rápido desenrolar disso, pensei:

Sério mesmo? Só pode estar brincando…

Virei para Selka e disse:

“Já volto!”

“O quê? Onde você vai? E o que irá fazer?”

Ignorei as perguntas dela e me enfiei no meio da multidão. Fui atravessando aquele pequeno mar de gente para conseguir me aproximar de Eugeo.

A contrário de seu inimigo que estava bufando e pateando o chão como um cavalo enraivecido, Eugeo estava com uma expressão clara de quem não sabia o que fazer ou como manejar uma espada naquela situação. Ao me ver chegando conseguiu apenas soltar um suspiro aliviado e sussurrar em meu ouvido.

“O-O q-quê eu faço, Kirito? As coisas ficaram sérias demais… e se eu me…”

“Esquece isso, não tem mais como se desculpar. Mas me diz uma coisa, é sério que vão se atacar usando espadas de verdade nesse duelo?”

“Não, de maneira alguma. Mesmo usando espadas reais, não podemos tocar um no outro. As regras dizem que temos que parar a poucos cens do oponente.”

“Ufa! …Humm… mas se não conseguir parar o golpe enquanto ataca o inimigo, ele provavelmente morrerá.

Escute, Eugeo! Eis o que deve fazer:

Você deve mirar a espada de Jink e não o seu corpo. Faça uma investida pelo lado da espada, como se fosse atacar no abdômen, usando o Horizontal, que resolverá.”

“S-Só isso? De verdade?”

“Absolutamente, eu prometo que dará certo. Mas lembre-se, foque a espada!”

Lhe dei um pequeno tapa nas costas e apontei para Jink e seu velho pai, os quais me olhavam com dúvidas antes de se afastarem um pouco.

No pódio, o chefe Gasupht bateu uma palma e gritou:

“SILÊNCIO!!”

“Então, mesmo que não tenha sido planejado, teremos hoje um duelo entre o capitão da guarda de Rulid, Jink e o lenhad… digo, espadachim Eugeo!

Os dois lutarão até que a espada fique à poucos cens um do outro. Lembrando que está terminantemente proibido que danifiquem suas vidas, entendido?”

Antes que pudesse dar por encerrado o discurso, ouviu-se o som de desembainhar de espada. Jink já havia sacado a sua da cintura. Eugeo, mesmo sendo mais lento, fez o mesmo.

Ao verem a luminosidade maravilhosa da Blue Rose Sword refletindo as fogueiras, as pessoas soltaram gritos de admiração.

Jink pareceu um pouco afetado e até amedrontado com a pressão que a espada do seu oponente fez. Porém, sacudiu a cabeça e regressou a posição de guarda original. Seu rosto agora transpareceu mais ira enquanto apontava para Eugeo com sua mão esquerda e dizia:

“ESSA ESPADA É REALMENTE SUA, EUGEO? SE FOR EMPRESTADA, TENHO O DIREITO DE TE IMPEDIR DE US…”

Eugeo não deixou ele terminar a frase e respondeu com convicção:

“Essa espada…, eu a consegui na caverna do norte. E sim, agora ELA ME PERTENCE!”

Os aldeões começaram a murmurar algumas coisas e Jink se calou imediatamente. Pensei que ele iria falar para Eugeo provar essa história, mas pelo visto ele tinha perdido a vontade.

O mais provável era que nesse mundo, onde não existe o conceito de roubo, apenas uma declaração de alto e bom tom determinaria a verdade, duvidar disso certamente seria uma violação dos direitos, um tabu.

Não sabia se meu pensamento estava correto, mas Jink não continuou aquele assunto. Limitou-se apenas a levantar sua espada usando as duas mãos.

Do outro lado, Eugeo usou somente a mão direita para segurar e erguer a Blue Rose enquanto a apontava ao nível dos olhos de seu oponente. Moveu sua perna e braço esquerdo para trás, mantendo seu centro de gravidade baixo.

Enquanto que os aldeões prendiam a respiração, Gasupht levantou a mão e gritou ao deixar caí-la:

“COMECEM!!”

Um voz ecoou:

“UOOOOOHHH!!!”

Justo como o esperado, Jink investiu imediatamente em linha reta, gritando o máximo que pode, se movendo com a espada em sua direita, na altura da cintura. Me perguntei se ele iria mesmo conseguir parar aquele ataque a poucos centímetros de Eugeo, com todo aquele impulso e velocidade…

“… !!!”

Nesse momento, tremi ligeiramente. A espada de Jink fez uma grande troca de direção. Achava que ele iria levantar ela e atacar por cima, mas de fato ele atacou pela direita, horizontalmente.

Ele deu uma fintada, mas Eugeo, se seguisse minha orientação e usasse o Horizontal, direcionado para a espada de Jink, seria muito difícil ocorrer um contra-ataque. E também, era pouco provável que ele estivesse esperando um movimente na horizontal como o dele.

E nesse instante…

“…Yahhh!!!”

Ouvi um grito que apesar de perder um pouco em espirito, se comparado ao de Jink, foi bem satisfatório.

Porém, o que vi não foi o golpe Horizontal

Ele levantou a espada por cima de seu ombro direito, como se tivesse preparando um golpe. A Blue Rose Sword desprendeu uma luz azulada. Ao se mover para frente, pareceu que a terra deu uma pequena tremida no momento em que Eugeo desenhava um arco de 45 graus no ar….

Aquilo era… uma habilidade que eu nunca havia lhe ensinado, o ataque em diagonal Slant.

Eugeo, que já estava nos instantes finais de sua ativação, deixou que sua espada se movesse à uma velocidade incrível, seguindo o rastro de luz do arco projetado e golpeando a espada de Jink que se movia horizontalmente. Enquanto via a espada de ferro ser facilmente despedaçada, fiquei me perguntando.

Talvez Eugeo tenha treinado em sua casa com um pedaço de pau incontáveis vezes e acabou descobrindo por conta própria o golpe Slant, pois o que eu vi agora não foi obra do acaso e sim fruto de um treinamento. De certa maneira, quando ele se movimenta com a Blue Rose Sword, fazia parecer um balé.

Se seguir praticando suas habilidades e talvez passar por algumas provas infernais nos campos de batalha, que tipo de espadachim se tornaria? E se isso acontecer… e tiver que lutar a sério com ele, será que eu conseguiria vencê-lo? Não sei se fico animado pelo confronto ou triste por desejar que ele passe tanto sofrimento para se aprimorar…

Os aldeões observaram essa limpa e decisiva vitória, que sinceramente não estavam esperando, para só depois de alguns instantes explodirem em gritos e aplausos. Igualmente gritei e bati palmas, me juntando ao entusiasmo de todos.

Jink e seu pai que estavam visivelmente abalados e surpreendidos, foram se afastando da comoção que se formou. Imediatamente a festa continuou, a música seguiu tocando e a atmosfera ficou mais intensa e alegre do que antes, terminando somente quando o sino da igreja tocou às dez horas da noite.

Nesse meio tempo, bebi mais outras três taças daquele suco, que descobri ser sidra de maçã e continuei a dançar até não me aguentar em pé, quando Selka praticamente me arrastou até a igreja.

Na entrada da pequena capela, Eugeo que estava sorrindo, me perguntou se aceitaria sair com ele de Rulid amanhã pela manhã. Não consegui responder, pois o mundo estava fofo como uma esponja. Mas acenei com a cabeça que sim. Finalmente fui levado até o quarto onde me joguei na cama.

“Mesmo que seja uma celebração, você bebeu demais, Kirito. Tome aqui, você precisa de água!”

Ao beber aquele líquido tão gelado, o torpor saiu do meu corpo, clareando meus pensamentos. Lembrei imediatamente que tanto em Aincrad, quanto em Alfheim, não importava o quanto eu bebesse, nunca ficava bêbado. Ao que parece, isso também não funciona aqui, em Underworld.

Pensei em anotar isso, quando olhei para cima e vi que a garota que estava ao meu lado, tinha um ar de preocupação.

“…O que houve?”

Não sabia se a tinha surpreendido com alguma expressão minha. Então tratei de me desculpar.

“Bom… desculpe se eu te assustei com algo e… aah!..”

Nesse momento lembrei de outra coisa…

“…Você não vai falar com Eugeo?”

Mesmo que o bêbado ali fosse eu, foi o rosto de Selka que ficou completamente vermelho.

“Porque está dizendo isso tão de repente?”

“É que amanhã de manhã, eu…

Não! Espere! Antes de continuar, devo te pedir desculpas em primeiro lugar. Lamento profundamente que as coisas ficaram desse jeito. Parece que estou levando Eugeo embora da aldeia. Sinto que se ele ficasse aqui, cortando aquela árvore, podia ser que… bem, vocês casassem e constituíssem uma família, Selka…”

“Selka deu um longo suspiro e sentou a meu lado.”

“Sério! Que… maluquice está dizendo?”

Ela parecia extremamente surpresa com minhas palavras, mas continuou negando com a cabeça.

“…Bom, não importa agora… De todos os modos, uma vez que Eugeo se vá dessa aldeia, definitivamente me sentirei solitária… mas também ficarei feliz. Desde que Alice se foi, Eugeo vivia seus dias como se tivesse desistido de tudo, se dado por vencido. Mas agora, eu o vejo sorrir novamente, feliz de ter a possibilidade de buscar a minha irmã. Creio que nosso pai deve estar contente de vê-lo assim também, já que Eugeo jamais se esqueceu dela.”

“… Entendo…”

Selka assentiu, levantou sua cabeça e olhou para a lua cheia que aparecia pela janela e continuou.

“De fato… eu nunca fui para àquela caverna para imitar a minha irmã e tocar a terra da escuridão.

Sabia que não podia fazer isso. Mas mesmo assim, eu queria sentir nem que fosse um pouco, queria estar mais próxima à ela.

Queria me aproximar o máximo que pudesse… até alcançar um lugar onde ela não pôde seguir adiante e a partir dalí…, porém me dei conta claramente que… não posso substituí-la. “

Fiquei pensando no significado daquelas palavras por um tempo e depois neguei com a cabeça.

“Não, você é extraordinária. Uma garota comum teria voltado imediatamente no momento em que atravessasse a floresta e chegasse na entrada da caverna. Mas você seguiu caminhando, enfrentando a escuridão e todos aqueles goblins. E fez algo que somente você era capaz. ”

“Algo que somente eu… sou capaz… ?”

Selka inclinou a cabeça enquanto eu assentia.

“Você não é uma substituta de Alice, Selka. Definitivamente tem algo que é somente seu. Só tem que desenvolver essa capacidade, esse talento.”

De fato, creio que a partir de agora, as artes sagradas de Selka devem ter melhorado imensamente. Pois ela recebeu a experiência da missão de afugentar os goblins. Assim, acabou aumentado sua Autoridade de Controle de Sistema.

Porém, não era somente uma questão de ter talento. Ela foi atrás de um objetivo e conseguiu sua própria resposta. Agora, tinha um poder mais forte do que qualquer coisa, a confiança em si mesma, algo que ela criou, algo que veio de sua alma.

Isso também serve para mim. Já é tempo de encontrar a resposta a uma pergunta que venho adiando.

Minha consciência, este EU que se chama Kirito ou Kirigaya Kazuto. Quem sou na verdade? Sou um Fluctlight que reside dentro de um cérebro vivo, um ‘EU verdadeiro’? Ou sou um clone originado de um EU real, através do STL e preservado dentro de algum dispositivo de armazenamento?

Só existe um modo de descobrir.

Eugeo e Selka e as outras pessoas de Underworld, suas Fluctlights nunca quebrariam o Índice de Tabus, a Lei Imperial Fundamental. Mas se eu o fizer, ainda sim não posso dizer que não sou um Fluctlight artifical. Pois não sei nenhuma cláusula dessas leis… em outras palavras, elas não estão escritas em minha alma.

Por outro lado, tenho que ver se eu consigo, por minha própria vontade, quebrar uma regra moral… uma que sempre guiou minha vida até agora.

Tive todo o tipo de ideia durante os últimos dias, mas continuava sendo um pouco difícil decidir. Usar uma espada para machucar os aldeões ou roubar algo, já tinha desconsiderado e se falassse mal de alguém, só para confirmar, talvez o resultado fosse pouco confiável. Justo agora, nesse momento me ocorreu outra coisa…

Levantei e me coloquei em frente à Selka que estava sentada na cama.

“…O que.. está fazendo?”

Segurei o rosto dela delicadamente com as minhas mãos conforme fui me aproximando do seu rosto. Me desculpei com Asuna e Yui no fundo de meu coração e pedi desculpas à Selka, mentalmente também. Cheguei mais perto do rosto dela e toquei meus lábios em sua testa.

O corpo de Selka estremeceu de repente, mas ela não se afastou.

Depois de uns três segundos mais ou menos, me afastei dela e percebi que seu rosto estava totalmente vermelho enquanto olhava fixamente para mim.

“O que… acabou de… fazer…!?”

“Digamos que… seja algo parecido com um ‘Juramento de um Espadachim’.”

Enquanto tentava procurar uma desculpa menos esfarrapada para dar, me dei conta finalmente…

Já que fiz algo que meu eu real definitivamente jamais faria, então tive a prova de que sou o eu real. Se fosse um Fluctlight clonado, teria paralisado imediatamente à alguns milímetros da pele de Selka.

Enquanto pensava isso, Selka ainda me encarava. Ela juntou suas mão no peito e suspirou.

“Um juramento… pode ser que seja tradição em seu país, mas se tivesse feito isso lá fora… agora mesmo estariam chegando os Integrity Knights para nos levar. Pois esse ato vai contra o Índice de Tabus. ”

Kirito e Selka - Sword Art Online Alicization
Digamos que… seja algo parecido com um ‘Juramento de um Espadachim’

Não quis perguntar qual era a parte do tabu que havia quebrado e parece que Selka também não queria continuar esse assunto. Apenas mostrou um sorriso e me perguntou:

“Então… qual foi o juramento?”

“Não é óbvio?… Eugeo e eu iremos salvar Alice e a traremos de volta. Te prometi isso…”

Parei por uns instantes e continuei…

“…Pois eu sou o Espadachim Kirito!”

ATÉ A PRÓXIMA…

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Até!

Bônus:

Escutem essa trilha enquanto apreciam a leitura 😉