Sword Art Online Alicization Beginning em Português – Underworld – Parte 2

Arco: Alicization

Underworld – Parte 2

Kirito e Eugeo - Alicization
Um encontro que mudará tudo

Em um piscar de olhos, aquela cena, exatamente com veio, desapareceu.

O que foi isso?

Mesmo depois que a ilusão já tinha desaparecido, a sensação de nostalgia não sumia, o meu peito estava pesado e dolorido.

Uma lembrança da minha infância? Tive uma forte sensação quando vi as três crianças de costas subindo a margem do rio. O garoto à direita de cabelos escuros, era eu?

Mas tal coisa não deveria ser possível, já que não existem florestas tão extensas e densas e nem rios tão puros em Kawagoe onde eu vivo e nunca tive amigos com aquelas cores de cabelos antes. E também, todas as três crianças estavam com esse mesmo tipo de roupa que estou usando no momento.

Se esse lugar é dentro do STL, então a ilusão de agora poderia ter sido uma memória da imersão anterior, do primeiro final de semana? Mas mesmo pensando dessa forma, devido a função da STL de aceleração do Fluctlight, eu deveria ter ficado imerso apenas por dez dias mais ou menos. Tão pouco tempo não seria capaz de me causar tanta nostalgia e dor como a que estou sentindo.

A situação está ficando cada vez mais inexplicável. Eu realmente sou quem penso que sou?

Enquanto essa dúvida pairava no ar, olhei com receio para a superfície do rio, porém não notei nenhuma diferença em meu rosto refletido na água.

A medida que tentava esquecer aquela cena de instantes atrás, o som que estava perseguindo se tornava mais alto. E quando me concentrei mais nesse som, ele também me fez sentir um pouco nostálgico, porém não me recordo de já ter ouvido isso, que parece ser madeira sendo cortada antes, pelo menos não ao vivo. Sacudi a cabeça e continuei subindo o rio.

Movia os pés com determinação e durante a caminhada, pude apreciar aquele lindo cenário novamente, então me dei conta que o caminho fazia uma curva para a esquerda. Aparentemente, a fonte daquele som não vinha da margem do rio e sim de dentro da floresta à minha esquerda.

O estranho e, de alguma forma, familiar som que tentava contar nos dedos não se fazia constante. Ele se repetia por exatas cinquenta vezes para depois silenciar por mais ou menos três minutos, e depois continuava por mais cinquenta vezes. Finalmente tinha certeza de que só poderia ser um som produzido pelo homem.

Durante os três minutos de silêncio, caminhava na direção onde mais ou menos achava que estava vindo aquele barulho, depois fazia alguns pequenos ajustes quando recomeçava. Nesse momento já havia me distanciado da margem do rio e estava novamente no meio da floresta. Segui silenciosamente enquanto cruzava com estranhas libélulas, lagartixas azuis e cogumelos gigantes.

“…Quarenta e nove, …cinquenta…”

Uma voz desconhecida contava enquanto realizava o quinquagésimo e último golpe. Foi então que notei que o espaço entre as árvores à frente se tornava mais brilhante.

Será que esse é o fim da floresta? Ou poderia ser um vilarejo.

Apressei os passos em direção a luz.

Escalei as raízes das árvores que estavam levantadas como escadas e quando meu rosto saiu da sombra do tronco da velha árvore, em frente aos meus olhos havia… uma cena que só poderia ser descrita como inacreditável.

Embora a floresta acabasse ali, não havia nenhum vilarejo. Porém, não tive tempo de ficar decepcionado. Na verdade só consegui ficar boquiaberto.

Havia uma grande clareira de formato circular no meio da floresta. Muito maior do que o lugar onde acordei. O diâmetro deveria ser de aproximadamente uns trinta metros.

O solo também estava coberto com o musgo verde e dourado, porém era diferente do local por onde tinha acabado de passar. Não haviam arbustos, trepadeiras ou qualquer outro tipo de planta.

No centro desse espaço, meu olhar se fixou em algo que se elevava muito alto.

“Mas… que árvore enorme! …”

Estimei que ela não deveria ter menos do que quatro metros de diâmetro. Todas as outras que vi até agora eram cheias de folhas grossas, com troncos robustos e contorcidos. Porém, a monumental árvore em frente era reta e com folhas finas como agulhas. Sua casca era de cor escura, quase preta e ao olhar para cima, pude perceber que seus galhos se espalhavam por todos os lados nos céus, cobrindo tudo a sua volta. Logo pensei no cedro de Yakushima e também nas sequoias gigantes na América do Norte, as quais vi em um vídeo. Não imaginava que realmente pudesse existir uma árvore com essa presença tão absurda na natureza. Me sentia como se estivesse diante de um imperador.

Olhei-a de cima a baixo e constatei que bloqueava toda a luz ao redor com sua estupenda copa. Suas raízes pareciam enormes serpentes se contorcendo e espalhando-se em todas as direções, como uma teia de aranha, até atingir o limite da floresta onde eu estava.

Supus que essa árvore estivesse sugando toda a vitalidade daquele espaço, fazendo com que nenhuma planta, com exceção daquele musgo, pudesse crescer ali. Esse possivelmente era o motivo daquela clareira existir.

Pensar que estava invadindo o jardim do imperador me fez hesitar por alguns instantes mas a tentação de tocar o tronco dessa magnifica árvore falou mais alto e consegui mover minhas pernas novamente. Mesmo tropeçando a toda hora nas raízes que estavam para fora da terra, continuei avançando lentamente.

Enquanto me aproximava, quase que hipnotizado, esqueci completamente da cautela. Quando dei por mim já era tarde demais.

“ !?”

Ao desviar a atenção da árvore, repentinamente olhei para frente e minha visão encontrou alguém cujas pupilas me observavam em um dos lados do enorme tronco.

Perdi o fôlego no mesmo instante. Tomado de assalto, dei meio passo para trás antes de cair no chão. Minha mão direita automaticamente tentou pegar algo em minhas costas, porém, obviamente, não tinha espada alguma.

Por sorte, a primeira pessoa que encontrei nesse mundo não demonstrava hostilidade nem perigo, somente inclinava sua cabeça em curiosidade.

Sua idade deveria ser a mesma que a minha… Olhei para o garoto, tinha em torno de dezessete ou dezoito anos. Seu cabelo castanho claro era levemente ondulado. Suas roupas eram as mesmas que as minhas, o traje europeu medieval com a túnica de mangas curtas, calça bege e sapatos de couro.

Ele usou as raízes da árvore como um banco para se sentar enquanto segurava algo redondo em sua mão direita.

Estranhei sua aparência. Embora a pele fosse clara, ele não parecia ser um ocidental e ao mesmo tempo, também não poderia ser um oriental. Fiquei observando os olhos verdes escuros e suas finas feições.

No momento em que vi seu rosto, minha cabeça… no fundo da alma, senti uma dor pulsante. Entretanto, esse sentimento sumiu assim que tentei compreendê-lo.

Tentei esquecer isso por hora e abri minha boca para dizer que não tinha nenhuma intenção de machucá-lo.

Mas o que deveria dizer? E mais, que língua deveria usar?

Não fazia a menor ideia. Enquanto eu abria e fechava a boca repetidamente como um idiota, o garoto falou primeiro:

“Quem é você? De onde veio?”

Aquele leve sotaque estrangeiro estava… em japonês perfeito!

Fiquei sem ação, do mesmo jeito de quando avistei a imensa árvore negra.

Não importa como eu olhasse, aqui não era o Japão e ouvir minha língua nativa em um lugar como esse, era algo que realmente não esperava.

Assim que eu me acostumei com as palavras saindo da boca daquele garoto, que estava vestindo roupas tão exóticas que lembravam a Europa medieval, me sentia em uma situação bastante surreal, como se tivesse entrado em um filme ocidental dublado.

Porém, a situação não me deixava ficar perdido em pensamentos. Foi nessa hora que coloquei meu cérebro para funcionar. Deixando de lado a ferrugem que parecia ter tomado conta dele nesses últimos dias.

Assumindo que este seja um mundo virtual criado pelo STL, em outras palavras, o Underworld. O garoto na minha frente pode ser três coisas:

Um tester durante uma imersão que possui memórias do mundo real como eu.

Um tester com suas memórias restritas, se tornando um habitante desse mundo.

Ou um NPC sendo operado pelo programa principal.

Se for a primeira opção, então será mais rápido. Só eu explicar minha estranha situação para ele e perguntar por uma forma de desconectar.

Mas se for a segunda ou terceira opção, a situação não será nada fácil.

Pois para um humano que se tornou habitante do Underworld ou um NPC, se eu disser algo que ele não entenda, como uma anormalidade no Soul Translator ou uma maneira de deslogar, poderia causar um intenso efeito colateral de proteção à integridade da história do jogo que faria com que a coleta de informações, mais tarde, ficasse muito mais difícil.

Então, é necessário escolher bem as palavras para falar com esse garoto e descobrir qual a sua natureza.

Enquanto discretamente limpava o suor frio das minhas mãos na calça, fiz uma cara sorridente e abri minha boca:

“Humm… meu nome é…”

Hesitei por um momento.

Qual deles? Estilo japonês ou ocidental? Qual é o jeito comum usado para se apresentar neste mundo?

Eu então dei o meu nome rezando para que fosse adequado para ambos:

“…Kirito. Eu vim daquela direção e acho que estou… um pouco perdido…”

Enquanto falava, apontei na direção atrás de mim, provavelmente para o sul e o garoto olhou para mim surpreso. Depois de baixar o objeto redondo em sua mão direita, se levantou com um ágil movimento e apontou para a mesma direção que eu.

“Lá? … A floresta do sul? Você é de Zakkaria?”

“N-Não… não exatamente.”

Fiquei tenso com essa conversa mas tentei responder mesmo assim.

“Bem… na verdade eu também não sei de onde vim… só me lembro de acordar jogado no meio da floresta…”

Ah, tem algo errado com o STL? Espere um pouco, irei contatar o operador!” … Era a resposta que esperava do fundo do coração, porém, o garoto ainda parecendo surpreso, perguntou enquanto olhava para mim:

“Hmm… não sabe de onde veio… e a cidade em que esteve vivendo até agora? Você se lembra qual era?”

“A-Ah… não, não consigo lembrar. A única coisa que sei é o meu nome…”

“… Nossa! Isso é incrível… a famosa ‘brincadeira de Vector’, hein? Já tinha ouvido falar sobre isso antes, mas essa é a primeira vez que a presencio.”

“Vector? … Brincadeira? …”

“Então você nunca ouviu isso na sua cidade natal? É como minha vila chama quando uma pessoa some repentinamente e depois reaparece na floresta ou no campo. O deus das trevas Vector adora brincar com os humanos, sequestrando-os e retirando suas memórias antes de jogá-los em alguma terra distante. Há muito tempo, uma senhora da minha vila desapareceu em condições parecidas. “

“S-Sério? … Então é possível que tenha acontecido o mesmo comigo…”

Minha situação está ficando cada vez mais suspeita”. Me pus a pensar novamente.

O garoto na minha frente não parecia ser um tester que estava interpretando. E nessas alturas já estava ficando apavorado e decidi apostar em algo um pouco mais perigoso:

“Também… há algum problema, eu quero sair daqui de uma vez. Mas… não sei como fazer isso…”

Desesperadamente rezei para que isso fizesse com que ele entendesse a situação, o garoto de olhos verdes demonstrando simpatia acenou com a cabeça e disse:

“Sim, caso não conheça o caminho, é fácil se perder nessa floresta. Mas está tudo bem, se você seguir sempre para o norte, irá encontrar uma estrada que-…”

“N-Não… e-eu quero dizer…”

Bem, que seja, cansei de rodeios”. Disse em alto e bom som a palavra-chave:

“…Eu quero deslogar.”

Coloquei todas minhas últimas esperanças nessa palavra, porém o garoto apenas inclinou a cabeça ao ouvi-la e depois perguntou:

“Deslog… o que é isso? O que você quer dizer?”

Com essa reação eu posso confirmar:

Ele é um tester que virou um habitante de Underworld sem saber que isso aqui é um mundo virtual, ou é um NPC. Enquanto cuidava em não demonstrar a decepção, consegui adicionar de alguma forma algumas palavras para enganá-lo.

“D-Desculpe, parece que usei a pronúncia errada para essa região. Hmm… eu quis dizer, será que tem alguma aldeia onde eu possa ficar?”

Era doloroso para mim dizer isso. O garoto então assentiu com a cabeça em sinal de entendimento.

“Pois é, … foi a primeira vez que ouvi uma palavra assim. Seu cabelo preto também não é comum por aqui… é possível que você tenha nascido no sul.”

“S-Sim, pode ser.”

Lhe dei um sorriso forçado enquanto o garoto estava sorrindo sem nenhuma segunda intenção, então, ele franziu a testa em compreensão.

“Hmmm, um lugar para ficar. Levando em consideração que minha aldeia é a única pelas redondezas, pois é a que se situa mais ao norte e também não há outros vilarejos ou posadas por perto… e se você explicar suas circunstâncias, talvez a irmã Azariya consiga ajudar te deixando ficar na Igreja.”

“I-Isso seria ótimo.”

Esses eram meus verdadeiros sentimentos. Se havia uma aldeia, então possivelmente poderia ter algum membro do RATH em imersão ou talvez estejam monitorando o lugar por fora.

“Então irei até lá. Ela fica ao norte, não é?”

Olhei para a direção oposta, de onde tinha vindo e vi a estreita trilha. Então, antes que pudesse mover meus pés para seguir o caminho, o garoto fez um gesto com sua mão esquerda para me deter.

“Ah, espere um pouco. Tem guardas na aldeia, será difícil de explicar se você de repente aparecer lá sozinho. Irei com você e ajudarei a explicar a situação. “

“Isso ajudaria muito, obrigado.”

Sorri enquanto o agradecia e, ao mesmo tempo, pensava comigo mesmo.

Aparentemente ele não é um NPC, pois suas respostas são muito naturais para o programa de simulação de personalidade que só pode responder sentenças pré-programadas. E o jeito de agir dele agora a pouco também não se parecia com o de um NPC.

Embora não saiba se ele fez a imersão pelo escritório em Roppongi ou no escritório principal em algum lugar da área costeira, mas o proprietário do Fluctlight que move o garoto tem uma personalidade muito gentil. Assim que conseguir escapar daqui, quero agradecê-lo apropriadamente.

Enquanto pensava nisso, o garoto fez uma expressão um tanto triste.

“Ah… mas eu não posso ir ainda… já que estou trabalhando…”

“Trabalhando?”

“Sim. Eu estou no meu intervalo agora.”

Notei algo enrolado em um pano próximo aos pés do garoto, dois objetos. Onde um parecia ser uma metade redonda de um pão.

Então era isso que ele estava segurando naquela hora”.

Já o outro objeto era apenas um cantil de água feito de couro, um menu bem simples para um almoço.

“Ah! Eu interrompi sua refeição?”

Me senti um pouco desconfortável, enquanto o garoto sorria timidamente.

“Se você puder esperar até que eu termine me trabalho, te levarei até a irmã Azariya pra pedir que ela o deixe ficar na Igreja… mas isso levaria mais umas quatro horas.”

Na realidade eu queria ir para a vila e procurar alguém que pudesse me explicar a situação o mais rápido possível, mas a sensação de que eu deveria evitar ter mais conversas que fossem perigosas foi ainda maior.

Quatro horas não era pouco tempo, mas considerando a função de aceleração do STL, o tempo na vida real equivalente seria de uma hora ou somente alguns minutos.

E também, por algum motivo inexplicável, eu queria conversar mais um pouco com esse garoto. Acabei concordando.

“Tudo bem, irei esperar. Me desculpe por te causar problemas.”

Então, um sorriso muito mais brilhante que o anterior apareceu no rosto do garoto, enquanto me respondia:

“Entendo, então… apenas sente-se ali por enquanto. Ah! … eu ainda não lhe disse meu nome.”

O garoto estendeu a mão direita e falou:

Eugeo - Sword Art Online Alicization

Prazer em conhecê-lo, me chamo Eugeo!

“Me chamo Eugeo. Prazer em conhecer você, Kirito.”

Enquanto apertava sua mão forte, que contrastava com sua constituição física magra, eu repeti o nome dele várias vezes. Isso não estava em minhas memórias e não sabia de que língua ele vinha, mas de alguma forma senti que aquele nome me era familiar… por alguma razão.

O garoto que se chamava Eugeo sentou novamente na base da grande árvore, depois ele partiu aquele pão redondo que estava no pano e me ofereceu um pedaço.

“N-Não, eu não posso…”

Rapidamente neguei com minhas mãos, mas o garoto manteve a oferta.

“Kirito, você deve estar com fome, certo? Não deve ter comido nada até agora, correto?”

Após ele dizer isso, apoiei minha mão no abdômen para tentar segurar a fome que realmente estava grande. Mesmo que a água do rio estivesse ótima, ela não tinha como me satisfazer.

“Não… mas…”

Por mais que eu estivesse negando, o garoto continuou aproximando o pedaço de pão. Então não havendo outra escolha, aceitei. Ao fazer isso, Eugeo deu um largo sorriso.

“Mas tenho que te dizer, mesmo que tenha somente esse Pan para comer, ele não tem um gosto muito bom.”

“…Bem, aceitarei com prazer. E para ser honesto, estou com tanta fome que poderia desmaiar a qualquer momento. “

“Foi o que pensei. “

Disse Eugeo enquanto sentava em uma das raízes novamente.

“Agradeço e também não precisa ser tão formal, tudo bem?”

“Oh! Sim, tudo bem, igualmente… Ei! Espere um pouco! “

Eugeo levantou sua mão esquerda para me impedir de pôr o pão na boca.

“…!?”

“Bem, é só pra ter certeza de que o Pan não está vencido.”

Dizendo isso, a mão esquerda de Eugeo se moveu enquanto sua mão direita segurava o pão. Seus dedos indicador e médio esticados e alinhados perfeitamente. Com a mão naquela forma, ele desenhou uma linha no ar que parecia um S ou um C.

E diante de meus olhos, que assistia espantado, seus dois dedos tocaram levemente o pão que fez um pequeno som metálico enquanto um pálido e translúcido retângulo roxo aparecia. Sua largura era de aproximadamente uns quinze centímetros, enquanto a altura era de aproximadamente oito. Esse retângulo me era muito familiar, juntos com as letras alfabéticas e números arábicos sendo projetados nele usando uma fonte simples só poderia ser uma coisa. Isso era… sem dúvida nenhuma, uma “Janela de Status”.

Boquiaberto, pensei:

“…Está confirmado. Esse lugar não é a realidade nem outro mundo paralelo, mas sim um mundo virtual.

Meu corpo ficou mais leve e relaxado quando consegui processar essa informação.

Agora estou noventa e nove por cento convencido. Se não tivesse essa evidência clara, a ansiedade acabaria comigo.

Enquanto as circunstâncias da imersão continuam desconhecidas, eu tenho que me acostumar com esse novo mundo virtual e aproveitar o momento. Primeiro, vou tentar abrir aquela janela.

Estiquei dois dedos da minha mão esquerda, imitando a forma do S e do C que Eugeo havia desenhado no ar e, receoso, toquei meu pedaço de pão. Resultando em um som que lembrava um sino e uma janela roxa apareceu. Aproximei meu rosto e fiquei admirando-a.

A sequência de caracteres ali escritos eram extraordinariamente simples. Só dizia: [Durabilidade: 7].

Consegui facilmente entender que era o valor da resistência do pão. Enquanto eu encarava a figura e tentava imaginar o que aconteceria quando o valor chegasse a zero, Eugeo perguntou com uma expressão desconfiada:

“Ei, Kirito! Não me diga que essa é a primeira vez que vê a arte sagrada da Janela de Stacia?”

Quando levantei o rosto, vi Eugeo com a cabeça inclinada segurando seu pedaço de pão, a janela dele já havia desaparecido. Rapidamente fiz uma cara de: “Claro que já vi. Não diga bobagens.” Quando toquei na superfície da janela, ela se estilhaçou em faíscas luminosas e se dispersou, me deixando um pouco aliviado.

Felizmente, Eugeo não desconfiou mais de nada e deu um pequeno sorriso.

“Ainda resta bastante vida, então não precisa se apressar em comê-lo. Mas se fosse verão, ela já estaria praticamente no fim.”

Talvez a ‘vida’ que ele mencionou seja o número mostrado na janela de status que aqui é chamada de ‘Janela de Stacia’. E pelo visto, o comando que chama a janela recebeu o nome de arte sagrada. É provável que Eugeo realmente não saiba que isso é apenas uma função do sistema e pensa que é um fenômeno religioso ou mágico.

Ainda tem muita coisa para ser estudada, mas por hora é melhor aguardar e cuidar logo de matar a minha fome.

“Então, vamos comer!”

Terminei de falar e coloquei o pão na boca, mas a dureza dele fez com que meus dentes rangessem e apertasse os olhos. Porém, não podia simplesmente cuspi-lo fora, então mordi o mais forte que consegui até arrancar um pedaço daquele troço. Fiquei admirado em perceber o quão real era a pressão exercida nos dentes nesse mundo virtual.

Era parecido ou talvez até mais duro que o pão integral que a minha irmã mais nova, Suguha, comprava de vez em quando. Fiquei forçando minha mandíbula para mastigar aquilo que estava inacreditavelmente duro, entretanto seu sabor era aceitável.

Com um pouco de manteiga ou um pedaço de queijo… não, se apenas incrementá-lo um pouco já ficaria bem melhor

Enquanto passavam várias coisas ingratas pela minha cabeça a respeito do pão, Eugeo, que também estava franzindo a testa, travando uma batalha para comer aquele tijolo, após uma mordida, disse com um sorriso amarelo:

“Não está muito bom, né?”

Rapidamente balancei a cabeça.

“N-Não, o que é isso, está… ótimo…”

“Tudo bem, não precisa se forçar. Normalmente compro eles na padaria da vila antes de partir, mas como saio muito cedo pela manhã eles só tem o Pan que sobra do dia anterior. Ao meio-dia eu também não tenho tempo suficiente para voltar à vila…”

“Sério? …. Mas então não seria melhor trazer uma lancheira de casa…”

Ao ouvir minhas palavras que saíram sem pensar, Eugeo baixou seus olhos com o pão em suas mãos. Me repreendi no ato, temendo ter dito algo que o ofendeu. Felizmente, ele rapidamente levantou seu rosto e deu um pequeno sorriso.

“A muuuuito tempo atrás… ao meio-dia, havia uma pessoa que me trazia uma lancheira até aqui. Mas agora…”

Suas pupilas esverdeadas tremeram, cheias de um grande pesar. Naquele momento, me esqueci completamente que estava em um mundo virtual enquanto me inclinava para frente e perguntava.

“Essa pessoa… O que houve com ela…?”

Depois que perguntei, Eugeo olhou para o topo da árvore muito acima de nossas cabeças em silêncio por um momento, então lentamente moveu seus lábios:

“… Minha amiga de infância. A garota, que tem a mesma idade que eu… brincávamos sempre juntos, de manhã à tarde. Éramos inseparáveis, mesmo depois que me foi dada a Tarefa Sagrada, ela continuava a me trazer lanches todos os dias…

Mas… seis anos atrás… durante meu décimo primeiro verão, um Integrity Knight veio à nossa vila… e a levou para a capital…”

Integrity Knight. Capital.

Essas são palavras de natureza desconhecida, porém, tenho o palpite que esses são do tipo que mantém a ordem na capital e nesse mundo. Decidi permanecer em silêncio para encorajá-lo a continuar.

“Foi… minha culpa. Em um dia de folga, nós fomos explorar a caverna do norte… mas nos perdemos no caminho de volta e acabamos parando no outro lado da Borda Montanhosa, na fronteira. Você sabe, não é? Onde fica o Território Escuro, que está escrito no Índice de Tabus para jamais colocarmos nossos pés. Embora eu não tenha saído da caverna, ela tropeçou e sua mão tocou no chão, no lado de fora, além dos limites… E somente por causa disso… o Integrity Knight veio até a vila, acorrentou ela na frente de todo mundo e a levou…”

Eugeo esmagou o pedaço pão meio comido em sua mão direita.

“…Eu queria ter ajudado ela. Achava que estaria tudo bem se ele me levasse junto. Até planejei usar o machado para atacá-lo mas… minhas mãos… e meus pés também… não conseguia movê-los. Tudo que eu fiz foi… vê-la sendo levada embora… sem conseguir dizer uma palavra sequer…”

Sua expressão ficou vazia enquanto levantava o olhar para o céu. Ficou assim por um tempo mas logo em seguida deu um leve sorriso amargurado. Então colocou o que havia sobrado do pão em sua boca e seguiu comendo com a cabeça baixa.

Eu não sabia mais o que dizer, então também dei uma mordida no pão e pensei enquanto mastigava com toda a minha força.

A existência daquela janela de status prova que esse é um mundo virtual criado por uma tecnologia ultra realista. Será que isso aqui poderia ser algum experimento de alguém? Contudo, porque um ‘evento’ como esse aconteceu?

Depois que engoli o pão, perguntei hesitante:

“…Você sabe o que aconteceu com ela…?”

Eugeo balançou sua cabeça ainda abaixada.

“O Integrity Knight disse que ela seria executada depois do interrogatório… Mas, que tipo de execução eu não sei. Uma vez… ouvi do pai dela, o chefe da vila Gasupht… que ela já está morta… Mas, Kirito, eu acredito que ela ainda está viva. “

E continuou falando:

“Alice está… definitivamente viva e em algum lugar da capital…”

O ar ficou repentinamente pesado e difícil de respirar quando ouvi esse nome.

Novamente, tive aquele estranho sentimento inundando a minha cabeça, coração e alma. Senti irritação, solidão e mais do que isso, uma nostalgia que fez minha alma gritar em agonia…

Isso foi só minha imaginação.”

Tentei me convencer. Porém aquele turbilhão de sentimentos não estava indo embora facilmente.

Não tenho nenhuma relação com a amiga de infância de Eugeo, melhor dizendo, não tenho nenhuma relação com Alice, a personagem desse mundo. Provavelmente foi apenas uma reação involuntária ao nome, que é muito comum. E pensando bem…

Sim! A Asuna falou disso ontem no Dicey Café. Que RATH, a companhia que desenvolveu o STL e o mundo virtual Underworld, todos esses nomes foram tirados do romance ‘Alice no País das Maravilhas’.

Não deve ser apenas uma coincidência que esse nome tenha entrado no contexto, deve ter algum significado por trás disso. E também, notei outro pedaço de informação nas palavras de Eugeo.

Ele acabou de dizer que foi a seis anos atrás, quando tinha onze anos. Isso quer dizer que agora ele tem dezessete, isso é bastante tempo e seu jeito de falar mostra que ele tem todas as memórias desses dez anos de vida, assim como eu.

Mas algo assim não poderia ser possível. Pelo que me contaram, a função de aceleração do Fluctlight poderia acelerar até três vezes, para simular esse mundo por dezessete anos seriam necessários seis anos no mundo real. Porém, não tem nem três meses desde que o STL começou a ser testado.

O que isso quer dizer?

Esse não é o STL que conheço, mas dentro de um dispositivo de FullDive desconhecido, um mundo que esteve rodando por dezessete anos. Ou talvez, o que eu ouvi sobre a função de aceleramento esteja errado e que na verdade poderia acelerar mais de trinta vezes. Mas ambas possibilidades são igualmente inacreditáveis.

A ansiedade e a curiosidade estavam crescendo rapidamente dentro de mim. Queria deslogar imediatamente e pedir uma explicação ao responsável lá fora, por outro lado, também queria permanecer aqui dentro e procurar por respostas.

Depois de engolir o ultimo pedaço de pão fiz uma pergunta à Eugeo:

“Então… Você não quer resgatá-la? Na… capital? “

Pensei imediatamente, “Droga!”, logo depois que perguntei isso. Porém, quando minhas palavras alcançaram Eugeo, ele teve uma reação inesperada.

O garoto de cabelos castanho claros olhou distraidamente para o meu rosto por vários segundos e em seguida sussurrou:

“Não tem como.”

“…A vila Rulid está na fronteira norte do Império do Norte. Ir para a capital do sul, demoraria uma semana no mínimo, mesmo se fossemos à cavalo. Se tiver que andar, levaria dois dias somente para alcançar a cidade mais próxima, Zakkaria. É impossível alcançar aquele lugar, mesmo que saísse na madrugada. Não tem como em apenas um dia de descanso.”

“Então… É só fazer preparativos para uma longa jornada…”

“Ei Kirito… Você parece ter a mesma idade do que eu, nunca te deram uma Tarefa Sagrada na vila em que você morava? Abandonar uma Tarefa assim e partir em uma jornada não é algo que podemos fazer, certo?”

“…É, … isso é verdade.”

Enquanto concordava, observava cuidadosamente as reações de Eugeo.

É obvio desde o início que esse garoto não é um simples NPC. Pela abundância de expressões e respostas naturais, ele não poderia ser nada além de um humano real.

Mas ao mesmo tempo, suas ações parecem baseadas em regras absolutas que são mais efetivas das que as do mundo real. Sim, é parecido quando um NPC em um VRMMO não pode sair de suas diretrizes programadas.

Eugeo disse que não foi preso porque não passou da área restrita pelo Índice de Tabus. Em outras palavras, esse índice são as regras absolutas que o seguram, talvez tenha controle direto sob o Fluctlight. Ainda não sei qual é a sua Tarefa Sagrada…. não, o mais correto seria pensar qual a sua profissão, não consigo imaginar qual tipo de emprego seria mais importante do que a vida e a morte da garota que esteve com ele desde o nascimento.

Para confirmar isso, escolhi cuidadosamente minhas palavras e perguntei à Eugeo, que estava bebendo água de seu cantil.

“Hum, na sua vila, além de Alice, existiu mais alguém que tenha quebrado o Índice de Tabus e foi levado para a capital?”

Eugeo abriu os olhos novamente, antes de secar a boca e balançar a cabeça.

“Não. Nos trezentos anos de história de Rulid, a única vez que um Integrity Knight veio para a aldeia foi a seis anos, ao menos foi isso que o velho Garita disse. “

Assim que terminou de falar, me passou o cantil de couro. Tirei a tampa e agradeci. Depois levei a boca e bebi o líquido, que não estava frio, mas tinha um leve gosto de limão e ervas. Depois de três goles devolvi o cantil para Eugeo.

E nesse instante senti um choque percorrer todo o meu corpo. Como se tivesse sido arrastado para o meio de uma tempestade sem nenhum abrigo. Me dei conta que…

“Trezentos anos!?”

Se é possível acertar a quantidade de avanço temporal através das configurações em um simulado de longo prazo, então a taxa de aceleração real da função FLA deve ser várias centenas… ou talvez milhares de vezes a do mundo real. Se for esse o caso, se tal taxa foi aplicada durante o meu teste contínuo anterior, no primeiro fim de semana, quanto tempo eu realmente passei aqui dentro?

Estremeci ao imaginar a situação. Senti calafrios, eriçando os pelos dos meus braços. Porém eu não tinha tempo de admirar essa reação fisiológica tão realistica.

Quanto mais eu conseguia informações, mais complexo ficava o mistério.

Eugeo é realmente um ser humano ou é um programa? Além disso, qual é exatamente o propósito da criação desse mundo?

Não saberei mais do que isso sem antes ir até a vila que Eugeo chama de Rulid e entrar em contato com outras pessoas. E seria ótimo se pudesse encontrar alguém do RATH que esteja ciente da situação…

Enquanto pensava, consegui sorrir de alguma forma e virei para falar novamente com Eugeo.

“Obrigado pela comida. E sinto muito, por ter tomado metade de seu almoço.”

“Não se preocupe. De qualquer maneira estou cansado de comer sempre esse mesmo Pan.”

Ele respondeu com um sorriso muito natural enquanto recolhia rapidamente o pano que embrulhava o almoço.

“Agora, me desculpe, mas é só esperar por um tempo até terminar meu trabalho da tarde”

Disse Eugeo se levantando em um salto.

Perguntei:

“Agora que mencionou, seu trabalho… a Tarefa Sagrada, o que é?”

“Ah! É mesmo… você não pode ver daí.”

Eugeo sorriu novamente enquanto me chamava. Inclinei a cabeça enquanto levantava e caminhava em torno do tronco da grande árvore atrás dele.

Em seguida, fiquei estupefato por outra surpresa.

No tronco daquela enorme árvore, que era negro como a noite, havia um corte de cerca de vinte por cento ou mais de seu diâmetro, algo em torno de um metro de profundidade. A madeira escura no interior parecia que tinha vestígios de carvão, as espessas camadas dos anéis anuais eram brilhantes como metal.

Olhei toda a extensão do corte até me deter em um machado que estava encostado contra o tronco mais à frente. Apesar da sua forma de gume simples, não parece ter sido utilizado para batalha. A grande lâmina e o punho foram feitos do mesmo material branco acinzentado. Enquanto admirava seu misterioso brilho, como se fosse um acabamento de aço inoxidável fosco, de alguma maneira eu senti que foi esculpida em um único pedaço de matéria-prima.

Eugeo pegou o machado com a mão direita, pela alça amarrada com couro preto brilhante, ele caminhou até a ponta esquerda do corte de meio metro, abriu as pernas, baixou a cintura e apertou as mãos com força no punho.

Inclinou seu corpo magro, puxando o machado bem para trás, levou um instante para reunir o impulso antes de cortar rapidamente o ar. A lâmina, que parecia muito pesada, golpeou claramente o centro do corte. Um som agudo e metálico reverberou pela floresta.

Sem dúvida, que esta é a verdadeira natureza do som estranho que me trouxe até aqui. O som da madeira sendo cortada, a minha intuição estava correta.

Na minha frente, observava-o com admiração, pode-se dizer que Eugeo movimentou seu corpo perfeitamente, batendo rápido, mantendo o ritmo e a trajetória além de uma precisão de máquina.

Levou mais dois segundos retrocedendo. Reunindo força, um segundo e balançando, outro segundo. Suas ações eram cadenciadas e fluídas, era como se as técnicas de espadas também existissem nesse mundo.

Exatamente cinquenta vezes em um ritmo de quatro segundos de cada vez, o machado continuou batendo durante duzentos segundos e depois deu o golpe final.

Eugeo retirou o machado do corte profundo e deixou escapar um longo suspiro. Ele então deixou a ferramenta contra o tronco e sentou-se em cima de uma raiz nas proximidades. As gotas de suor em sua testa brilhavam enquanto recuperava o fôlego. Fiquei olhando para ele e pensei que brandir o machado deveria ser mais difícil do que eu imaginava.

Eu esperei sua respiração voltar ao normal antes de perguntar:

“Então, esse é o seu trabalho, Eugeo? … Não, quero dizer, sua Tarefa Sagrada é ser um lenhador? E sua função é cortar as árvores na floresta? “

Retirando um lenço de seu bolso e enxugando o rosto, Eugeo inclinou ligeiramente a cabeça e respondeu depois de pensar um momento:

“Sim, bem… pode-se dizer que sim. Mas a árvore relativa à Tarefa Sagrada que tenho passado os últimos sete anos tentando cortar é apenas uma, esta daqui. “

“O quêê!? “

“O nome desta árvore enorme é Giga Cedro, nas palavras sagradas. Mas os anciões na aldeia a chamam de a árvore do mal. “

“ …Palavras sagradas? Giga… Cedro…?”

Eugeo deu um sorriso compreensivo, enquanto eu claramente duvidava. Ele então olhou para a copa da árvore.

“A razão pela qual a chamarem assim, é porque ela absorve toda as bênçãos de Terraria do terreno a sua volta. Portanto, nada além de musgo vive sob os ramos dessa árvore e as árvores dentro do alcance de sua sombra não crescem muito. “

Terraria, eu não fazia ideia do que era, mas ao que parece, a minha primeira impressão quando vi essa árvore no meio da clareira, não estava de toda errada. Balancei a cabeça para encoraja-lo a continuar.

“Os adultos na aldeia querem expandir os campos de trigo para esta floresta. Mas é inútil, desde que essa árvore continue de pé. Assim, eles querem cortá-la, mas como esperado da árvore do mal, seu tronco é terrivelmente resistente.

Se um machado de aço normal for usado, sua lâmina irá se quebrar em apenas um único golpe. Por causa disso, eles gastaram uma pequena fortuna em dinheiro para encomendar da capital este machado, que foi esculpido a partir do osso de um antigo dragão e atribuíram o sagrado ‘Dever de corte’ a alguém que deverá ficar aqui diariamente até derrubá-lo. E esse alguém, no momento, sou eu. “

Olhei para Eugeo e depois para o corte na árvore e descuidadamente disse:

“…Isso significa que, nesses últimos sete anos você passou tentando cortar essa árvore e o mais longe que conseguiu ir até agora foi isso?”

Foi a vez de Eugeo arregalar os olhos e balançar a cabeça de surpresa.

“De jeito nenhum. Se esse corte exigisse apenas sete anos, eu me sentiria um pouco mais incentivado. Olhe, eu sou a sétima geração com essa tarefa. Desde que Rulid foi fundada, há trezentos anos, cada geração de pessoas com o direito ao corte veio aqui todos os dias. Talvez, o progresso quando eu me tornar avô e passar o machado para a oitava geração seja… “

Eugeo usou as duas mãos para fazer uma lacuna de cerca de vinte centímetros de largura.

“Um tanto assim, eu acho. “

Fiquei sem reação ao ouvir isso.

Em um MMO do tipo fantasia, é fato que os trabalhos de mineração e artesanato fossem geralmente reconhecidos como tarefas que exigiam longa duração. Mas passar a vida inteira e ainda assim não conseguir cortar uma única árvore estava muito além do normal. Como este era o mundo artificial, deve ter sido a intenção de alguém colocar essa árvore aqui, embora com um propósito que eu não tinha ideia no momento.

Mas, de qualquer maneira, essa situação me deixou inquieto.

Por puro impulso, disse à Eugeo:

“Ei, Eugeo… Será que você me deixaria tentar um pouco?”

“Hein!? “

“Bem, eu comi metade do seu almoço. Então, o mínimo que posso fazer é ajudar com metade de seu trabalho, não concorda? “

Senti como se fosse a primeira vez que lhe ofereciam ajuda com seu trabalho. E foi provavelmente por isso que Eugeo abriu ligeiramente a boca e respondeu hesitante.

“Hmm… bom, não existe realmente uma regra proibindo alguém de ajudar com a Tarefa Sagrada… Mas compreenda, isso é incrivelmente difícil. No começo eu não conseguia nem acertar o lugar certo. ’’

“Não saberemos até eu tentar, certo? “

Sorri e estendi a mão direita enquanto pegava o cabo do Machado de Osso de Dragão que Eugeo me passou, ainda com uma expressão de incerteza.

O machado era uma ferramenta bem pesada, apesar de sua aparência óssea, puxou minha mão para baixo. Rapidamente segurei a empunhadura de couro com as duas mãos e fiz um pequeno balanço para acertar o equilíbrio.

Mesmo que nunca tivesse usado um machado como arma principal em SAO e ALO, deveria ser capaz de atingir um alvo fixo sem qualquer problema. Me posicionei do lado esquerdo do corte, então imitei a pose de Eugeo, afastando minhas pernas e ligeiramente abaixando minha cintura.

Eugeo ainda tinha uma expressão de dúvida, mas ao mesmo tempo, também parecia estar se divertindo. Depois que me certifiquei que estava na distância correta, levantei o machado por cima dos ombros, cerrei os dentes e transferi toda força que tinha para meus braços, balançando o machado em direção ao centro da fenda no tronco do Giga Cedro.

Bati, produzindo com um ruído surdo, a lâmina do machado atingiu cerca de cinco centímetros acima do corte, faíscas laranjas se espalharam enquanto um choque violento atingia minhas mãos, o que me fez deixar o machado cair, sentindo meus pulsos adormecerem.

“Aah! Ai! A-Ai!”.

Alheio à minha dor, porém atento ao meu fracasso de não conseguir dar ao menos um único golpe, estava Eugeo, rindo divertidamente:

“Hahahaha…”

Seguia rindo, até eu lhe dar um olhar de reprovação.

“Me desculpe… “

Ele acenou com a mão, mas ainda assim continuou a rir.

“… Você não tem que rir tanto…”

“Hahaha… não, eu sinto…, sinto muito.

Kirito, você não pode usar somente a força de seus ombros e cintura. Você precisa usar a força do seu corpo inteiro… hum, como devo te explicar isso…”

Enquanto eu assistia Eugeo reproduzir lentamente o movimento do machado, acabei percebendo o meu erro. Talvez as leis da física e as contrações musculares não tenham sido simuladas nesse mundo. Como esse era um sonho realista criado pelo STL, a coisa mais importante era o poder da minha imaginação.

Finalmente quando a dormência deixou minhas mãos, peguei o machado que estava caído.

“Fique só olhando, dessa vez, eu certamente acertarei…”

Depois de resmungar, tentei não ficar com os músculos tão tensos, usando menos força. Foquei mentalmente no movimento do meu corpo inteiro, enquanto executava um grande e lento arco. Me imaginei fazendo um corte do tipo sword skill, “Horizontal”, que usava frequentemente em SAO. Ao pensar nisso, consegui girar minha cintura que se somou ao impulso de rotação de meus ombros e passos através de meus pulsos até a lâmina do machado… e terminando em um golpe na árvore.

Desta vez acertei a casca da árvore longe do corte, o machado estremeceu e fez um som curto sem profundidade. No entanto, dessa vez minhas mãos não ficaram dormentes como antes. Ao que parece, eu tinha esquecido completamente do objetivo, pois me concentrei apenas no movimento do corpo.

Acho que dei motivos para Eugeo rir mais uma vez

Virei minha cabeça enquanto pensava isso, mas Eugeo estava inesperadamente sério. E falou:

“Ei… Kirito, esse de agora não foi ruim. Você só não mirou direito quando balançou o machado. Nunca perca de vista o seu alvo! Que é o centro do corte. Tente de novo antes que esqueça a sensação! “

“T-Tudo bem. “

O golpe seguinte também foi errado, porém, Eugeo seguiu me incentivando e dando conselhos aqui e ali de como balançar o machado e mirar. Tentei diversas vezes até que finalmente consegui acertar o centro do corte, produzindo o som agudo metálico e jogando pequenos fragmentos negros para o ar.

Depois disso, troquei com Eugeo e tive a oportunidade de assistir cinquenta de seus excelentes movimento com o machado. Então foi o meu turno novamente.

Repetimos isso por algum tempo e quando percebi, o sol já tinha alcançado o horizonte e a clareira foi banhada em uma nebulosa luz alaranjada. Enquanto bebia o último gole do grande cantil de água, Eugeo também terminou sua última série e disse:

“Está bem, com essa… fecham os dois mil. “

“Sério? Fizemos tantos assim? “

“Sim. Quinhentas séries minhas e quinhentas suas, junto com a parte da manhã, atingimos o Gigas Cedro duas mil vezes, o que é minha Tarefa Sagrada”.

“Duas mil vezes…”

Olhei novamente para o grande corte na árvore negra. Não importa como eu olhasse, não era mais profundo do que quando tínhamos começado.

Que trabalho ingrato.

Enquanto remoía o fato, ouvi a voz alegre de Eugeo.

“Realmente, tens bastante força, Kirito. Na última série, fez ótimos sons, duas, não… três vezes. Graças a você, hoje eu me diverti muito. “

“Não é verdade… se você fizesse sozinho, teria terminado muito mais rápido, Eugeo. Me desculpe, queria ajudar mas acabei só te atrapalhando… “

Pedi desculpas, envergonhado, mas Eugeo apenas sorriu enquanto balançava a cabeça.

“Eu não te disse que não irei derrubar essa árvore mesmo usando todo meu tempo de vida? Além do mais, metade do corte que fizemos hoje, a árvore irá recuperar durante a noite…

Olhe só, vou te mostrar algo legal. Não deveria abri-lo muitas vezes, mas acho que não fará mal de todo o modo.”

Eugeo se aproximou da árvore e esticou sua mão esquerda. Depois usou dois dedos para cortar o símbolo translúcido que apareceu no ar e golpeou a casca da árvore negra.

“Entendi, essa árvore também está configurada com uma durabilidade.

Cheguei para perto de onde Eugeo estava. Um som de sino pode ser ouvido e a janela de status flutuou, a chamada “Janela de Stacia”. Fiquei observando-a.

“Uau! …”

Exclamei sem querer. O marcador na janela estava em duzentos e trinta e dois mil, uma quantidade absurda de vida.

“Hmm, quase cinquenta a menos do que quando olhei no mês passado, hein… “

Percebi que Eugeo disse isso em um tom cansado com uma ponta de descontentamento.

“Kirito, isso significa… mesmo que eu passe um ano inteiro golpeando-a, a vida do Giga Cedro diminuiria cerca de seiscentos apenas. E até o momento de me aposentar, mais de duzentos mil ainda permaneceriam.

Você entende agora? … Apenas metade de um dia em atraso não fará muita diferença no progresso final. Meu adversário não é uma árvore comum, mas o ‘Titânico Giga Cedro’. “

Quando ouvi essas palavras, percebi que a origem do nome do Giga Cedro. Era uma combinação de latim e inglês. E significava… ‘O Cedro Gigante’.

Em outras palavras, o menino que está parado na minha frente, além da língua japonesa, que ele usa fluentemente, também utiliza o inglês e outros idiomas, como algum tipo gatilho para as conjurações de magia, que chama de Artes Sagradas.

Então, talvez ele não perceba que está falando em japonês. A língua do UnderWorld… melhor dizendo, a língua do império Norlangarth? Mas espere um segundo, a pouco tempo ele chamou o pão de Pan, certamente não é uma palavra em inglês. Poderia ser português ou espanhol talvez…?

Enquanto estava ali parado, perdidos em pensamentos, Eugeo já tinha embrulhado suas coisas e disse:

“Desculpe por te fazer esperar, Kirito. Vamos, enfim, para a aldeia! “

No caminho em direção à vila, enquanto carregávamos as coisas, com o Machado de Osso de Dragão em meus ombros, Eugeo alegremente conversava sobre várias coisas.

Sobre o seu antecessor, o ancião chamado Garita, que estava muito habituado a usar um machado. Sobre como ele se sentia triste de que os outros garotos de sua idade achavam que sua Tarefa Sagrada era algo fácil e caçoavam dele por não termina-la rápido.

Eu continuava escutando e dando margem para que continuasse a falar, porém minha mente ainda estava focada no mesmo pensamento.

Era a pergunta de qual era o real propósito desse mundo e como ele estava sendo operado.

Se for para verificar a tecnologia Mnemonic Visual do STL, então digo que eles já atingiram a perfeição, pois até agora eu ainda não consigo distinguir muito bem esse mundo virtual do real.

Em relação ao tempo transcorrido aqui dentro, pelo menos nos trezentos anos que já foram simulados, a coisa mais espantosa até o momento para mim, é essa terrível árvore gigantesca. E considerando a quantidade de trabalho que Eugeo mostrou, creio que o Giga Cedro irá continuar de pé por uns dois mil anos ainda.

Ainda não sei qual é o limite que a função de aceleração do Fluctlight pode alcançar, no pior dos casos, alguém imerso com suas lembranças seladas pode passar a vida inteira aqui, sem que isso impacte negativamente nos seus músculos no mundo real. E quando essa pessoa acordar, com as recordações bloqueadas, sentiria como se tivesse tido apenas um longo sonho… Porém, o que aconteceria à sua alma, a Fluctlight que viveu o sonho? Será que a matéria que compõe a consciência humana não tem também um tempo de vida útil?

Não importa como eu pense, o que levou a criação desse mundo ainda me parece desnecessariamente irracional.

Deveria existir algum propósito muito forte para desafiar tal perigo.

Mas qual pode ser esse propósito? Quando estava no Dicey Café, Sinon disse que se fosse apenas para criar um mundo virtual realista, o AmuSphere já fazia isso. Deve haver sim um ‘algo mais’ que só poderá ser revelado investindo uma quantidade infinita de tempo dentro de um mundo virtual que competisse ao mesmo nível de detalhes que o mundo real.”

Levantei meu rosto repentinamente e vi a luz laranja atravessando a abertura da floresta à frente do caminho estreito. No espaço da estrada, perto da saída, havia um edícula que parecia ser um pequeno galpão de armazenagem. Eugeo caminhou em direção a ela e abriu a porta enquanto eu observava seu interior.

Pude ver uma par de machados de ferro comuns, uma pequena ferramenta de lâmina que parecia ser um facão, cordas e um balde. Entre eles, havia um longo embrulho de couro, o qual não consegui identificar seu conteúdo.

Eugeo colocou o Machado de Osso de Dragão entre as ferramentas e fechou a porta. Quando se virou se dirigindo ao caminho, perguntei rapidamente:

“Está tudo bem não trancar a porta? É um machado muito importante, não é?

Eugeo olhou para mim, surpreso.

“Trancar? Por quê? “

“Porque… ele pode ser roubado…”

No mesmo instante em que falei, percebi. Não existiam ladrões.

Porque, estava escrito no Índice de Tabus, o qual foi mencionado anteriormente, que o ato de roubar era terminantemente proibido.

Eugeo me olhou seriamente e deu a resposta na qual eu já estava esperando.

“Impossível que aconteça tal coisa. Porque sou o único que abre esta cabana. “

“Certo, tudo bem.”

Enquanto concorda, uma segunda pergunta surgiu em minha mente.

“Bem, mas… Eugeo, você não disse que há guardas na sua aldeia? Se não há ladrões, então porque esse é um trabalho tão necessário? “

“Não é óbvio? Para proteger a vila das forças das trevas “.

“As forças das trevas…”

“Olhe lá! Consegue ver?”

Quando passamos por debaixo da última árvore, na saída da floresta, Eugeo levantou sua mão direita.

Frente aos meus olhos se encontravam vastos campos de trigo. Não estavam prontos para a colheita ainda mas balançavam suas ramas ao vento. A cena foi muito tranquila, a luz solar projetada sobre eles dava impressão de ser o mar. O caminho se estendia na imensidão sinuosa dos campos, onde vi de longe uma pequena colina elevada.

Quando eu me concentrei nessa colina, percebi que tinha um pequeno bosque cercando vários pequenos edifícios com cores em tons pastéis e em seu centro uma torre. Aparentemente, aquele era o lugar onde vivia Eugeo, a aldeia Rulid.

Mas Eugeo apontava para um lugar mais além da sua aldeia, uma linha branca de uma altíssima cadeia de montanhas ao longe. A elevação montanhosa parecia uma serra esticada tanto para a esquerda quanto para a direita até onde minha visão alcançava.

“Aquilo é o limite da Borda Montanhosa. No outro lado, é o lugar onde a luz de Solus não pode alcançar, a terra da escuridão. Mesmo ao meio-dia, o céu é totalmente coberto por grossas nuvens escuras, a luz do céu é vermelho como o sangue. O chão, e praticamente todas as árvores, são negros como carvão…”

Eugeo deve ter se lembrado de um determinado evento, em um passado distante, pois sua voz foi ficando fraca e tremula.

“…Quem vive na terra da escuridão são os malditos meio-humanos, goblins, orcs, juntamente com outras criaturas igualmente terríveis… os Dark Knights, guerreiros das trevas que montam os dragões negros. É claro que os Integrity Knights que estão sempre protegendo a cordilheira os impedem de invadir, mas, às vezes, alguns parecem ser capazes de passar através das cavernas subterrâneas. Porém eu não nunca vi nenhum. Além disso, de acordo com a lenda da Igreja Axiom… uma vez a cada mil anos, quando a luz de Solus enfraquece, as forças das trevas liderada pelos Dark Knights irá atravessar a cordilheira e começar seus ataques contra nós. Nessa grande guerra, os guardas nas aldeias, as sentinelas de todas as cidades e o exército imperial serão liderados pelos Integrity Knights para lutar contra as hordas de monstros. “

Como eu inclinei a cabeça de curiosidade, Eugeo perguntou:

…Essa é uma história bem conhecida por todos, pois é contada à todas as crianças desde cedo na aldeia. Você também esqueceu dela, Kirito?

“S… Sim, sinto como se já tivesse ouvido falar sobre isso antes, embora… diferente em alguns detalhes… apenas, eu acho.”

Dei uma enrolada para tentar me esquivar de novas perguntas, que pelo jeito deu certo, pois a expressão desconfiada de Eugeo transformou-se em um sorriso, antes de concordar.

“Entendo…, talvez seja possível que você não venha de Norlangarth mas sim de um dos outros três impérios. “

“S-Sim, pode ser isto.”

Concordei logo para afastá-lo desse tópico perigoso e apontei para a colina que agora estávamos consideravelmente mais perto.

“Essa é a vila Rulid, certo? É onde você mora, Eugeo? “

“O que vemos é o portão sul, minha casa é perto do portão oeste, por isso não podemos vê-la daqui.”

“Hmm. A torre mais alta é a igreja onde fica a irmã Azariya? “

“Sim, exatamente.”

Foquei meu olhar no topo da torre, onde havia um símbolo que era uma combinação de uma cruz com um círculo.

“É de alguma forma, mais elegante do que eu pensava. Alguém como eu pode realmente ficar lá? “

“Não se preocupe. Irmã Azariya é realmente uma boa pessoa.”

Pode até não ser fácil, mas se Azariya tinha a mesma crença na bondade das outras pessoas como Eugeo, então não haveria maiores problemas se eu lhe der respostas sensatas. Porém, provavelmente agora, eu seja o cara que menos tem ideias sensatas sobre este mundo.

O ideal seria se a irmã Azariya fosse uma observadora do RATH, assim as coisas seriam bem mais fáceis. Mas talvez a equipe, cujo objetivo seja observar, não tenham papéis importantes, como o chefe da aldeia ou a sacerdotisa. A possibilidade de que eles sejam um dos simples aldeões é muito maior… e eu tenho que descobrir isso utilizando todos os meios possíveis.

Mas, isto é, somente se eles realmente colocaram um observador nesta pequena aldeia…”

Enquanto me preocupava, Eugeo e eu cruzamos a ponte de pedra coberta de musgo que atravessava o canal e pusemos os pés na Vila Rulid.

 

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA…

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Até!

Bônus: