Sword Art Online Alicization Beginning em Português – Prólogo I – Parte 2

Arco: Alicization Underworld – Beginning

Prólogo I – Parte 2

Kiriito e Eugeo vs Giga Cedro
Kirito e Eugeo vs Giga Cedro

O clima estava ótimo no terceiro dia do sétimo mês.

Somente nos dias de folga, que as crianças maiores de 10 anos encarregadas das tarefas sagradas, podiam chegar mais tarde.

Eugeo e Kirito normalmente o usavam para fazer coisas como pescar ou praticarem suas habilidades de espada com outros garotos.

Porém, hoje eles deixaram suas casas muito antes da névoa da manhã se dissipar para esperar Alice embaixo da velha árvore nos limites da aldeia.

“… Ela está atrasada!”

Embora tenham esperado uns poucos minutos, Kirito resmungou:

“Não dá para entender porque as mulheres demoram tanto para se arrumarem. Daqui a pouco Alice ficará como a sua irmã. Que não sai mais para passear no bosque para não sujar as roupas.”

“Realmente… Mas não dá para fazer nada quanto a isso. Elas são assim e assim provavelmente continuarão.”

Dizendo isso com um sorriso, Eugeo começou a pensar como seria daqui a alguns anos.

Alice seguiria como uma garota sem uma tarefa sagrada e as pessoas da aldeia continuariam ignorando esse fato, tratando como algo normal, mesmo que extraoficialmente faça parte da tarefa de Eugeo e Kirito.

Mas como ela é a filha do chefe da vila, está praticamente decidido que deverá assumir uma conduta exemplar de forma a servir de modelo para as demais garotas da região.

E, provavelmente, em um futuro não tão distante, será proibida de sair e brincar com as outras crianças. E sem dúvida alguma que será obrigada a tomar lições de artes sagradas em tempo quase que integral.

Então… o que acontecerá depois disso? Terá que se casar com alguém desconhecido talvez? Tal como a irmã de Eugeo, Sulinea. Se esse for o caso, o que pensarão os seus pais?

“Ei! Está aí todo distraído. Por acaso não conseguiu dormir?”

Com a repentina pergunta de Kirito, Eugeo foi trazido ao presente novamente.

“Ah! Sim, estou bem… Olhe! Ali vem ela.”

Escutaram passos suaves que vinham na direção da aldeia.

Surgindo no meio da neblina estava Alice. E tal como Kirito havia dito antes, ela estava perfeitamente arrumada. Só reforçou o que os garotos haviam conversado a poucos instantes.

Eugeo trocou um rápido olhar com Kirito em meio a um sorriso e gritaram juntos:

“Está atrasada!”

“Vocês que chegaram muito cedo. Deixem de criancice.”

Depois de dizer isso, Alice entregou uma cesta de vime que estava em sua mão direita para Eugeo e o cantil de água na sua esquerda para Kirito.

Os dois automaticamente pegaram os objetos antes de se voltar à estreita trilha que levava ao norte. Alice se abaixou para arrancar uma pequena rama de um arbusto, se virou apontando para a grande montanha de pedra e animadamente falou:

“Bem, então é chegada a hora… A busca pelo gelo de verão começou. Vamos!”

Porque sempre termina como “A princesa e seus seguidores”? Enquanto pensava isso, Eugeo olhou para Kirito e foram correndo atrás de Alice que já havia começado a caminhar.

A aldeia tinha um caminho que percorria desde o norte até o sul. Enquanto que a parte sul da estrada está cheia de gente transitando a pé ou em carroças, o lado norte era um local quase desolado onde praticamente ninguém vivia. Tinham muitas raízes de árvores e pedras que dificultavam caminhar por ali.

Porém, Alice corria por esse trajeto como se fosse completamente plano, de forma que deixava os dois garotos facilmente para trás.

Ela tem um ótimo controle sobre seu corpo não é? Isso foi o que Eugeo pensou.

Fazem uns quatro anos, Alice quis começar a prática de espadas com os valentões da vila. E em pouco tempo já havia dominado várias técnica com sua “fina varinha de madeira” e acabou vencendo a todos. O que, infelizmente, acabou sobrando para Eugeo e Kirito sofrerem com os milhares de golpes recebidos por serem os únicos oponentes que sobraram.

Ela movimentava a vara como se pudesse cortar o ar, inclusive se seu oponente fosse um espírito de vento. Se tivesse continuado a praticar, Alice com toda a certeza se tornaria a primeira mulher a ser guardiã da aldeia.

“Ser da guarda…”

Eugeo murmurou.

Antes de lhe incumbirem a tarefa sagrada de cortar aquele diabo de árvore, esse era seu sonho, ainda que fosse algo improvável.

Todos os meninos da aldeia desejavam serem escolhidos como guardas. Ao invés de ter que cortar árvores, lhes entregariam espadas de verdade, feitas metal para serem utilizadas nas aulas de combate armado.

E isso não é tudo. A cada outono, todos os guardas de todas as aldeias do norte podiam participar do torneio de lutas com espadas em Zakkaria.

Se alguém conseguisse uma boa colocação, podia tornar-se sentinela e ser reconhecido como um verdadeiro espadachim tanto em nome quanto em técnica. Ser capaz de portar a espada oficial feita pelo ferreiro da capital. Porém, o sonho não termina aí.

Se conseguissem provar seu valor entre os sentinelas, podiam obter habilitação para prestar o exame para a Master Sword Academy, a melhor escola de artes com a espada.

Depois de passar nesse difícil exame e conseguir se graduar, podiam participar do torneio de artes marciais que acontecia em uma arena onde até o imperador Norlangarth North os veria.

Dizem que o Lendário Bercouli ganhou esse torneio de maneira esplêndida.

E finalmente, haveria uma reunião com os verdadeiros heróis de todo o Mundo Humano na Igreja Axiom, para a competição máxima, o Four Empire Unity Tournament. Onde somente quem ganhasse a luta sob os olhares dos próprios deuses, provando ser o melhor de todos os espadachins, que seria entregue a missão de proteger o mundo.

Seria aquele que lutaria contra os demônios do Dark Territory e seus dragões, esse campeão acabaria sendo conhecido como Integrity Knight.

Sonhar com isso já era ir longe demais. Mas Eugeo continuou se imaginando nesse cenário.

Se talvez se Alice deixasse a aldeia não como uma espadachim e sim como uma aprendiz de feiticeira sagrada e fosse para a escola em Zakkaria a Master Arts Academy na capital e ao mesmo tempo, ele ao seu lado como guarda-costas. Com o uniforme de sentinela verde e marrom com a espada oficial de prata nas costas…

“O sonho ainda não acabou. Ainda há tempo”

De repente, se deu conta desse sussurro vindo de Kirito, o qual estava caminhando logo atrás dele.

Eugeo se virou surpreendido. Aparentemente, somente com o suspiro que havia deixado escapar antes, Kirito conseguiu ler todo o significado por trás dele. Seu instinto era afiado como sempre. Eugeo sorriu e murmurou de volta:

“Não, ele já terminou…”

Sim, o tempo de sonhar havia se acabado. O verão do ano passado, a tarefa sagrada de aprendiz da guarda foi entregue a Jink, filho do atual chefe da guarda da aldeia.

Ainda que sua habilidade com a espada fosse inferior a Eugeo e Kirito, e consequentemente, Alice. Eugeo continuou falando em um tom um pouco irritado.

“Uma vez que a tarefa sagrada é entregue, nem o chefe da vila pode trocá-la.”

“Só que existe uma exceção, não é?”

“Exceção?”

“Sim! É quando a missão é completada.”

Dessa vez conseguiu dar um sorrido amargo para o teimoso Kirito. Ao que parece, seu parceiro ainda não tinha desistido da ambição de acabar com o Giga Cedro ainda na sua geração.

“Só temos que cortar essa árvore e nosso trabalho estará perfeitamente acabado. Então poderemos escolher a nossa própria missão. Que tal?”

“Bem, isso é certo, mas…”

“Já estou feliz por não ter recebido a sagrada tarefa de ser um pastor de ovelhas ou fazendeiro. Essas são missões que jamais terão fim, mas o nosso caso é diferente. Estou certo de que em três… não, em dois anos nós conseguiremos, aí então…”

“Iremos até o torneio de espadas de Zakkaria.”

“Se esse é o caso, não posso deixar que tenha todo o trabalho sozinho, Kirito.”

Depois de conversar um pouco com seu amigo, Eugeo teve um estranho pressentimento de que não era mais um sonho tão irreal e inalcançável assim. Os dois continuaram caminhando enquanto sorriam, imaginando a cena de que recebiam espadas oficiais e retornavam para a aldeia, fazendo Jink se morder de ciúmes.

Alice, que estava caminhando a frente deles de repente se voltou para trás.

“Ei vocês dois! sobre o que estão falando?”

“N-Não, não é nada. Somente nos perguntávamos se já não está na hora de almoçarmos.”

“O quê? Está louco? Recém começamos a caminhar. Além do mais, já é possível ver o rio. Olhem lá!”

Quando olharam para o lugar onde Alice apontava, puderam ver sua superfície cristalina.

A fonte do rio Ruhr ficava na extremidade da montanha, esse corria desde o leste da aldeia Rulid até o sul no povoado de Zakkaria. E no ponto da estrada onde estavam, o rio se dividia em dois. Um ia para direita, ou seja, para onde vieram, a vila Rulid e o outro ia para a esquerda, para a nascente. A direção que tomaram, obviamente, foi a da esquerda.

Tão logo Eugeo chegou na beira do rio, onde ele se dividia, se agachou e mergulhou suas mão nas águas límpidas. Já estavam no verão e a água que antes estava congelada no início da primavera, agora está somente fresca e em alguns pontos onde o sol batia mais forte, estava quase morna.

Por alguns instantes pensou em jogar água nos seus amigos para se divertir um pouco. Mas com Alice ali, não poderia fazê-lo.

“Essa não é a temperatura em que um bloco de gelo flutuaria.”

Eugeo disse isso para Kirito que estava ao seu lado, bebendo um pouco de água. O garoto respondeu logo após saciar sua sede.

“Sim, essa é precisamente a razão pela qual temos que ir até a caverna. É nela o local onde o gelo se forma. Entendeu?”

“Está bem, mas só lembre que precisamos estar de volta em casa antes que a noite caia. Vejamos, creio que quando o sol estiver na metade do céu já deveremos retornar.”

“Que seja então. E se esse é o caso, vamos de uma vez!”

Logo a frente, Alice que estava caminhando em meio a grama alta tratou de apressar o passo impelindo os dois garotos a segui-la.

Eugeo se perguntou por um momento, do porquê que as pessoas nunca tinham atravessado e entrado nessa divisão dos rios, sendo que é um caminho tão fácil de percorrer.

A Passagem do Norte a qual as regras da aldeia proíbem qualquer um de atravessar. Se ultrapassarmos esse ponto, provavelmente os adultos não ficariam tão irritados, porém iríamos enfrentar as consequências de ir contra as leis impostas.

Era plausível dizer que somente essa inquietude da iminência de fazer algo errado e correr o risco de arcar com o resultado já era suficientemente forte para que os pés não fossem capazes de se moverem mesmo que o caminho esteja desimpedido a frente.

Ainda que ele e Kirito tivessem sempre que escutar sermões e queixas dos adultos referente as suas travessuras e todo o papo de manter e seguir as tradições, até agora os dois jamais haviam pensado e quebrar as regras de propósito.

A humilde aventura de hoje seria o mais próximo que haviam chegado de cometer um ato proibido.

Eugeo começou a sentir-se um pouco ansioso. Olhou para Kirito e Alice caminhando despreocupadamente a sua frente. Os dois estavam cantarolando várias canções em dupla.

Esses dois… Não sentem medo ou preocupação? Enquanto pensava isso, Eugeo deu um suspiro meio abatido e falou:

“Ei! Esperem!”

Os dois à frente pararam e se viraram para ver o que estava acontecendo.

“O que houve, Eugeo?”

Alice inclinou a cabeça para o lado enquanto perguntava em tom suave.

“Já estamos bem longe da aldeia…Não acham que podem haver bestas e animais perigoso por aqui?”

“Ãh!? Não que eu saiba.”

Alice falou sem aparentar muita certeza enquanto Kirito dava de ombros.

“Hummm… E o tal bicho enorme que meu avô viu uma vez? Ele contou que tinha garras enormes. Lembram?”

“Aquilo nada mais era do que galhos de uma árvore de maçãs negras. Além disso, era apenas uma história antiga.”

“Se for para ter algo aqui, possivelmente seria o morcego de quatro orelhas. Se bem me lembro, você tem medo deles, não é?”

Em meio ao “Ahahahaha” que ocorreu, Eugeo respondeu rapidamente:

“N-Não é isso! Não estou assustado… É que nós nunca passamos os dois rios antes, não sabemos nada sobre esse local. Só quero que sejamos cuidadosos.”

Ao escutar isso, os olhos negros de Kirito brilharam com a oportunidade de fazer mais uma travessura.

“Sim, vocês está certo Eugeo. Não sabia? Durante o tempo que a vila foi fundada, algumas vezes demônios como os orcs ou goblins cruzavam a montanha para roubar ovelhas e sequestrar as crianças.”

“A-Ah! O quê? Está tentando me assustar é? Eu já sabia disso. Tanto é que sei que no final, os Integrity Knights vieram da capital e exterminaram o chefe dos goblins.”

…- E desde então, nos dias ensolarados, era possível ver o cavaleiro dragão de prata sobrevoando a borda da montanha…

Kirito sussurrou o verso final do conto de fadas que todas as crianças da aldeia sabiam, enquanto olhava para o céu do norte. Eugeo e Alice fizeram o mesmo, antes de se darem conta, seus olhares estavam à deriva na procura de algo naquela imensidão de rocha branca…

Por um momento, tiveram a impressão de terem visto uma pequena luz brilhante sobre as nuvens, mas não puderam realmente confirmar se não era apenas a força de suas imaginações pregando alguma peça. Os três se entreolharam antes de começar a rir de maneira envergonhada.

“É… é somente um conto de fadas certo? O dragão de gelo que vivia na caverna, é possivelmente, uma outra história contada por Bercouli, não é mesmo?”

“Opa! Se disser algo assim na aldeia, o punho do chefe encontrará a sua cabeça na mesma hora. O espadachim Bercouli é o herói de Rulid e ainda muito respeitado.”

As palavras de Eugeo fizeram com que os sorrisos voltassem ao rostos de todos. Então Alice acelerou novamente o passo.

“Só iremos saber quando estivermos lá. Olhem! Se continuarmos caminhando nessa velocidade nunca chegaremos na caverna antes do almoço.”

Ainda que isso fosse dito, Eugeo pensava que não iriam conseguir alcançar os arredores da montanha com somente meio dia de caminhada.

A borda da montanha, em outras palavras, o limite do mundo humano que consistia em quatro impérios: norte, sul, leste e oeste.

Para a aldeia de Rulid, a qual estava no extremo norte do país, não é um lugar fácil onde pudessem chegar tranquilamente com passos de crianças.

Assim que, Eugeo ficou muito surpreso quando antes que o sol chegara na metade do céu, o rio Ruhr havia se estreitado até quase desaparecer na entrada da caverna.

O profundo e denso bosque que se dividia em dois, terminou abruptamente. Na frente de seus olhos estava uma parede rochosa que subia vertiginosamente até os céus. Se olhassem para cima, podiam ver como o céu azul se mesclava com a grande rocha branca.

“Já chegamos? Essa é a borda da montanha certo? Não foi um pouco rápido demais?”

Kirito, que também estava incrédulo, disse com uma voz desconcertada. O mesmo com Alice, que sussurrou enquanto seus arregalava os olhos:

“Então… Onde está a Passagem do Norte? Será que cruzamos por ela sem nos darmos conta?”

Como ela havia dito, é possível que os garotos da aldeia, incluindo os adultos, houvesse passado sem notar. Pensando bem, havia um lugar à 30 minutos de onde o rio se divide em dois que tinha vários desníveis, seria essa a tal Passagem do Norte?

Enquanto Eugeo observava cheio de dúvidas, o incomum tom sério de Alice sussurrou em seus ouvidos:

“Se essa é a borda da montanha… então do outro lado está a terra da escuridão, não? Se é assim… só caminhamos por quarto hora. Esse tempo é insuficiente para chegar a Zakkaria. Significa que Rulid está… na verdade, na borda do mundo…”

Eugeo ficou paralisado de confusão. Temos vivido tanto tempo mas não sabemos onde está localizado o mundo?

Não! Será que nem os adultos saibam que a borda da montanha esteja tão próxima? Nesses trezentos anos de história, os únicos que cruzaram o bosque, se dirigindo para o norte, além de Bercouli, fomos nós?

De qualquer maneira… isso é no mínimo estranho. Porém, não sabia o porquê de ser assim.

E agora parando para pensar, todos os dias, sempre na mesma hora os adultos acordam, tomam seu café da manhã e vão trabalhar nos campos ou na manufatura de ferramentas, o fato é que é uma rotina que nunca se altera…

É como Alice havia dito antes, que quatro horas não eram suficientes para chegar até Zakkaria.

Obviamente, nenhum dos três haviam estado alguma vez lá. A métrica era de acordo com o que escutaram dos adultos que diziam que o tempo até a outra cidade seriam de dois dias. Porém fica a pergunta, quantos desses adultos realmente foram e voltaram?

Essa pergunta é apenas uma de várias que começaram a lotar a mente de Eugeo. Porque isso estava parecendo tão suspeito? E enquanto estava tentando procurar respostas seu raciocínio foi interrompido com a voz de Alice:

“… B-Bem, de todas as maneiras estamos aqui e não há nada que se possa fazer a não ser entrar na caverna. Mas antes, vamos almoçar.”

Dito isso, ela pegou a cesta das mãos de Eugeo, abriu e depois começou a revisar se os alimentos estavam próprios para o consumo.

“Que ótimo! Estava esperando por esse momento. Estou morrendo de fome”, disse Kirito.

Eugeo também concordou e os dois trataram de sentar-se na grama para enfim comer.

Basicamente a comida eram frutas frescas e também desidratadas, com algum preparado a base de grãos e água Siral que foi servida em copos de madeira.

Depois de certificar-se que tudo estava em ordem, Alice lhes permitiu comer.

Kirito que já estava nervoso começou a devorar tudo que via pela frente. Depois disse com uma voz um tanto chorosa enquanto mastigava:

“Essa caverna… se encontrarmos muito gelo, então não teremos mais que nos preocuparmos com o almoço de amanhã.”

Enquanto mastigava sua comida, Eugeo se voltou para Kirito e perguntou:

“Me ocorreu algo nesse momento. Caso achemos o gelo, como iremos evitar que ele derreta e sobreviva até amanhã na hora do almoço? ”

“Uh!..”

“Sabe…, eu nem cheguei a pensar nisso…”

Os ombros de Kirito caíram na mesma hora. Porém, logo em seguida Alice respondeu sem demonstrar qualquer tipo de receio.

“Não vejo problemas quanto a isso. O caminho até aqui é curtíssimo. Se nos apressarmos, conseguiremos guardar na geladeira lá de casa. Mas vocês dois deveriam ter pensado nisso desde o começo.”

Muito embora a vila pareça ser um local quase feudal, existem alguns utensílios domésticos muito úteis que os garotos não tinham levado em consideração.

Eugeo e Kirito esconderam seus rostos envergonhados atrás da comida. E, ainda que tivessem tempo, acabaram comendo rapidamente como o de costume.

Após arrumar tudo de volta à cesta, Alice parou por um momento. Caminhou até as árvores próxima perto do rio e se abaixou para lavar suas mãos.

“Aaaai!”

Ela levantou rapidamente enquanto secava as mãos no lenço em seu bolso. Virou-se para os garotos e falou:

“Essa água. Está congelante. Parece que estamos no meio do inverno.”

Seus dedos perderam a cor. Inconscientemente começou a esfregar as mãos para poder esquentá-las novamente.

Nesse momento Eugeo automaticamente se aproximou e cobriu as mãos de Alice com as suas a fim de transmitir o calor para os dedos congelados da menina.

“E-Espere…”

As bochechas de ambos coraram na hora enquanto se encaravam. Um curto período se passou e logo soltaram as mãos ao mesmo tempo.

Eugeo deu-se conta que havia feito algo que normalmente nunca faria e sacudiu sua cabeça dizendo:

“A-Ah… não, isso é…”

“Beeeem, creio que deveríamos ir agora não é, senhoras e senhores?” Kirito interrompeu.

“Obrigado pela ajuda…” Eugeo pensou enquanto dava um pequeno cutucão no seu amigo que depois pegou a alça do cantil, passou em volta do corpo e seguiu a caminho da entrada da caverna sem olhar para trás.

Era difícil de acreditar que o rio Ruhr, que era tão grande, ficasse tão pequeno. Com um diâmetro de aproximadamente 2 ou 3 km acabava ficando diminuto o suficiente para escoar para dentro de um vão no lado esquerdo da caverna.

Eugeo estava imaginando que Bercouli havia pisado nessas mesmas pedras a mais ou menos trezentos anos, enquanto fazia o seu melhor para continuar adentrando o local.

De repente a temperatura começou a cair rapidamente, fazendo os garotos esfregarem seus braços para tentarem se aquecer.

Nesse momento, Eugeo se deu conta de algo que haviam esquecido, algo importantíssimo. Virou-se para trás e perguntou:

“Ah, não! Não trouxe nada para iluminar o caminho. Kirito, você lembrou de trazer algo?”

Mesmo que estivessem somente à alguns passos da entrada, o local já estava suficientemente escuro ao ponto de mal poder distinguir as expressões nos rostos uns dos outros. Na quase completa escuridão da caverna, ele depositou toda a confiança que tinha em seu companheiro, mas a resposta foi:

“Eu, bem… não! Esqueci completamente…”

Enquanto Eugeo pensava em quantas vezes já havia escutado esse tipo de desculpas, ouviu um sinal de alento mais adiante.

“Sério mesmo?… Ah, vocês dois…”

O garoto pode perceber Alice enfiando as mãos nos bolsos do avental e tirando um objeto encurvado e um pouco largo. Era o pequeno pedaço de madeira que havia colhido no começo de sua aventura.

Manteve o graveto erguido com sua mão direita e fechou seus olhos. Seus pequenos lábios se moveram, começando um estranho ritual de versos que Eugeo não conhecia.

Finalmente sua mão esquerda fez um peculiar símbolo e uma luz pálida emitiu do graveto. A luz foi aumentando de intensidade, afastando a escuridão à uma considerável distância.

“Opa!”

“Uau!…”

Kirito e Eugeo, sem querer, deixaram escapar sons assombrados ao mesmo tempo.

Ainda que tivessem ciência de que Alice estivesse estudando as artes sagradas, nunca haviam tido a oportunidade de ver ela as executando com seus próprios olhos.

Segundo os ensinamentos da irmã Azariya, todos os rituais que vem do poder de Stacia, a deusa do sol e da terra advinda de Terraria, com exceção das artes obscuras de Vector, existiam para proteger a ordem e a paz.

As artes sagradas da irmã da igreja e suas alunas, são somente utilizadas para fins medicinais quando as plantas para esse fim não dão conta de curar os enfermos. Eugeo que compreendia isso, se dirigiu para Alice e perguntou:

“Ei Alice…, usar as artes assim não vai te trazer consequências? Digamos, não vão lhe por de castigo ou algo assim?”

“Humm, sim, já fui castigada algumas vezes por isso. Diria umas dez vezes…”

“…”

Depois de dizer isso, Alice entregou o graveto que brilhava para Eugeo com um sorriso. Eugeo então percebeu e disse:

“Eu? Tenho que ir na frente?”

“Mas é claro, não vai permitir que uma mulher linda e frágil como eu vá na frente não é? Eugeo você vai na frente e Kirito vai atrás. Vamos! Não temos tempo a perder. ”

“S-Sim…”

Se deixando levar pelo momento, Eugeo então começou a caminhar para o interior da caverna.

A impressão que dava era que a parede rochosa se estendia infinitamente. Elas refletiam à luz da tocha improvisada com um tom azul acinzentado, como se estivessem molhadas. Devido a isso ficaram focados em observar se em algum ponto pudesse haver algum sinal de gelo. Porém, até aquele momento, nada encontraram.

Depois de andarem por mais algum tempo, Eugeo chamou Kirito que andava atrás dele:

“Ei! … Você não disse que deveria haver gelo já na entrada da caverna?”

“Eu disse algo assim?”

“Sim, disse.”

Enquanto discutiam, Alice usou sua mão esquerda para interromper Eugeo e rapidamente cochichou:

“Eugeo, traga a luz para cá!”

“Hã? …”

Eugeo se aproximou levando a luz até onde estava Alice. Ela puxou ar como se estivesse mordendo seus lábios e forçou uma respiração mais forte.

“Aaah…!”

“Viu? Pode ver, certo? O vapor da nossa respiração fica condensado, como quando estamos no inverno.”

“Aí está! Exatamente, porque está fazendo muito frio…”

Ignorando o que Kirito disse, Eugeo compreendeu o que Alice dizia.

“Ainda que seja verão, aqui dentro é com certeza o clima de inverno. Provavelmente há gelo nesse lugar.”

“Sim, vamos procurar mais adiante.”

Eugeo deu a volta e continuou a caminhar. E teve a sensação de que quanto mais avançavam no interior da caverna, menor ela ficava.

Escutavam apenas o som dos seus passos ecoando e a correnteza do rio que se seguia entre as rochas e mais nada;

“Se tivéssemos um bote, conseguiríamos ir muito mais longe rapidamente pela correnteza.”

Para Kirito que disse isso sem medo algum, Eugeo respondeu com um “Não acha que está exagerando?”.

Já haviam entrado mais do que o planejado inicialmente naquela cova gelada, o pensamento de Eugeo agora era somente um, o possível encontro com o…

“Ei! e se o dragão aparecer? O que iremos fazer?”

Alice disse isso como se pudesse ler claramente a mente de Eugeo naquele momento.

“O que iremos fazer? É claro que correr o mais rápido que pud..”

A resposta foi interrompida pela voz rebelde de Kirito.

“Oras! Continuaremos fazendo o que viemos fazer. Se nem quando Bercouli pegou a preciosa espada do dragão ele o perseguiu, porque iria se importar por pegarmos alguns pedaços de gelo?”

“Mas o que você está dizendo?”

“É sim. Além do mais, se voltarmos à vila com uma prova de que encontramos o dragão, Jink e seus amigos iriam ficar se remoendo de inveja.”

“Só pode estar brincando. Vou te dizer isso somente uma vez. Se o dragão aparecer nós vamos é nos separar e correr sem olhar para trás. ”

“Eugeo, vocês está falando muito alto.”

“Isso é porque você fica dizendo essas maluquices, Kirito…”

De repente, ouviram um ruído alto e estranho, fazendo Eugeo parar de falar imediatamente. Era um som como se algo estivesse se rompendo sob os pés do pequeno grupo.

Ele apontou a luz até sua bota direita, e disse:

“Ah! Olhem isso!”

Alice e Kirito se inclinaram para ver, Eugeo moveu seus pés de lugar. A água acumulada na pedra havia criado uma fina camada de gelo estriada.

Esticou o braço e pegou uma pedra que se parecia um pouco transparente.

Depois de colocá-la na palma de sua mão por alguns segundos, a pedra derreteu até transformar-se em gotas de água. Os três se encararam e começaram a sorrir.

“Isso é gelo, não há dúvidas. É certo que tem mais lá para frente.”

Eugeo disse isso enquanto iluminava os arredores. A luz refletia azulada na camada de água congelada até onde a vista alcançava e então tudo mergulhava em trevas. Porém bem mais adiante havia outra fonte de luz, mais forte do que a que carregavam no pequeno graveto.

“Olhem! … Não sei como, mas tem muita luz lá longe.”

Ao ouvir Alice dizer isso, Eugeo moveu sua mão direita e se virou para onde haviam centenas de pontos de luz. Era possível ver elas piscando e as vezes até pareciam mover-se.

Nessa hora já tinham esquecido completamente sobre o assunto do dragão e correram em direção às luzes.

Levaram muito menos tempo do que achavam que seria para chegar até a origem das luzes. De repente as paredes simplesmente acabaram, dando lugar a uma cena tão fantástica que eles jamais poderiam conceber se não estivessem lá.

Ampla.

Era difícil crer que estivessem dentro de uma caverna embaixo de toneladas de terra e rocha. O local era extremamente espaçoso. Sua extensão superava facilmente em algumas vezes o tamanho da praça da vila, que ficava em frente à igreja.

A parede curva, a qual rodeava quase todo o ambiente, já não era mais acinzentada como antes. Agora resplandecia com um brilho azulado devido a uma camada transparente e cristalina de gelo.

Após ver a superfície do solo, Eugeo compreendeu:

“Eu sabia, essa é a foz do rio Ruhr”.

Era um lago enorme. Porém, a superfície estava estática. Firmemente congelada, das bordas até o centro.

Junto ao peculiar caminho branco sobre o lago, se encontravam colunas com estranhas figuras. Sua altura excedia tranquilamente a alturas das três crianças se estivessem uma nos ombros das outras. Eram angulares e hexagonais que terminavam com uma ponta cônica. Era como o cristal mineral em seu estado bruto que o velho Garita havia mostrado a Eugeo certa vez.

Porém, essas eram muito maiores e mais bonitas. As numerosas colunas azuis claro absorviam a luz sagrada do graveto que Eugeo carregava consigo e refletiam para todos os lados, deixando o enorme domo todo iluminado.

O número de colunas aumentava enquanto chegam mais ao centro do lago onde parecia haver algo obstruindo.

Era gelo. A parede que envolvia, o lago sob seus pés, as estranhas colunas hexagonais. Tudo que ali estava era feito do mais puro gelo.

A parede azul que subia até o teto e que, certamente, ia muito mais alto, tinha uma semelhança com o domo da igreja.

Os três haviam se esquecido do frio que lhes adormecia a pele enquanto continuavam aspirando aquela névoa.

Após um tempo, Alice disse com voz surpresa:

“…com todo esse gelo, poderíamos esfriar a comida da vila inteira.”

“Na verdade, podia colocar a vila toda no clima de inverno. Bom, vamos dar uma verificada.”

Assim que Kirito falou, começou a avançar mais alguns passos até colocar os pés no lago congelado. Foi cuidadosamente alternando seu peso corporal na superfície de gelo. De maneira que não houve nenhum ruído indicando que fosse se romper.

“É sempre assim”.

Ainda que Eugeo tivesse o dever de se opor a todas as loucuras de seu amigo, dessa vez a curiosidade falou mais alto.

“Mesmo se ainda existir um dragão branco de verdade aqui dentro, não me importo mais. Quero vê-lo.”

Levantando a luz sagrada, Eugeo e Alice foram atrás de Kirito. Evitando fazer barulho enquanto caminhavam por entre as colunas do lago, projetando suas sombras e se dirigindo ao centro.

“Isso é genial! Se conseguirmos ver o tal dragão e se ele for real, haverá histórias sobre nós por centenas de anos não é? E se pudermos fazer o que Bercouli não fez…, que é levar conosco um monte de tesouros desse guardião branco, será que o chefe da vila não reconsideraria a nossa tarefa sagrada?”

“Uugh!”

Enquanto Eugeo caminhava sonhando acordado, seu nariz esbarrou com a nuca de Kirito, que havia parado repentinamente…

“Ei Kirito! Não pare assim de repente! …”

Porém, não houve resposta do seu companheiro. Em vez disso, um leve gemido se escutou.

“… O-o q-que foi isso…!?”

“Ãh… ?”

“O que foi isso??”

Eugeo e Alice se olharam e logo pararam um de cada lado de Kirito.

“Mas do que vocês estão faland…”

Alice, que estava olhando o mesmo que Eugeo no momento, interrompeu o que dizia.

Era uma montanha de ossos.

Todos eles eram feitos de gelo azul. Brilhavam rigidamente como se fosse esculturas de cristal. Cada um deles era enorme e estavam uns sobre os outros. Formando uma montanha tão alta quanto as colunas hexagonais que estavam por todos os cantos do local.

E acima dos ossos, havia uma espécie de lápide que provavelmente identificava a quem pertencia essa tumba gigantesca.

Um crânio, Eugeo sabia só de olhar. As cavidades vazias onde deveriam ficar os olhos e largas fossas nasais. Os chifres que saíam de onde era a nuca e incontáveis protuberâncias afiadas como garras ou espadas, fixadas em uma grossa mandíbula.

“São os ossos do… dragão branco?”

Alice sussurrou:

“Está morto? …”

“Sim… Mas não foi de causas naturais.”

A resposta saiu de Kirito que já havia se recuperado da surpresa.

Eugeo ficou olhando-o e se deu conta que raramente tinha visto seu companheiro assim, Kirito era uma tempestade de muitas outras emoções que ele não conseguia identificar.

O garoto de cabelos negros se aproximou mais dos ossos, abaixou e recolheu uma enorme garra que parecia ser de uma das patas dianteiras do dragão.

“Olhem… Aqui tem marcas de um monte de feridas e a ponta foi quase toda cortada…”

“Uma luta…!? Mas existe algum ser vivente nesse mundo que possa brigar e, além disso, matar um dragão…!?”

A mesma pergunta que fez Alice flutuava na mente de Eugeo.

“Estamos falando do Dragão Branco do Norte. Ele que tem vivido incontáveis anos em diversos lugares da cadeia montanhosa do norte, a qual guarda e protege todo o Mundo Humano das forças da escuridão. O protetor mais poderoso que existe.

Que tipo de ser poderia matar algo assim? ”

“Uma luta contra outros animais ou outros dragões não deveria causar feridas como essas.”

Kirito continuou enquanto raspava seu polegar na garra.

“Bem…Então o quê…?”

“Essas feridas foram feitas com uma espada. E diria que não uma espada qualquer dada a criatura que ela machucou. Quem matou esse dragão foi… um humano.”

“M-Mas… Veja bem, mesmo Bercouli, o herói que ganhou o torneio da capital, não pode fazer nada mais além de fugir dele. É impossível para um espadachim, seja a classe que for.”

Ao chegar com a conversa nesse ponto, parecia que Alice havia se dado conta de algo, porém manteve para si.

Se fez um momento de silêncio no lago que agora todos sabiam, tinha se convertido na maior tumba que existiu.

Alguns instantes depois, um suspiro cheio de medo surgiu de seus pequenos lábios.

“… Quem sabe…os Integrity Knight…? Os cavaleiros a mando da Igreja Axiom que mataram o dragão branco…?”

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA…